31/03/2026
Hoje fui no velório do pai de uma amiga e saí de lá com esse texto na cabeça.
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É a vida que se debruça
sobre a morte
Ou é a morte que se debruça
sobre a vida?
Onde começa?
Onde termina?
Recomeça?
Se fosse um filme,
Quais gêneros eu mais atuei?
Drama? Ação? Comédia?
Fantasia? Terror? Aventura?
Se minha vida fosse um livro
haveria páginas em branco
Para representar meus vazios
E as quedas que ninguém viu,
Mas que se tornaram abismos dentro de mim.
Se minha vida fosse uma música,
Alguns trechos eu cantaria bem baixinho,
Outros eu deixaria vibrar no coração das pessoas que amo.
Se eu fosse um livro,
As páginas não precisariam ser numeradas, algumas linhas poderiam ter rasuras,
Algumas folhas estariam coladas porque ia doer demais reler.
Alguns capítulos só fariam sentido após terminar todo o livro.
Se eu fosse uma música,
Eu seria desafinada, sem harmonia, teria pausas em excesso, silêncios inapropriados...
Porque viver também é isso:
escrever sem saber o final,
cantar mesmo com a voz tremendo,
seguir mesmo quando parece que já não existe mais força.
A gente passa tanto tempo tentando acertar
que esquece de viver.
Como se a vida fosse um rascunho
e a versão final viesse depois.
A morte é uma pausa na história. Ela fecha o livro, silencia a música. E não têm pós crédito depois do filme.
Mas o que foi vivido
continua ecoando
em quem ficou,
em quem sentiu,
em quem, por um instante,
dividiu o mesmo capítulo,
a mesma melodia,
as mesmas cenas.
No fim,
não importa se a história foi perfeita
ou se a música foi bonita o tempo todo.
Importa se foi verdadeira.
Porque morrer, no fundo,
não é o maior medo.
O maior medo
é chegar no ponto final
com a sensação de que a gente
não escreveu o que podia,
não cantou o que sentia,
não viveu o que era possível,
E não se permitiu amar.
Como dizia Calligaris, "não espero ter uma vida feliz, mas espero que ela seja interessante.
Me interessa saber que ficaram marcas, memórias, ecos, afetos...
Me interessa saber que pude viver as intensidades do sentir...