09/03/2026
Dificilmente comento sobre o que recebo dos meus pacientes. Fico sempre sem jeito, apesar de muito grato.
Hoje resolvi quebrar um pouco a impessoalidade desse perfil.
O texto é meio longo, mas vale a pena. Prometo.
Há três anos, operamos um paciente colostomizado. A colostomia é aquele desvio realizado no intestino grosso, que f**a exteriorizado para a pele, a qual precisa ser protegida por um dispositivo para coleta de conteúdo f***l. A famosa "bolsa".
Durante a cirurgia, foi realizada a anastomose, uma "emenda" no intestino. Isso possibilita retornar o trânsito intestinal habitual.
Disciplinado, há três anos ele faz o seguimento pós-operatório religiosamente. Sempre me traz um presentinho. E eu, agradecido e meio sem jeito, recebo.
As ostomias intestinais, para além das limitações físicas, promovem um impacto psicossocial relevante.
O carinho poderia, portanto, advir de ter se libertado desse mal necessário.
Mas não.
Quando conversamos com paciente e familiares no pré-operatório, sempre esclarecemos sobre os riscos dos procedimentos. Naquele momento, com toda a expectativa para operar, a estatística parece distante, quase etérea.
Infelizmente foi com ele. Deiscência de anastomose. Peritonite. Sepse. Reabordagem precoce. De emergência. Madrugada adentro. Nova colostomia. UTI. Recuperação lenta. Controle de infecção. Enfermaria. Alta. Um guerreiro. Voltou de onde muitos infelizmente padecem.
E todo ano me traz um presentinho. Que eu recebo. Sem jeito, mas muito grato. E ainda mais agradecido hoje, porque me fez lembrar do amor de Cristo, do qual constrangida e imerecidamente desfruto todos os dias.