Filme do dia: cinema e sanidade

Filme do dia: cinema e sanidade A finalidade desta página é compartilhar opiniões sobre filmes, séries, programas de televisão.

17/01/2025

[FILME DO DIA – A SUBSTÂNCIA, 2024, direção e roteiro de Coralie Fargeat]

Quem lê – se é quem alguém lê – estes textos deve ter percebi que me esquivo do papel de crítico. Não tenho competência para transcender a subjetividade do “eu gostei ou não gostei”, como também só escrevo sobre o que me atravessa e reverbera no imenso galpão ocupado por minha mente. Por isso, um filme com Demi Moore – segundo alguns, a Deborah Secco hollywoodiana – não seria, a priori, algo a se evitar, assim como clamor público e elogios vagos não me instigam a me interessar sem outros elementos motivadores. Para ser bem sincero, volto para casa cada dia com um humor – não necessariamente eufórico, bom – e escolho uma catarse que me atenda. E me ajudar nem sempre é me fazer sorrir pra não chorar: pode ser bem o oposto e a fé de que sei diferenciar quando preciso do riso ou do choro é uma de minhas maiores virtudes.

A SUBSTÂNCIA pode ser dirigido pela francesa Fargeat, mas é inegavelmente cronenberguiano, algo que se deve assumir como ponto de partida. E o que é ser “cronenberguiano”, afinal? Bem, é uma postura diante do fato de que, fazendo minhas as palavras de Shakespeare, em MACHBETH, sua peça mais sombria, “a vida é um conto narrado por um louco cheio de som e fúria, e que não signif**a nada”. Deu para formar alguma projeção mental do conceito? Não? Então, assista a um filme de Cronenberg chamado A MOSCA, lançado em 1986, estrelado por Jeff Goldblum, que interpreta um cientista que crê na possibilidade de algo se teletransportar – metáfora para o “eu não estou onde eu quero, como faço para sair daqui e aparecer onde acho que seria mais, sei lá, feliz?”. Ele cria um dispositivo que funciona, porém, ao testar em si mesmo, não percebe que uma pousou na sua sopa... brincadeira, a mosca, coitada, entrou de gaiato no experimento. Pronto, a realidade vai se tratar lá naquele sanatório em que se passa a história do romance A MONTANHA MÁGICA, de Thomas Mann, e no seu lugar f**a... f**a uma outra realidade, toda ela tecida por Cronenberg. Agora o leitor vai alcançar um profundo entendimento, se e somente se assistir ao filme indicado – A MOSCA, para que não fiquem brechas para desculpas.

Feitas as devidas apresentações, convido o leitor a matutar comigo: a definição de Shakespeare e o núcleo do dilema existencial do personagem do filme de Cronenberg não convergem num ponto que, de certa forma, é parte da trágica travessia humana pela vida? Em outras palavras, seria justo afirmar que nós não SOMOS nada, apenas ESTAMOS algo, seja esse algo “satisfeitos”, seja “frustrados”, dentre quase infinitas opções, certo? Então, se existir é da ordem transitória do estar, qual é ou quais são as dificuldades de, não estando “satisfeito”, um indivíduo deslocar-se de um “estar A” para um “estar B” que possa ser um estado de alma melhor para ele? Kant diria ser preguiça somada à covardia, Nietzsche diria que nos esquecemos do que nos frustra... vai longe.

