Gerontóloga Anabel Machado

Gerontóloga Anabel Machado Anabel Machado | Gerontóloga pela UFSCar

Hoje acordei atravessada pela saudade. E daí lembrei da frase “A saudade é o azar de quem teve muita sorte”. Essa frase ...
27/02/2026

Hoje acordei atravessada pela saudade.

E daí lembrei da frase “A saudade é o azar de quem teve muita sorte”. Essa frase é de e é definição precisa do que signif**a ter tido avós presentes, pais atentos, uma casa onde o tempo era contado em almoços de domingo. A saudade nasce justamente onde houve vínculo. Ela é a marca de quem recebeu algo que não pode ser substituído.

Talvez por isso o distanciamento doa tanto. Não apenas o distanciamento definitivo da morte, mas também aquele que chega antes: quando os encontros f**am mais curtos, quando a rotina encurta as conversas, quando o telefone substitui o café passado na hora, quando o abraço vira promessa para a próxima visita. A gente acha que a vida é longa o suficiente para remarcar o domingo, mas um dia percebe que os calendários não obedecem à nossa confiança.

O adoecimento costuma ser o ponto em que a saudade começa antes da ausência. Primeiro vêm as pequenas mudanças quase invisíveis. A memória falha num detalhe que antes era certeza. O corpo perde um pouco da firmeza. As histórias passam a se repetir. Aos poucos, percebemos que estamos assistindo a uma despedida que não foi anunciada. Existe um tipo de luto que começa quando a pessoa ainda está ali, sentada na nossa frente, mas já diferente do que foi um dia.

Talvez o reconhecimento venha tarde para muitos de nós. Reconhecer o que os avós sustentaram em silêncio. Reconhecer o que os pais abriram mão sem anúncio. Reconhecer o quanto da nossa estabilidade foi construída sobre o esforço deles. Há um momento na vida adulta em que percebemos que aquelas pessoas que pareciam permanentes sempre estiveram apenas de passagem. E f**a a lembrança de que existiram mãos que nos seguraram quando ainda não sabíamos caminhar sozinhos.

No fim, talvez o azar não esteja na saudade em si, mas no tempo que levamos para entender a sorte. Porque quem sente saudade quase sempre está, na verdade, contando a história de um grande encontro. E algumas vidas, mesmo distantes, continuam acontecendo dentro da memória de quem ficou.

Sigo refletindo sobre quem toca o meu coração; e sobre o privilégio que eu tenho de tocar a memória e a longevidade dess...
23/02/2026

Sigo refletindo sobre quem toca o meu coração; e sobre o privilégio que eu tenho de tocar a memória e a longevidade dessas pessoas.

Trabalhar com pessoas idosas é lidar com histórias, afetos e futuros possíveis.
Eu entro com humanização, técnica, estudo e método.
Mas permaneço porque existe vínculo.

E então sigo me apegando nisso: tem encontros que são trabalho, e tem encontros que são propósito.

11/02/2026

A cultura contemporânea transformou o tempo em algo sempre negociável, sempre adiável, especialmente quando se trata das relações com pessoas mais velhas. Naturalizamos a ideia de que o convívio intergeracional pode esperar, como se ele não fosse parte estruturante da forma como envelhecemos… individual e coletivamente.

O que me inquieta na imagem evocada por Debía Tirar Más Fotos, do Bad Bunny, não é a ausência em si, mas o percurso cultural que leva até ela. Vivemos em uma lógica que valoriza o novo, o produtivo, o rápido, e empurra o envelhecimento para as margens da vida social, tratando a convivência com pessoas idosas como algo opcional, periférico ou secundário.

Na prática, isso fragiliza a transmissão de memória, rompe continuidades e empobrece a experiência de todas as gerações envolvidas. Não é apenas quem envelhece que perde quando os vínculos se enfraquecem; é a própria noção de pertencimento que se dissolve.

Escrevo isso também em primeira pessoa, porque ninguém está fora dessa engrenagem. Questionar essa cultura exige mais do que intenção. Exige revisão cotidiana das prioridades, dos ritmos e das presenças que escolhemos sustentar.

Talvez o incômodo maior não seja a cadeira vazia, mas o quanto nos acostumamos com a ideia de que ela é inevitável.

Envelhecer não dói.O que dói é envelhecer sem cuidado. Vamos às evidências? Hoje, estudos populacionais mostram que cerc...
10/02/2026

Envelhecer não dói.
O que dói é envelhecer sem cuidado.

