29/05/2014
Trechos do artigo Linguagem e Criação, publicado nos "Arquivos Brasileiros de Psicologia" (Karla Valviesse e Silvia Tedesco):
"O conceito de emoção criadora porta, em si mesmo, uma novidade que funciona na complementação das ideias desenvolvidas por Bergson ao longo de sua produção. Potente conceito para o desenvolvimento de estratégias clínicas, nele se afirma, dentro dos quadros da intelecção, uma zona de divergência interior à consciência, que é capaz de colocá-la em contato com uma energia plena de afetabilidade, a ponto mesmo de transmutar sua essência. Ao tratar do conceito de emoção criadora, Deleuze (No livro "Bergsonismo", p. 89) o define como aquilo que vem colocar-se no pequeno hiato existente entre a inteligência e a sociedade (todo e qualquer mandamento social, destes que já nem necessitamos ouvir para seguir, e pode operar ''uma gênese da intuição, isto é, (...) determinar a maneira pela qual a própria inteligência se converte e é convertida em intuição''. Segundo o autor, somente esta emoção criadora, que difere simultaneamente da inteligência e do instinto, é capaz de suscitar uma tal conversão, rompendo o círculo que apreende a humanidade nas cercanias que ela mesma edificou.
O efeito da emoção criadora na inteligência é o de produzir uma mobilização no pensamento, na linguagem, enfim, em todas as instâncias de produção humana. Esta emoção abala os alicerces racionais e promove a possibilidade de abandono das exigências maiores do intelecto para, então, desprendida do engessamento daquilo que Bergson chama de "lógica utilitária", permitir à consciência experimentar a duração e ascender a uma realidade outra, ao fluxo movente da própria duração.
Mas cabe ressaltar: tal potência é capaz de deslocar a inteligência sem, contudo, prescindir dela. O próprio Bergson (Em "O Pensamento e o Movente", p. 128) faz notar que ''a intuição, aliás, somente será comunicada através da inteligência''.
Assim, a liberação que a emoção criadora porta e que é capaz de inserir o homem em um plano diferenciado, disponibilizando-o à criação e à invenção, se configura como a própria possibilidade de simpatizar com elementos estranhos a si, em um campo de experiência no qual o esforço intelectivo deve voltar-se para o desenredamento de suas próprias tramas. Essa operação, como visto, não pode prescindir da própria inteligência. Ainda segundo Bergson, (idem, p. 145) ''O que a inteligência espontaneamente havia feito, um esforço da inteligência poderia desfazer. E seria, para o espírito humano, uma liberação''.