17/01/2025
[FILME DO DIA – A SUBSTÂNCIA, 2024, direção e roteiro de Coralie Fargeat]
Quem lê – se é quem alguém lê – estes textos deve ter percebi que me esquivo do papel de crítico. Não tenho competência para transcender a subjetividade do “eu gostei ou não gostei”, como também só escrevo sobre o que me atravessa e reverbera no imenso galpão ocupado por minha mente. Por isso, um filme com Demi Moore – segundo alguns, a Deborah Secco hollywoodiana – não seria, a priori, algo a se evitar, assim como clamor público e elogios vagos não me instigam a me interessar sem outros elementos motivadores. Para ser bem sincero, volto para casa cada dia com um humor – não necessariamente eufórico, bom – e escolho uma catarse que me atenda. E me ajudar nem sempre é me fazer sorrir pra não chorar: pode ser bem o oposto e a fé de que sei diferenciar quando preciso do riso ou do choro é uma de minhas maiores virtudes.
A SUBSTÂNCIA pode ser dirigido pela francesa Fargeat, mas é inegavelmente cronenberguiano, algo que se deve assumir como ponto de partida. E o que é ser “cronenberguiano”, afinal? Bem, é uma postura diante do fato de que, fazendo minhas as palavras de Shakespeare, em MACHBETH, sua peça mais sombria, “a vida é um conto narrado por um louco cheio de som e fúria, e que não signif**a nada”. Deu para formar alguma projeção mental do conceito? Não? Então, assista a um filme de Cronenberg chamado A MOSCA, lançado em 1986, estrelado por Jeff Goldblum, que interpreta um cientista que crê na possibilidade de algo se teletransportar – metáfora para o “eu não estou onde eu quero, como faço para sair daqui e aparecer onde acho que seria mais, sei lá, feliz?”. Ele cria um dispositivo que funciona, porém, ao testar em si mesmo, não percebe que uma pousou na sua sopa... brincadeira, a mosca, coitada, entrou de gaiato no experimento. Pronto, a realidade vai se tratar lá naquele sanatório em que se passa a história do romance A MONTANHA MÁGICA, de Thomas Mann, e no seu lugar f**a... f**a uma outra realidade, toda ela tecida por Cronenberg. Agora o leitor vai alcançar um profundo entendimento, se e somente se assistir ao filme indicado – A MOSCA, para que não fiquem brechas para desculpas.
Feitas as devidas apresentações, convido o leitor a matutar comigo: a definição de Shakespeare e o núcleo do dilema existencial do personagem do filme de Cronenberg não convergem num ponto que, de certa forma, é parte da trágica travessia humana pela vida? Em outras palavras, seria justo afirmar que nós não SOMOS nada, apenas ESTAMOS algo, seja esse algo “satisfeitos”, seja “frustrados”, dentre quase infinitas opções, certo? Então, se existir é da ordem transitória do estar, qual é ou quais são as dificuldades de, não estando “satisfeito”, um indivíduo deslocar-se de um “estar A” para um “estar B” que possa ser um estado de alma melhor para ele? Kant diria ser preguiça somada à covardia, Nietzsche diria que nos esquecemos do que nos frustra... vai longe.
E no complexo labirinto de tais dilemas do “estar-no-mundo”, valendo-me aqui da percepção de Drummond, está o fenômeno do envelhecimento. É, nós envelhecemos e isso não é bom, não importa o quanto tentemos nos enganar, como aquela voz anônima no vestiário masculino que diz “quatorze não é pequeno!”. Desculpe quem se sentir afetado, mas é, sim, pequeno. E, do mesmo modo, a pele que vai perdendo vitalidade, a necessidade de injeções de botozx e de harmonizações faciais, sessões de terapia (fuja disso!) ou análise (aventure-se nisso!), os óculos de leitura, o Centrum nosso de cada dia, as reposições hormonais, o pantoprazol, o ômega 3... tudo isso são evidências de é péssimo envelhecer. Sim, porque, para os que sobreviverem à vida nas fases em que ela ainda pode ser boa, uma hora ou outra, é bem provável que um Dannis Quaid vestindo um paletó feito com o tecido de um puff de zona (puteiro, sendo claro) vá lhe dizer que lamenta muito, mas aos 50 tudo acaba. Você, na hipótese de ser uma alma ingênua ou uma alma patética, pode ainda perguntar o que acaba e esse canastrão vai fugir, vai deixar você num vazio. E o resto é mistério.
O filme A SUBSTÂNCIA segue um roteiro que o trailer entrega, por isso não temo os spoilers acidentais: Demi Moore interpreta uma musa fitness cinquentona que não caiu na real de que, mesmo com todo seu zelo pela aparência, para ela acabou. E é então que a trama cronenberguiza-se: ela sofre um acidente de trânsito, é atendida por um médico que é seu fã (onanicamente, se é que me entende, leitor), num ambulatório em que os closes nas rugas da celebridade jurássica contrastam com o rostinho a la Ken Humano, que deixa em seu bolso, o bolso de um sobretudo amarelo, um convite a aderir à “substância”. Algo que, segundo o enredo, provoca uma alteração no DNA e desencadeia no corpo velho (matriz) a criação de uma versão melhor de si (outro/a).
Lizz, personagem de Demi Moore, reluta, porém o espelho revela caimentos – seios, bunda, rosto... Relutância se torna adesão e o endereço para retirar sua iogurteira Top Therme, perdão, sua Substância é sugestivio: Byron Alley. Ela vai, entende que o processo vai criar um outro eu dela, entende que cada uma f**ará ativa por sete dias até “switch” (flip flop, troca-troca) com a outra, e, o mais importante, elas são uma só. Se você, leitor, tem menos de quarenta anos, precisa ter fé em minhas palavras, se já tem mais, ou já aceitou isso, ou entendeu e faz o que pode, ou está me achando um tremendo filho da... você sabe, embora, em breve, não precisarei evitar a palavra omitida.
Tenho 45 anos e dou meu depoimento: tudo está mudando e o mundo é repelente a quem é está em rota de colisão com meio século de idade. Há dias em que vejo graça na imbecilidade humana, há dias em que me sinto sozinho e triste. Não está tudo bem, mas vou dizer que está tudo bem para o leitor f**ar “numa boa”. Ademais, é um filme muito bom e redimiu Demi Moore. Só me indago quantas noites insones elas atravessou até esse reconhecimento aos 62 anos. É, Demi Moore tem 62 anos.