Vamos às evidências?
Hoje, estudos populacionais mostram que cerca de 10% a 20% dos idosos que vivem na comunidade já são frágeis, e esse número ultrapassa 30% nas idades mais avançadas. Fragilidade não é sinônimo de doença: é perda de reserva fisiológica, cognitiva e social.
E não, isso não começa aos 80.

No Brasil, dados do IBGE indicam que quase 1 em cada 10 pessoas com 60+ já apresenta limitação para atividades básicas da vida diária. Quando olhamos para as atividades instrumentais (como sair sozinha, lidar com dinheiro, usar transporte), esse número cresce ainda mais. Autonomia não some de uma vez… ela vai sendo reduzida em camadas!

O que conecta esses dados não é a idade, e sim a cultura da não-prevenção.

Fomos educados para procurar cuidado quando algo “quebra”: após a queda, após a internação, após o esquecimento virar risco. Vivemos apagando incêndios quando falamos da saúde dos nossos pais e avós.

Sistemas de saúde, políticas públicas e até famílias ainda operam majoritariamente no modo reativo. Isso explica por que cuidamos tão bem da crise, e tão mal da trajetória.

O movimento wellness trouxe uma ruptura relevante nesse cenário. Pela primeira vez, prevenção virou conversa cotidiana e até hype. Entre os jovens se fala de rotina, hábito, consistência. Estamos parando de beber, trocando a balada pelo spinning e a corrida virou point. Não por acaso, o mercado global de wellness já ultrapassa US$ 1,8 trilhão, impulsionado por práticas preventivas.

O problema é quando essa lógica para na estética e na performance, e não atravessa o envelhecimento.

Porque é exatamente aí que o impacto é maior.
A OMS, com a agenda da Década do Envelhecimento Saudável, é clara: sistemas precisam sair do foco exclusivo em doenças e passar a sustentar capacidade funcional ao longo da vida, com cuidado integrado, acompanhamento contínuo e ações antes da dependência se instalar. Prevenir fragilidade não é luxo, e sim política pública inteligente.

No fim, a pergunta não é motivacional.
É estrutural e pessoal ao mesmo tempo: o que fazemos hoje reduz ou aumenta a probabilidade de fragilidade amanhã?

06/02/2026

Num dia desses, numa conversa de corredor, uma paciente minha comentou que parecia que, ultimamente, só coisas ruins estavam acontecendo. Não foi um bem um desabafo, foi mais um cansaço acumulado. A amiga que estava ao lado ouviu e respondeu com uma simplicidade que me atravessou: “calma, dias felizes acontecem”.

Fiquei com isso na cabeça nesses últimos dias. Porque não era uma tentativa de minimizar o que estava difícil, nem de “pensar positivo”. Era só um lembrete gentil de que a vida não se organiza em fases bem definidas de sofrimento e felicidade. As coisas acontecem tudo de um jeito meio misturado.

A gente passa por períodos duros e, mesmo assim, em algum lugar do caminho, ainda ri, ainda encontra pessoas queridas, ainda vive momentos bons… às vezes tão pequenos que quase passam despercebidos. E é aqui que tá a beleza do ordinário.

Daí me lembrei do que aprendi com Tish Warren, uns anos atrás, quando li A Liturgia do Ordinário (que f**a de recomendação). No meio de tudo isso, eu tenho aprendido que existe uma beleza silenciosa no ordinário… na vida como ela é, nos dias comuns, nos gestos simples que continuam acontecendo mesmo quando nada parece especial. Esses momentos não apagam o que dói, mas existem. E contam.

Esse vídeo é um recorte de alguns bons momentos dos últimos dias. Não como prova de que está tudo bem o tempo todo (até por que, perrengue a gente tem todo dia), mas como lembrança de que dias felizes não param de existir só porque uma fase tá difícil. Eles seguem acontecendo, no meio da bagunça, do jeito que da pra acontecer

Estimulação cognitiva ef**az exige mais do que boas atividades.Ela depende de planejamento, objetivos terapêuticos claro...
29/01/2026

Estimulação cognitiva ef**az exige mais do que boas atividades.

Ela depende de planejamento, objetivos terapêuticos claros e adequação ao perfil cognitivo; especialmente em contextos de alta escolaridade.

Quando a intervenção é bem estruturada, o engajamento é consequência, o desafio é calibrado e o processo se sustenta no longo prazo, inclusive como estratégia de prevenção.

👉 Para profissionais que buscam estruturar suas sessões com mais intencionalidade e consistência, o PlanejaCog está disponível no link da bio.

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São Carlos, SP

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