12/03/2026
Heranças Invisíveis
Há heranças que não se medem em bens, nem em casas, nem em ruas. Mas, curiosamente, na minha história existe uma rua. Ela f**a em Catanduva e leva o nome do meu pai: Rua João Morelli Filho.
Meu pai era farmacêutico. Durante muitos anos foi um guardião silencioso da saúde da cidade. Atrás do balcão da farmácia ele via chegar dores pequenas e dores imensas. Pessoas que precisavam de um remédio, de uma palavra ou de um olhar que dissesse: “vai f**ar tudo bem”.
Ele cuidava da saúde do corpo. E a cidade agradeceu transformando seu nome em caminho. Uma rua. Um lugar por onde as pessoas passam e seguem vivendo.
Mas a vida também escreve histórias delicadas. Um dia ele recebeu um diagnóstico: câncer. Lembro quando me perguntou: “E agora?”. Com o coração apertado respondi: “Pai, desde o dia em que nascemos estamos nos despedindo… então vamos viver o hoje.” E nós vivemos.
Talvez ali eu tenha entendido ainda mais meu caminho. Se ele cuidava da saúde do corpo, eu seguiria cuidando da saúde da alma.
Hoje sou psicóloga e psicodramatista. Meu pai tinha uma farmácia. Eu tenho um palco invisível chamado psicodrama. Ele oferecia remédios. Eu ofereço encontros.
Ele tem uma rua com seu nome. Eu talvez nunca tenha. Mas herdei algo maior: um propósito.
Ele cuidou da saúde de uma cidade. Eu sigo tentando cuidar da saúde emocional do mundo.
Somos feitos da mesma matéria: cuidado, vida e amor que continua.