21/02/2026
Missão África é desconforto. A longa viagem, o calor extremo, a convivência tão próxima. Tudo desafia. Tudo incomoda. A inquietação aumenta à medida em que os dias passam. O corpo sente, a imunidade cai, as noites ficam cada vez mais longas. O trabalho continua sendo feito, a despeito de qualquer coisa. Afinal, essa era a nossa missão. Ao fim de cada dia os relatos se misturavam à mesa do jantar. Havia euforia pelo tratamento efetivo, admiração pela cirurgia realizada, assombro por tantas vidas tocadas. Havia desalento pela doença intratável, inconformismo pela lesão irreparável, consternação pela saúde mental deteriorada. Sorrisos e lágrimas se fundiam numa confusão de coragem e incapacidade. Longas conversas se fizeram necessárias. Conflitos foram compartilhados. Dores foram acolhidas. Pequenos auto-cuidados minimizavam o confronto da mudança brusca de rotina. Fosse um devocional de madrugada, uma corrida pela manhã, um pouco de música, tranças nos cabelos, massagem ou mesmo uma fatia de abacaxi. Sutis olhares pra dentro eram motivação pra longos dias olhando exclusivamente para o outro. E de repente aquele desconforto que parecia físico mostrou-se um pesar de alma. Não era saudade de um banho quente ou do ar condicionado. Não era a ausência das futilidades costumeiras que feria. Era enxergar a face do sofrimento sem poder intervir. Era precisar convencer o coração de que o máximo estava sendo realizado. Era tentar esquecer o que deveria ser feito e fazer o que era possível. Era a incompletude. Com o tempo nos resignamos. Compreendemos que nada do que havíamos experimentado nos preparou para aquela experiência. Nos reinventamos. Criamos novos conceitos, aceitamos maneiras diferentes de praticar medicina, aprendemos. A missão foi cumprida e, entendemos, enfim, o quanto ela era necessária. Estávamos onde deveríamos estar. Criamos vínculos que pareciam já existir. Fizemos o que precisávamos que fosse feito. Parte de Benin veio conosco. Parte de nós nunca voltará de lá.