E no complexo labirinto de tais dilemas do “estar-no-mundo”, valendo-me aqui da percepção de Drummond, está o fenômeno do envelhecimento. É, nós envelhecemos e isso não é bom, não importa o quanto tentemos nos enganar, como aquela voz anônima no vestiário masculino que diz “quatorze não é pequeno!”. Desculpe quem se sentir afetado, mas é, sim, pequeno. E, do mesmo modo, a pele que vai perdendo vitalidade, a necessidade de injeções de botozx e de harmonizações faciais, sessões de terapia (fuja disso!) ou análise (aventure-se nisso!), os óculos de leitura, o Centrum nosso de cada dia, as reposições hormonais, o pantoprazol, o ômega 3... tudo isso são evidências de é péssimo envelhecer. Sim, porque, para os que sobreviverem à vida nas fases em que ela ainda pode ser boa, uma hora ou outra, é bem provável que um Dannis Quaid vestindo um paletó feito com o tecido de um puff de zona (puteiro, sendo claro) vá lhe dizer que lamenta muito, mas aos 50 tudo acaba. Você, na hipótese de ser uma alma ingênua ou uma alma patética, pode ainda perguntar o que acaba e esse canastrão vai fugir, vai deixar você num vazio. E o resto é mistério.

O filme A SUBSTÂNCIA segue um roteiro que o trailer entrega, por isso não temo os spoilers acidentais: Demi Moore interpreta uma musa fitness cinquentona que não caiu na real de que, mesmo com todo seu zelo pela aparência, para ela acabou. E é então que a trama cronenberguiza-se: ela sofre um acidente de trânsito, é atendida por um médico que é seu fã (onanicamente, se é que me entende, leitor), num ambulatório em que os closes nas rugas da celebridade jurássica contrastam com o rostinho a la Ken Humano, que deixa em seu bolso, o bolso de um sobretudo amarelo, um convite a aderir à “substância”. Algo que, segundo o enredo, provoca uma alteração no DNA e desencadeia no corpo velho (matriz) a criação de uma versão melhor de si (outro/a).

Lizz, personagem de Demi Moore, reluta, porém o espelho revela caimentos – seios, bunda, rosto... Relutância se torna adesão e o endereço para retirar sua iogurteira Top Therme, perdão, sua Substância é sugestivio: Byron Alley. Ela vai, entende que o processo vai criar um outro eu dela, entende que cada uma f**ará ativa por sete dias até “switch” (flip flop, troca-troca) com a outra, e, o mais importante, elas são uma só. Se você, leitor, tem menos de quarenta anos, precisa ter fé em minhas palavras, se já tem mais, ou já aceitou isso, ou entendeu e faz o que pode, ou está me achando um tremendo filho da... você sabe, embora, em breve, não precisarei evitar a palavra omitida.

Tenho 45 anos e dou meu depoimento: tudo está mudando e o mundo é repelente a quem é está em rota de colisão com meio século de idade. Há dias em que vejo graça na imbecilidade humana, há dias em que me sinto sozinho e triste. Não está tudo bem, mas vou dizer que está tudo bem para o leitor f**ar “numa boa”. Ademais, é um filme muito bom e redimiu Demi Moore. Só me indago quantas noites insones elas atravessou até esse reconhecimento aos 62 anos. É, Demi Moore tem 62 anos.

12/01/2025

SÉRIE DO DIA –“PÉ NA COVA”, GLOBOPLAY]

Durante esta semana, publiquei uma resenha sobre o filme MA (“ULTIMATE”, 2019), com a impressionante OCTAVIA SPENCER, no papel de uma mulher com quem o mundo não foi justo – o que não justif**a o desfecho – e a consequência de tantas pancadas da vida foi o que, pessoalmente, considero mais como punição do destino do que escolha de quem atravessa os dias sem alguém para partilhar a aventura da existência. Há, de fato, aqueles que optam por não se arriscar e, com o tempo, acabam por suavizar o pesar do futuro que, às vezes, demora a chegar. Porém, chega e traz com ele vazios e silêncios. Outras reflexões que a história despertou em mim estão na resenha sobre o filme.

