26/01/2020
Bom dia! Quando nascemos somos convidados a participar de uma viagem, pode-se comparar com um grande barco, o maior que você pode imaginar, cheio de indivíduos, navegando sobre a imensidão dos oceanos. Para muitos essa viagem será longa e para outros muito curta. Cada um desenvolve sua personalidade, seu caráter, suas próprias características, seguindo sempre em movimento para uma estrutura mental mais maleável e estável. Tudo para estabelecer paz interior e nas relações interpessoais em um ambiente muitas vezes hostil.
Otto Kernberg, psicanalista norte americano contemporâneo, ao falar de estrutura psíquica enfatiza a importância da estabilidade e continuidade da organização mental, intrapsíquica, ao longo do tempo. Para ele, à palavra estrutura devemos associar a ideia de estabilidade. Quanto mais saudável a organização mental, mais estável será a pessoa. Quanto mais frágil a estrutura psíquica, por outro lado, menos resistência terá a pessoa às muitas situações e eventos que geram tensão e estresse, tão comuns nas atividades laborativas e nas relações interpessoais.
Para compreender o que Kernberg nos diz, basta comparar o funcionamento mental de uma criança com uma pessoa adulta. À criança são comuns, e não causam nem estranheza e nem preocupação, as frequentes perdas de equilíbrio, por vezes muito intensas. Duas crianças num momento estão brincando e se dizendo as melhores amigas. Instantes depois, por motivos absolutamente corriqueiros, estão aos gritos e se agredindo. Seriam desequilibradas? São crianças, apenas isto. Como estão em processo de construção da estrutura psíquica, são carentes de recursos internos que lhes possibilitem se manterem estáveis nas esferas das emoções, das relações interpessoais, na organização das idéias e, evidentemente, no comportamento em diferentes situações. Kernberg, em seus escritos, afirma que a qualidade da organização mental se reflete especialmente na qualidade das relações interpessoais, das operações defensivas e da percepção da realidade (reality testing). Com estas afirmações entendemos que a qualidade de nossa estrutura psíquica irá definir a qualidade de nossa vida, em seus aspectos fundamentais, como a capacidade de construir relações interpessoais saudáveis e equilibradas; a capacidade de suportar as tensões e pressões inevitáveis e frequentes (operações defensivas); a capacidade de desenvolver uma compreensão realista e objetiva de nós mesmos, do outro e do mundo em geral (teste/exame da realidade).
A nossa mente, nesta compreensão, se organiza em três níveis estruturais diferentes, a saber, neurose, estados borderline, e psicose. Compreendê-los não é difícil. Por neurose, entendido como nível de estrutura psíquica, Kernberg entende um quadro bastante favorável. O “neurótico” seria a pessoa cuja organização mental lhe permite trabalhar, relacionar-se com as pessoas, e desenvolver uma vida bem “normal”. O que distingue a neurose seria um quadro de ansiedade, permanente, difusa, que causa um signif**ativo sofrimento psíquico, uma qualidade de vida limitada em razão da ansiedade, mas de modo geral está situado nos limites da normalidade. O neurótico não f**a isento, ainda, de diferentes tipos de sintomas e somatizações.
Quanto ao segundo nível estrutural, o borderline (do inglês, limite, fronteira), trata-se da organização mental que está na fronteira, situado entre a normalidade e a patologia grave. A expressão que se utiliza para o borderline é “estável instabilidade”, pelo fato de a pessoa não ter atingido uma suficiente integração no processo de desenvolvimento da psique. Em suas pesquisas, Kernberg constatou que a pessoa com estrutura borderline alterna situações em que percebe a realidade de modo globalmente positivo (all good), com estados em que tudo é percebido negativamente (all bad). Concretamente, a pessoa com esta estrutura será caracterizada por acentuada instabilidade e impulsividade, durante toda a vida, que afetará as relações interpessoais, o modo de se perceber e perceber o outro, e o estado de humor. Outra característica do borderline será a impulsividade, que atingirá a esfera da sexualidade e da agressividade. É um tipo de organização mental, pelo descrito acima, que resultará em comportamentos muito inadequados, provocando sérias dificuldades para a pessoa e para aqueles que com ela convivem.
Por fim, a psicose apresenta o nível mais acentuado de fragilidade psíquica. É neste nível que se situam as patologias mais severas, como a esquizofrenia. Sem entrar em detalhes, a essência da psicose é a perda do teste ou exame da realidade, o que fragiliza acentuadamente as principais funções mentais, como a capacidade de pensar logicamente, de sentir e expressar as emoções, e de comportar-se em sintonia com o ambiente e com a situação. Com frequência, o psicótico vive numa realidade criada por ele, sendo frequentes os delírios e as alucinações.
Esta reflexão nos permite constatar que somos extremamente complexos em nossa organização mental. Temos uma específ**a organização mental, que exerce acentuada influência em nosso modo de ser, e é o resultado de nossa história, sobretudo do tipo de infância que tivemos. O que fazer então? Precisamos nos conhecer em nível de profundidade, e organizar a vida em sintonia com o tipo de organização mental que temos. Há pessoas felizes e infelizes em todos os níveis de organização mental. Depende da vida que levam, e das escolhas que fazem. Precisamos entender que somos responsáveis pelo o que nos tornamos ou pelo o que nos tornaremos. Espelho do outro nos seus piores estados mentais? Uma simbiose com o horror? Que por muitas vezes pode estar num estado "ilusório, embotado, sem coerência em seus pensamentos ou é preciso buscar o auto conhecimento, o mais profundo possível? Prosseguir para uma estrutura mental mais estável para lidar consigo mesmo e com o outro não perdendo a consciência de quem és nessa viagem. NÃO ESQUECENDO DE PROMOVER AMBIENTES SAUDÁVEIS PARA NOSSAS CRIANÇAS PARA QUE CRESÇAM E SEJAM MAIS SAUDÁVEIS. Para todos nós dentro dessa embarcação f**am as perguntas; Quem escolhemos ser? Quem desestabiliza e enfraquece ou quem ajuda na construção de ambientes e indivíduos saudáveis? Quem atea fogo ou quem apaga o fogo na embarcação? Quem trás paz ou quem tumultua toda a viagem?
As suas escolhas e atitudes transformam todo ambiente É a sua responsabilidade como ser participante dessa viagem da vida promover ambientes saudáveis e não que adoeçam. Não somos mais crianças, somos adultos . E o que fazer com toda a bagagem que temos? Conhecer que tipo de bagagem é essa é essencial, para podermos lidar com as demandas que emergirão dela.