Neurologia Infantil - Dra. Deborah Kerches

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No autismo nível 1 de suporte, um dos maiores desafios é justamente o que não aparece de forma evidente: o custo do "fun...
28/04/2026

No autismo nível 1 de suporte, um dos maiores desafios é justamente o que não aparece de forma evidente: o custo do "funcionamento aparentemente adequado".

Esse ponto tem sido abordado com mais frequência no contexto do autismo em adultos, especialmente quando os efeitos da sobrecarga se tornam mais claros. ☝️No entanto, é fundamental compreender que esse padrão não se inicia na vida adulta... Ele começa muito precocemente, ao longo do desenvolvimento, quando muitas crianças e adolescentes já passam a se adaptar às exigências do ambiente (escolar, social) sem que isso seja reconhecido como esforço significativo.

O fato é que essa adaptação, em grande parte dos casos, não ocorre de maneira espontânea ou leve. Ela exige esforço contínuo de monitoramento, regulação, ajuste comportamental.

Quando isso não é reconhecido, existe o risco de uma leitura equivocada de “bom funcionamento”, que pode atrasar a identificação de sobrecarga e necessidades reais de suporte.

Na prática clínica, isso se traduz em um padrão que muitas famílias só percebem mais adiante: o acúmulo de exaustão, a redução da tolerância a demandas e o aumento de sinais indiretos de estresse, muitas vezes em ambientes mais seguros, como o ambiente doméstico.

Por isso, no TEA nível 1, compreender o funcionamento não pode se restringir ao que é observado. É essencial considerar também o que está sendo exigido para que aquele funcionamento aconteça.

Faz sentido para você? Compartilhe com mais pessoas! 🙌

26/04/2026

Existe uma pergunta que não sai da minha cabeça depois de cada relato que ouço.
👉Quantas decisões essa mulher tomou sobre si mesma baseadas em uma narrativa errada?

Quantas vezes ela achou que "o problema" era ela, quando, na verdade, era a ausência de um diagnóstico que explicasse sua trajetória?

Diagnóstico tardio em mulheres autistas não é só uma questão clínica. É uma questão de dignidade. De proteção. De qualidade de vida.

Porque quando uma mulher passa décadas sem entender seu próprio funcionamento, ela não apenas sofre em silêncio. Ela constrói sua vida inteira sobre uma base que não a representa.

Isso é o que se perde. E não se recupera com uma consulta.
Mas recupera-se com cuidado contínuo, acolhimento, informação qualificada que chega a tempo.

Compartilhe para aumentar a conscientização sobre esse tema!

“Se eu não fico exausto após socializar, isso descarta o autismo?”Essa é uma dúvida comum e, muitas vezes, feita de form...
25/04/2026

“Se eu não fico exausto após socializar, isso descarta o autismo?”

Essa é uma dúvida comum e, muitas vezes, feita de forma silenciosa.

Para além das dificuldades nas interações sociais, a exaustão social é frequentemente relatada por autistas.

Em muitos casos, interações sociais exigem um esforço contínuo de adaptação: interpretar nuances da conversa, ajustar comportamentos, sustentar contato social, lidar com estímulos sensoriais e, frequentemente, utilizar estratégias de compensação social.

Esse conjunto de demandas pode levar a um aumento significativo de desgaste após situações sociais.

No entanto, essa experiência não é homogênea.

Algumas pessoas autistas relatam uma exaustão intensa após interações sociais. Outras percebem um cansaço mais sutil, acumulativo ou restrito a determinados contextos. E há também aquelas que não identificam, de forma imediata, uma exaustão marcante após socializar.

Isso pode ocorrer por diferentes razões: o tipo de ambiente social, o nível de previsibilidade da interação, o grau de exigência envolvido, o contexto de interesses compartilhados ou até as estratégias individuais de adaptação ao longo da vida.

Além disso, o impacto das interações nem sempre aparece como “cansaço imediato”. Em alguns casos, pode surgir como irritabilidade, necessidade de isolamento posterior, redução da energia para outras atividades ou sensação de sobrecarga ao longo do dia.

Por isso, a ausência de exaustão social intensa, isoladamente, não é um critério para descartar o autismo.

O diagnóstico do TEA é construído a partir de um conjunto de características persistentes ao longo do desenvolvimento, considerando comunicação social, padrões comportamentais e a forma como essas características impactam o funcionamento da pessoa no cotidiano.

Compreender o autismo exige olhar para o todo... e não para uma única característica isolada.

Compartilhe com mais pessoas! 🙌

24/04/2026

Hoje tive a honra de participar do I Fórum Luso-Brasileiro de Neuroaprendizagem , promovido pela QualConsoante palestrando sobre "Diagnóstico tardio no autismo e suas implicações". Abordei dificuldades diagnósticas e os desafios que atravessam diferentes fases da vida, bem como caminhos possíveis para a mudança.

Sob o lema “Educar com ciência, sentir com propósito”, o encontro reforçou a importância de práticas clínicas e educacionais mais humanas, éticas e fundamentadas em evidências - além da necessidade de ampliar o olhar para trajetórias que, muitas vezes, passam anos sem reconhecimento e suporte adequado.

Foi uma oportunidade importante de troca entre Brasil e Portugal!
Agradeço pelo convite, pela acolhida e por todos que estiveram presentes nesse momento de reflexão, aprendizado e construção conjunta. ❤️

Em meninas autistas, uma característica que pode estar presente (e muitas vezes passa despercebida) é a dificuldade de f...
22/04/2026

Em meninas autistas, uma característica que pode estar presente (e muitas vezes passa despercebida) é a dificuldade de falar em determinados contextos sociais, mesmo quando a fala acontece em outros ambientes.