Não há muitos leitores hoje para textos longos e a escrita após assistir a algo que me faz refletir é um exercício mental, pois não faz sentido combater o sedentarismo físico e deixar a “musculatura cerebral” atrofiar. Se quem negligencia o corpo, alimentando-se mal e deixando de lado o hábito de se exercitar, acumula problemas e acaba por perder a qualidade mínima de vida; quem não cultiva o pensamento, não lê, não escreve, não se informa e não reflete em busca dos sentidos presentes no que vive também se prejudica. De modo que esses textos seriam para mim apenas, porém, acredito que possa ajudar alguém que esbarre neles e leia. Mal não fará, tanto que recebi três mensagens de leitores que, curiosamente, leram a resenha, assistiram ao filme e refletiram sobre algo tão óbvio a ponto de passar despercebido: na vida real a fronteira entre o bem e o mal, o amor e o ódio ou a raiva, a generosidade e o egoísmo, a lealdade e a falta dela (deslealdade é uma palavra espinhosa, concordam?) é uma linha divisória imaginária. Pessoas boníssimas, daquelas de quem se diz que “Deus fez e jogou a forma fora”, têm seus momentos de escuridão; pessoas asquerosas de tão maldosas e de mau caráter (sabiam que o plural de mau caráter é “maus caracteres”?) eventualmente transitam pela aurora e interferem na realidade e praticam ações boas e justas.

O simples fato de concordarem comigo não é algo curioso – não me tomem por arrogante, pois foi uma constatação realmente óbvia. Curioso foi terem me perguntado se já tinha visto PÉ NA COVA, uma espécie de “série” (não se usava ou se usava pouco esse termo antes das plataformas), exibida após a “novela das oito”, que hoje passou a ser “novela das nove”, na Globo. Passou pela minha cabeça que fosse algo combinado, porque visualizei as três mensagens de uma vez e nenhuma delas explicava que relação tinham feito. Pois bem, revi a primeira temporada e entendi possíveis motivações que agora trago ao texto, depois de três parágrafos preparatórios.

Assim, começo por uma síntese do que vem na sequência, mas uma síntese interrogativa: o que a experiência estética e intelectual de assistir a MA faz remeter a experiência de ter visto PÉ NA COVA? Começo por explicar a que me refiro quando comento tais experiências.

A experiência é a vivência de um fenômeno que produz algum efeito no indivíduo. Estar vivo já é, por si só, um encadeamento de fenômenos existenciais, desde o soar do despertador, passando pelo banho matinal, pelo sentimento de gratidão ou de frustração por mais um dia, até os sonhos ou pesadelos durante o sono do qual se desperta com o soar do despertador para o ciclo começar de novo. A maior parte desses acontecimentos, possível sinônimo para não esgarçar a palavra “fenômeno”, simplesmente ocorrem e já se constatou que poucos refletem a partir do que vivem, afinal seria difícil suportar a compreensão de si mesmo, considerando o que é preciso suportar para pertencer ao mundo. Imagine, caro leitor, reservar um momento de seu dia para meditar ou refletir e constatar que sua vida é um algoritmo: acordar quase sempre querendo dormir mais, arrastar-se até o chuveiro para fazer o corpo “pegar no tranco” e se pôr no asseio que faz parte das exigências para enquadramento social, vestir-se segundo um “dress code” que uniformiza o rebanho e nem sempre é confortável, ingerir algo para dar energia ao corpo, fazer uso de um poderoso alcaloide psicoativo (refiro-me a cafeína para adultos ajustados, ritalina para crianças diagnosticadas com problemas de déficit de atenção e/ou hiperatividade, co***na nos casos fora dos padrões), deslocar-se do espaço em que você mora sem tempo de sentir-se em um lar, chegar ao local de trabalho para submeter seu corpo ao fetiche disciplinador do cartão de ponto e dos imperativos sobre o seu tempo, deslocar-se de volta ao seu espaço em que deixa sua fisiologia fluir e no qual se permite eventualmente algum entretenimento antes de dormir para se preparar e ser produtivo no dia seguinte. Triste, não? Necessário, porém.

