18/09/2021
Texto Vera Verinha Dias
Postado por: Karim Roberta
Do que se trata o Cancelamento?
Atualmente tudo aquilo que causa desconforto, não corresponde a características que agradam, convergem, que a pessoa sinta se identif**ada é tratada com indiferença, mas antes de ser tratada com indiferença, na cultura das redes sociais, desenvolveu se uma tática de comunicar o desprezo: O cancelamento.
O cancelamento pode ser solitário, por exemplo, quando aquela pessoa comunica em um post das páginas ou fóruns de debate que aquela ideia expressada a contrariou e por isso está dando um “dislike” ou “deixando de seguir”. A postura do cancelamento está posta no aviso que irá sair, aviso que pretende ganhar pessoas para segui-la ou defende-la e comunicar sua insatisfação ao interlocutor sem permitir o debate. Algumas pessoas colocam ali uma opinião rasa, outras apenas escrevem “deixando de seguir” e se vão para longe do confronto de ideias, para longe do conflito, para a desistência de aprender a conviver com a alteridade.
O cancelamento pode ser coletivo, neste caso ele é iniciado por alguém que leva a sua insatisfação adiante e busca convencer um grupo maior para que aniquile aquela situação de desconforto que o atingiu. Buscam aliados para “odiar juntos” e assim destruir o objeto de ódio. A ideia não é buscar dialogo, não é buscar retratação, autocritica, nada disso, a ideia é eliminar o motivo do desconforto e impedir que quem o propaga seja capaz de seguir causando esta sensação.
As pessoas, culturas, situações são colocada primeiro para destruição e depois sobre a anestesia, moral e psíquica da indiferença, onde qualquer coisa que esta pessoa fale dali por diante será tido como irrelevante “ah foi fulano que falou? ” Então se foi o fulano cancelado que falou, fez, promoveu é indiferente, tudo que a pessoa foi, criou de positivo, sua humanidade e sua voz, tudo é cancelado.
Os muros da indiferença cancelam a dor do outro, a vivencia do outro, as opiniões políticas do outro, os valores morais do outro.... Tudo que é diferente e mim por que EU SOU o referencial de moralidade e ética, a crença de que os próprios valores e identidade são superiores a tudo e deve se impor.
Cancelar é fazer o objeto de ódio deixar de existir.
O cancelador é na verdade uma pessoa que resolve suas questões aflitivas, problemas, obstáculos, pelo método da esquiva, negando a possibilidade de confrontar as nossas diferenças com o outro e para evitar o confronto constrói se bolhas com base na AGREGAÇÃO DE INDENTIDADE. Isso remete a lógica do condomínio:
O condomínio é um lugar cercado por muros, onde existe proteção e ordem, sem muros internos, crianças brincando. Parece o lugar perfeito para ser feliz. Os condomínios abrigam pessoas similares, especialmente na classe social, o preço que se paga por esta ilha dentro da cidade é para iguais, logo, acaba atraindo majoritariamente um mesmo grupo ideológico, uma bolha chamada zona de conforto onde o resto é ignorado, invisibilizado pelos muros que cercam a ilha. O condomínio tem o ingênuo desejo de cancelar o conflito social e desta forma agrega um tipo de população que converge, qualquer pessoa que destoe deverá ser enquadrada dentro da lei do condomínio ou expulsa e invisibilizada também. O EU é inflado e o mundo da pessoa vai se reduzindo. Este comportamento é o comodismo da bolha, da zona de conforto e como toda zona de conforto é um lugar sem evolução, se o conflito não entra não existe desafio e nem evolução, por isso vemos tantas pessoas zumbis, caminhando por aí sem nenhuma integração com a realidade.
O CANCELADOR constrói com seus aliados zonas de confortos, lugares previsíveis e sem conflitos onde não serão surpreendidos por situações ansiogênicas, não se angustia, porém não se permite aprender e experimentar situações novas e questionar a si e sua idéias, afundando-se num buraco cor de rosa de sossego, estagnação e alienação.
Este comportamento configura uma patologia social, onde cria se um lugar protegido para reinar o mesmo discurso que se fortalece material e simbolicamente para proteger a incapacidade do sujeito de lidar com o outro, para compensar a recusa de deixar o conflito entrar, de modif**ar-se, conviver com o diferente.
Os muros podem ser simbólicos, já vimos tantos muros de indiferença sendo levantados, os discursos de ódio contra minorias são muros que desejam segregar os diferentes. Na história vemos pessoas negras segregadas na África do Sul, EUA e Brasil, isso está nas entranhas da história; tivemos também duas Alemanha, temos duas Coreias, temos um muro que separa EUA do México... O racismo é um enorme muro simbólico, que promoveu ao longo da história leis discriminatórias e até hoje define como funciona o compartilhamento de espaços públicos e a divisão geográf**a, mesmo de bairros residenciais, pela cor e classe.
Esta região de extraterritorialidade protegida, um espaço abrigado onde se concentraria a realização de um prazer narcisista, é um lugar questionado pela psicanálise. Este desejo de aniquilar o outro para sentir-se feliz, para obter prazer está relacionado a manter a zona de conforto, não ser questionado sobre aquilo que eu vejo no outro e que incomoda em mim. Seguindo a lógica do condomínio, a pessoa se fecha numa ilha cercada de muros para não se proteger da criminalidade, proteger sua visão da pobreza, viver num fragmento de alto padrão e esquecer, muitas vezes esquecer que ele mesmo é peça da engrenagem que cria e faz manutenção da miséria. Então, se fechar dentro destes muros, f**a invisibilizado a miséria que ele mesmo cria e assim ele não precisa se questionar e viver o conflito.