09/07/2020
"Tenho percebido que, sempre que alguém me pergunta como estamos aqui, nesses dias, respondo de forma semelhante ao que digo sobre a maternidade e suas contradições. Minha filha já tem 4 anos, muito diferente de quando era bebê... Mas a sensação de que essa relação inspira os maiores encantamentos e, ao mesmo tempo, os maiores desafios, permanece. Mudam os encantamentos, mudam os desafios. Sobre o isolamento, de forma menos enfática, digo que tem seus altos e baixos, momentos legais e momentos difíceis. E, nesses mais de dois meses, as coisas também mudaram.
Ela cresceu. Fisicamente, um salto! Mas não só. As conversas, os argumentos, as ideias... nossa! Mas, nas primeiras semanas, teve uma regressão emocional. Voltou a acordar de madrugada, passou a ter medos de cantos da casa e de ficar sozinha, teve sonhos agitados e assustadores, passou a falar muito sobre não querer ficar sem a gente... Além de manifestar uma necessidade grande de contato físico comigo, de tocar meu corpo, dormir com a mão na minha barriga... Pensei então que, assim como para mim, a quarentena também parecia remeter para ela à experiência do puerpério. De fato, o pós-parto foi a última vez que ficamos juntas em tempo integral, em casa, por tanto tempo! Não é igual, claro, mas traz sensações semelhantes. A imersão e a falta de respiro, de tempo só... A esperança de que vai passar.
Hoje, o sono voltou, os medos sumiram, ela até se orgulha em dizer que não tem mais! Acorda e já vai pegar algo pra comer, entendeu que os adultos precisam de um tempinho a mais para sair da cama. Mas tem saudade demais das pessoas, da creche, dos amigos. Sente tédio, acho até que cansa da gente às vezes, do nosso jeito de br**car, já distante da espontaneidade criativa e da energia imbatível das crianças, além do nosso não poder br**car o tempo todo... Às vezes, frustrada por alguma coisa, se rebela e diz que podemos doar todos os seus brinquedos e a sua cama! Outras, elabora melhor: "estou de mau humor".
E assim, mesclado aos momentos de partilha gostosa, lidando, ainda, com as nossas saudades, tarefas e preocupações, seguimos."
Relato de Julia Baggio, mãe da Cecília, 4 anos