Eu pensei nisso todos os dias, logo que desativava o despertador, sentava na beira da cama e passava cinco minutos olhando meus pés enquanto repassava o roteiro acima. O que, talvez, tenha me salvado foi o privilégio de ensinar jovens com a fé inabalável em cada aluno, com a satisfação de poder dizer, com absoluta honestidade, que acreditava neles. E como ensinava literatura e redação, eu não tinha um trabalho, tinha um compromisso com minhas convicções e estar no tablado a desenvolver minhas lousas era tão intenso e satisfatório quanto estar numa balada memorável. E todas manhãs, naqueles cinco minutos, perguntava-se se não estaria me enganando para desviar das balas. Não cheguei a me satisfazer com minhas reflexões a ponto de considerar respondido o questionamento, até que veio o atropelo e a instabilidade deslizou sobre a estabilidade, que ficou sufocada, debatendo-se para deslizar também, sobrepondo-se ao caos do que é instável. Uma perspectiva de vida bem sufocante, confesso.

E como seria inviável seguir com tudo isso rodando na mente, eu, você e a maioria de nossa trágica espécie nos distraímos para esquecer um pouco nosso “drama ontológico”. O operário dos postos de trabalho braçal, como o motorista do caminhão de distribuição de um frigorífico, o sujeito que descarrega nos açougues a carne que, com o salário que lhe pagam, não consegue comer a carne que desce do caminhão para ser comprada por quem vai alimentar um cachorro – que merece ser alimentado, afinal fome é fome – que recebe três refeições por dia, sai para passear e não f**a sem atendimento de um médico veterinário quando precisa. Esse motorista, ao fim do dia, deixa o caminhão no frigorífico, pega um, dois , três ônibus para voltar ao espaço em que toma um banho, faz sua refeição sem a carne que distribui e vê a novela. Nesse momento, o corpo alquebrado vê alguém como ele, que sofre como ele, mas, pelos caminhos que a ficção consegue criar, alcança alguma prosperidade que alimenta a esperança do nosso personagem, pois durante aquela hora de duração da novela desliga-se de sua vida para experimentar vestir-se com a vida do operário na novela. Isso é o que Aristóteles chamou de CATARSE.

E lá se foram mais de mil palavras e nada de PÉ NA COVA. Não me amaldiçoe, porque vou me esforçar por fazer valer a pena, lembrando que certas dores das penalidades são necessárias, como a produção com Miguel Falabella e Marília Pera põe a nu, com sucessivas chineladas de realidade tragicômica, que também provocam CATARSE, porém de modo inusitado, tal como experimentamos no filme MA.

Creio que não corra o risco de “dar spoilers” no tenho a comentar sobre a história de um núcleo comunitário no Irajá – periferia do Rio de Janeiro – em que Falabella interpreta, Russo, o dono de uma tradicional funerária instalada defronte ao cemitério do bairro. Ele é uma espécie de “pater familias” improvável: herdou a funerária anexa à casa, que veio com uma baba negra de idade impossível de estimar e que foi escrava antes da Lei Áurea e que f**a numa espécie de transe dentro do tempo. Mais jovem, foi casado com Darlene, interpretada por Marília Pera, alcoólatra bebedora de gin – mas não uma pinguça qualquer, pois bebe com categoria. Desse casamento, nasceram Odette Roitman, jovem de excepcionais atributos físicos que comercializa serviços eróticos pela internet sem que isso seja tabu no núcleo familiar, e Alessandreson, mais novo, que envereda pela política, pornograf**amente corrupto. Russo, que completa 50 anos logo nos primeiros episódios, vive com uma moça de 19 anos, lidando com os mesmos desafios do motorista de caminhão de frigorífico. Acorda e não sabe se terá pão e café para começar o dia, não obstante empregue uma “funcionária do lar”, chamada Adenoide, que vive num nível de pobreza que faz o cotidiano de Russo parecer vida burguesa. Adenoide é irmã de Amigdala, que nem aparece na história.

