25/02/2026
Na prática clínica, uma das maiores contradições que encontramos é esta: a mesma família que diz querer a melhora do paciente pode, inconscientemente, dificultar o processo psicoterapêutico.
A psicologia explica isso de forma muito clara.
1️⃣ A família funciona como um sistema:
Segundo a Teoria Sistêmica Familiar, desenvolvida por autores como Murray Bowen, a família é um sistema emocional interdependente.
Isso significa que quando um membro começa a mudar, todo o sistema sente o impacto.
Se o paciente começa a:
impor limites,
questionar padrões antigos,
sair do papel de “bode expiatório”,
deixar de sustentar conflitos,
a família pode reagir com resistência — não porque quer o mal dele, mas porque a mudança ameaça o equilíbrio anterior, mesmo que esse equilíbrio fosse disfuncional.
2️⃣ O medo da autonomia;
Na abordagem psicanalítica de Sigmund Freud, o processo terapêutico favorece o fortalecimento do ego e maior autonomia psíquica.
Para algumas famílias, isso é vivido como:
“ele está diferente”
“a terapia está colocando coisas na cabeça dele”
“antes ele era mais obediente”
Na verdade, o que está acontecendo é individuação — algo essencial ao desenvolvimento saudável.
3️⃣ Lealdades invisíveis:
A psicoterapia frequentemente rompe pactos inconscientes familiares.
Existem famílias onde:
sofrer é um valor,
silenciar abusos é regra,
não superar os pais é forma de lealdade.
Quando o paciente começa a se fortalecer, pode surgir culpa. E a família, percebendo essa ruptura, pode sabotar o processo com críticas, desqualificação do terapeuta ou desmotivação.
4️⃣ Resistência à mudança:
De acordo com a Psicologia Humanista, especialmente na abordagem de Carl Rogers, o crescimento pessoal envolve congruência e autenticidade.
Mas ser autêntico em uma família que exige papéis rígidos pode gerar conflitos.
Às vezes, a família prefere a versão “adaptada” do paciente do que sua versão saudável.
PSICÓLOGO LEANDRO MOTTA