26/02/2022
"Por paradoxal que possa parecer, deve-se admitir que a guerra poderia ser um meio nada inadequado de estabelecer o reino ansiosamentedesejado de paz perene, pois está em condiçõesde criar as grandes unidades dentro das quais umpoderoso governo central torna impossíveis outras
guerras. Contudo, ela falha quanto a esse propósito,
pois os resultados da conquista são geralmente decurta duração: as unidades recentemente criadasesfacelam-se novamente, no mais das vezes devidoa uma falta de coesão entre as partes que foramunidas pela violência. (...)
Dentre as características psicológicas da civilização, duas aparecem como as maisimportantes: o fortalecimento do intelecto, que estácomeçando a governar a vida do instinto, e ainternalização dos impulsos agressivos com todas as suas conseqüentes vantagens e perigos. Ora, a
guerra se constitui na mais óbvia oposição à atitude
psíquica que nos foi incutida pelo processo de civilização, e por esse motivo não podemos evitarde nos rebelar contra ela; simplesmente não
podemos mais nos conformar com ela. Isto não éapenas um repúdio intelectual e emocional. Nós, os pacifistas, temos uma intolerância constitucional
à guerra, digamos, uma idiossincrasia exacerbada
no mais alto grau.
Realmente, parece que o rebaixamentodos padrões estéticos na guerra desempenha um papel dificilmente menor em nossa revolta do que
as suas crueldades.
E quanto tempo teremos de esperar até que o restante da humanidade também se torne pacifista? Não há como dizê-lo. Mas pode não ser utópico esperar que esses dois fatores, a atitude cultural e o justificado medo das conseqüências de
uma guerra futura, venham a resultar, dentro de um tempo previsível, em que se ponha um término à
ameaça de guerra.
Por quais caminhos ou por que atalhos isto se realizará, não podemos adivinhar. Mas uma coisa podemos dizer: tudo o que estimula o
crescimento da civilização trabalha simultaneamente contra a guerra."
Sigmund Freud, 1932.
Carta de Freud à Einstein na ocasião da indagação de Albert sobre o 'Por que da Guerra?'.
Fonte: Correspondências entre Freud e Einstein, 1932.
Foto: CNN.