Darlene, anos antes, tinha traído Russo e foi embora, mas volta no primeiro episódio e exige seu lugar na casa em que ele já está vivendo com Abigail. E tudo bem, porque é tudo como no nosso mundo cão: Odette Roitman apaixona-se por Tamanco, interpretada por Martinália, lé***ca masculina, irmã de Marcão/Marcaça, que é também mecânico durante o dia e tr****ti que se prostitui à noite. Mas segue tudo bem, porque as personagens contam o que sentem e nesse honestidade são aceitas porque pessoas são assim mesmo: assustam-se, surtam sem dramas shakespearianos – sheikispirianos, segundo Darlene – e, por fim, se abraçam e fazem prevalecer o amor entre si. E não é assim que a vida flui?

Acrescentemos outras personagens, como Juscelino, empregado da funerária que, entre seus surtos por não poder comprar seus psicotrópicos, enuncia sabedorias de oráculo, contrastando com as dificuldades intelectuais dos outros. Ele é irmão de Luz Divina, muito mais surtada que Juscelino, uma mulher já envelhecida e que, em algum momento, perdeu-se num sonho em que segue sendo uma jovenzinha sensual e com liberdade de falar e fazer o que bem entender – uma projeção da nossa habilidade, em muitos soterrada sob tantos sonhos perdidos, de fantasiar para se afastar do ódio à realidade. E não paramos ainda.

Ali, na mesma rua, há o carrinho de lanche de irmãs gêmeas não idênticas, caso raro em que a mãe engravidou de dois homens diferentes, um branco e um negro, razão pela qual elas também são uma branca e uma negra, até que um híbrido de Doutor Frankenstein e Doctor Rey faz sua transição de gênero. E nas mesinhas dispostas na rua para os clientes delas/deles o resto dos tipos sociais desfilam e há de quase tudo: Floriano, um conservador enrustido que nutriu a frustração de ter se apaixonado por Russo desde algo que se deu entre eles em Paquetá e deixa claro que segue aficionado pelo peculiar agente funerário. E há a mulher gorda que briga com Russo, que a chama de Javali, e o deputado corrupto, Sebonete, e o rapazinho sexy, Clécio, que faz Abigail cornear Russo,... Seria demais para esgotar o corpo de baile todo.

PÉ NA COVA é uma comédia de tipos sociais que, de um ponto de vista exclusivamente técnico, seria mais do mesmo: há selva, há presas, há predadores. Entretanto, como MA – cujo título original, em inglês, é ULTIMATE –, a narrativa maior costura as micronarrativas das vidas de cada um e cada um importa, como deveria ser. Ao rever a primeira temporada, revivi minha experiência com a série e resgatei sensações, sendo uma delas a de isolamento: nos idos de 2011, 2012, eu me reunia com amigos e um dos assuntos era o que estávamos vendo naquele momento em que as séries estavam se tornando os analgésicos para dores do cotidiano. Isolamento porque eu havia f**ado impressionado com o realismo dolorido e não fui capaz de me fazer entender, os poucos que tinham visto o primeiro episódio só acharam graça nas caricaturas e pararam por aí.

Mais de dez anos depois, estou revendo as cinco temporadas e me emociono em muitos momentos, ao mesmo tempo que me questiono se não seria melhor para mim também ignorar as sutilezas que revelam o fato do já mencionado deslizamento contínuo do bem sobre o mal e vice-versa. Então, resolvo parar por aqui, já que estar no mundo não admite conclusões.

10/01/2025

[FILME DO DIA - RESENHA “BLAGUE” ]

Entre os últimos preparativos para a noite que antecede o dia de Natal, fiz uma pausa - até porque está um dia queeeente do cão - e dei, desafortunadamente, uma chance à sequência (erro, quase sempre erro, se não for o PODEROSO CHEFÃO) de A ORFÃ: A ORFÃ 2. Depois de gastar valiosas células de meus olhos com um filme mal feito, indago-me: por quê?

Sem querer ser antipático às dores que uma mulher com a curiosa deficiência de não conseguir desenvolver seu corpo para além da estrutura física de uma menina de dez anos, a personagem - cuja origem é promessa da sinopse - segue sem explicação.

O enredo repete o que acreditaram - sabe-se lá por que - ter dado certo no primeiro e turbinam nesse segundo: Esther, a anã highlander ninfomaníaca, com o knowhow de uma agente do MI-6 e o descontrole emocional de, bem, prefiro não comentar, toca o louco, mas não toca sozinha…

A mim, confesso, pareceu estranhamente familiar, assustadoramente familiar… E só por isso vi essa produção inferior a Sharknado até o fim. Arte ruim ainda é arte, e se desperta demônios, bom, é sinal de alerta.

Antes de ver, li um comentário que me engambelou bem, fazendo-me crer num roteiro mais inteligente quanto às questões freudianas em torno das implicações da triangulação edípica. Balela.

10/01/2025

[FILME DO DIA] “Ma”(“Ultimate”, 2019, direção de Tate Taylor)

Não sei se invejo ou admiro aquelas pessoas que têm a alma evoluída a ponto de aceitarem as contingências da vida com genuína sinceridade e conseguem estar de bem com a vida, mesmo depois que a noite chegou e as folhas começam a cair. Creio que as vejo como evoluídas porque “evoluir”, no sentido pensado por Darwin, é adaptar-se a fim de sobreviver às intempéries e às hostilidades do mundo que precisam ser contornadas. E não se pode negar que sentimos e pensamos o TEMPO de acordo com os rearranjos de ideias e valores de cada geração, num processo histórico que parece acelerar o modo como uma geração se afasta da anterior, criando “incomunicabilidades”.

Eu passei quase trinta anos trabalhando com jovens e isso, de certa forma, permitiu que minha admissão no “clube da juventude” fosse estendida, prolongando a sensação de que nada havia mudado. Devo considerar também o fato de nunca, ANTES, ter f**ado sozinho, sem alguém na minha vida com quem pudesse partilhar sonhos, risos, desejos, co***lo diante das dores. Alguém se lembra de uma comédia leve em que a personagem jovem e no auge dos dilemas de adolescente DE REPENTE TRINTA!, como se ter trinta anos fosse solução. A jornada da he***na em sua epopeia pessoal, demanda individualista pelo Graal que lhe trouxesse identidade, motivação, compreensão da realidade – é divertido, mas, como vi quando já tinha mais de trinta anos e qualquer crise existencial que eventualmente tive quando jovem não existia mais, achei o enredo tolo. Minha passagem pelos 30 anos foi a melhor fase de minha vida, com tudo que eu planejara: tinha um amor impossível de descrever, concluí meu doutorado, trabalhava com o que eu amava e onde era reconhecido, já realizara minhas metas materiais, viajei para todos os países que planejei conhecer... E quando estava perto dos quarenta perguntei-me “e agora?”.

No mundo, que foi até ali um passeio pelo bosque aprazível dos dias de sol com a brisa fresca que sopra quando somos amigos da vida, subitamente a noite caiu e a festa acabou e o povo sumiu. Foi o DE REPENTE 40, que veio, sim, com a tal crise que muitos dizem ser bobagem e não é, porque manter a vitalidade deixa de ser simples e se torna uma, por assim, dizer “Divina (tragi)comédia”, pastiche de mau gosto da obra de Dante Alighieri, obra, portanto, dantesca – adjetivo definido como aquilo que é pavoroso, assustador. E, convenhamos, há muitas formas de envelhecer e todas elas são um pesar que uns assumem sem assombro, outros reconhecem com a relutância dos assombrados e, por fim, quem não nega nada, nem idade, nem tristezas.

Eu sou alguém indo e vindo, rio acima e rio abaixo, na terceira margem do tempo, da idade, pensando no que já vivi e em como vou jogar o segundo tempo do jogo, já meio cansado, já meio lesionado, torcendo para não ter prorrogação nem decisão nos pênaltis. Só que esse texto não é – pelo menos não deveria ser – sobre mim: é sobre um filme intrigante, a começar pelo título, MA (nome que a personagem principal utiliza para se entrosar com um grupo de jovens que... não vou contar por enquanto). O original, em inglês, é ULTIMATE, palavra fascinante que se sustenta na dependência que não é só contextual, é também subjetiva, pois admite o signif**ado de “derradeiro”, “final”, “aquilo que está perto do fim”, mas pode ser utilizada para se referir “àquilo que chegou ao ápice".

Ma é uma mulher que está no mesmo limbo que eu, naquela idade em que se pode optar pela identidade de “maduro jovial” ou “jovem do novo normal” – e nesse momento, escrevendo aqui, fui flechado por uma lembrança lacunosa em que há uma personagem que diz “velha era a sua avó, eu sou uma raposa prateada”, algo bem mais poético que as duas identidades mencionadas. Enfim, Ma é uma mulher negra, fora dos padrões corporais, que, abordada por um grupo de jovenzinhos bem estereotipados segundo o roteiro pobre que coloca a beleza acima, bem acima, de outros valores – educação, moral, ética... – compra bebidas alcoólicas para eles, com a condição de que bebam na casa dela. Astuta, Ma se arrisca ao oferecer “birita” à patota porque a solidão de sua idade dói mais do que doeriam as consequências de sua conduta.

Para rapagotes cheios de testosterona e princesinhas instagramáveis, Ma não signif**ava nada. Foi uma conveniência, porque até pagava as farrinhas que eles organizavam no porão de sua casa, algumas vezes sem avisá-la; depois ficou enfadonha, ridícula, desprezível; até que a conjuntura toda se tornou doentia a tal ponto que, se observarmos bem, não é justo dizer que os jovens sejam os vilões da história, assim como seria leviano demonizar a mulher de meia idade que só queria pertencer, um pouco que fosse, ao mundinho das pessoas ditas felizes. Gostei do filme porque não tropeça no maniqueísmo dependente químico de noções óbvias do bem e do mal. Os melhores dentre nós são canalhas de vez em quando, do mesmo modo que os hediondos podem entrar no palco do dramalhão humano para resgatar o gatinho no topo da mais alta das sequoias. Ma é humana; a van com os filhos daqueles que, quando Ma estava no Ensino Médio, eram os populares que se divertiram com o estupro dela, é uma van de humanos. Resta a lógica da selva.

Quando o filme foi lançado, eu estava prestes a “celebrar” meus 40 anos e não imaginava a possibilidade de ver, anos depois, e sentir o que Ma enuncia em seus pensamentos: “eles (a “rapeize”) não imaginam o que é não ter mais lugar na alegria da vida”. Cinco anos depois – só cinco anos! – precisei me esforçar para não inventar argumentos em defesa apenas da personagem de Octavia Spencer. Envelhecer ainda tem esse “quid pluris” cruel, semente do que pode se tornar demência, que começa por nos tornarmos o oposto do que éramos antes.

Eu finco meus pés no solo e me afirmo na minha consistência de, no que sou, ser por completo, sem notas de rodapé com exceções. Tenho a consistência que a gramática normativa não tem, ficou claro? Sou de uma geração que aprendeu algo fundamental: só é grande quem chama o erro pra dançar. Errei; depois errei de novo, mas errei melhor; nunca parei de errar, porque acertar é chato demais quando só se acerta. No meio do caminho que me leva aos cinquenta, outra lembrança veio me visitar, algo que meu avô materno dizia, “depois que completa cinquenta anos, o homem passa a dormir com a morte”. E, para ser sincero, prefiro dormir com a morte a dormir sozinho.

10/01/2025

Esta página está destinada a todos que queiram compartilhar como os filmes tocam a mente, lançando luz nos cantos escuros de nossos cantos interiores. Espero que apreciem este gênero peculiar de resenha! Ah, evitem dar spoilers, ok?

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