Nesses casos, pode haver associação com o mutismo seletivo - condição caracterizada pela dificuldade consistente de se expressar verbalmente em situações específicas, apesar da linguagem estar preservada.

Ou seja: a criança fala, mas a fala pode não conseguir emergir em contextos marcados por ansiedade, sensação de exposição, excesso de demandas sociais ou baixa percepção de segurança.

No contexto do TEA feminino, isso é muitas vezes confundido com timidez, retraimento ou insegurança, o que faz com que muitas meninas passem longos períodos sem compreensão adequada sobre o que estão vivenciando.

É importante compreender que não se trata de oposição, desinteresse ou “falta de vontade” de falar.

Reconhecer isso transforma a forma de interpretar esse "silêncio" - e, principalmente, a forma de acolher essa criança.

Você conhece alguém com essa característica?

Medicina é ciência. Mas também é escuta.Nem sempre o que uma família precisa é imediato ou evidente. Às vezes, exige tem...
21/04/2026

Medicina é ciência. Mas também é escuta.

Nem sempre o que uma família precisa é imediato ou evidente. Às vezes, exige tempo. Exige atenção. Exige disposição para ir além do óbvio.

Toda consulta carrega muito mais do que um sintoma.
Carrega histórias, cansaços silenciosos, dúvidas não ditas.
Pais tentando dar conta.
Crianças que, mesmo quando parecem bem, comunicam de outras formas que algo não vai bem.

Cada caso, cada momento, é único. E isso precisa ser reconhecido, sentido, no acompanhamento de crianças e suas famílias.

Acompanhar vai além de "tratar".
É reconhecer que não existe “uma única questão em pauta”, mas uma família inteira atravessando aquele momento... e confiando em quem está ali.

Cada história pede um olhar.
Cada trajetória, um caminho possível.
Cada família, uma necessidade diferente... naquele tempo, naquele contexto.

E fazer diferença, muitas vezes, está justamente nisso:
na disposição de estar presente de verdade e compreender o que, de fato, precisa ser cuidado ali. ❤️

20/04/2026

Para minha palestra no Congresso Autismo sem Fronteiras, realizado no último fim de semana em Goiania, levei dados atualizados sobre o diagnóstico de autismo no público feminino — incluindo um recorte inédito fornecido pelo Mapa Autismo Brasil 2026 .autismo, através da idealizadora e diretora da pesquisa .

👉Os números reforçam algo que já aparece com frequência na prática clínica: meninas e mulheres recebem o diagnóstico mais tardiamente.
🛑Mais de 50% apenas após os 18 anos — um achado que está em linha com o que pesquisas internacionais também têm demonstrado.

Não são apenas dados isolados: eles ajudam a organizar e dar respaldo ao que muitos profissionais já observam no dia a dia. E, principalmente, apontam para a importância de ampliarmos o olhar para esse público.

Agora me conta: esse número te surpreendeu ou já era algo que você imaginava?

Há uma expectativa silenciosa de que todos os dias precisam ser equilibrados, produtivos e afetivamente perfeitos. Mas a...
19/04/2026

Há uma expectativa silenciosa de que todos os dias precisam ser equilibrados, produtivos e afetivamente perfeitos. Mas a realidade da vida, especialmente para muitas mulheres que conciliam trabalho, maternidade e a gestão da própria casa e família, é bem mais dinâmica do que isso.

Existem dias em que o trabalho exige mais foco e energia. Outros em que a família pede mais presença e entrega. Há dias em que o cuidado com o lar ocupa o centro das atenções. E também existem aqueles em que, apesar do esforço, parece que nada saiu como planejado.

E isso não representa falha; representa humanidade.

A ideia de que precisamos “dar conta de tudo o tempo todo” costuma gerar um peso silencioso, muitas vezes acompanhado de culpa ao final do dia. Mas a vida real não funciona em blocos perfeitos e equilibrados. Ela acontece em ajustes constantes, em escolhas possíveis dentro do que cada dia permite.

Ser presença não é uma questão de tempo. É uma questão de qualidade. É o modo como se está quando se está.

Um dia mais voltado ao trabalho não anula o vínculo com a família. Um dia mais dedicado aos filhos não diminui o valor das outras responsabilidades. Um dia mais difícil não invalida todo o restante.

No fundo, o que constrói vínculos e sustenta a rotina não é a soma de dias perfeitos, mas a continuidade do cuidado possível, mesmo em meio às imperfeições.

Que, nos momentos com quem amamos (sobretudo com nossos filhos), possamos estar de verdade: menos no automático, menos na culpa, e mais inteiros no encontro que se constrói no agora. ❤️

Sem apoio não há inclusão. Há exclusão disfarçada.Quando a escola não está preparada para receber uma criança autista, n...
17/04/2026

Sem apoio não há inclusão. Há exclusão disfarçada.

Quando a escola não está preparada para receber uma criança autista, não é só a educação que sofre. É o desenvolvimento neurológico, emocional e social dessa criança, comprometido todos os dias.

Profissionais capacitados, ambiente adequado e acesso a terapias não são favores. São direitos garantidos por lei.
Toda criança merece ser respeitada dentro e fora da sala de aula.

16/04/2026

Como neuropediatra que acompanha famílias de perto, sei o quanto essa dúvida pode pesar.

Ver seu filho em intervenção e não saber se "o caminho está certo" pode ser angustiante. E muitas vezes a família carrega esse peso sozinha, sem saber que tem o direito de perguntar, de questionar, de entender cada etapa do processo terapêutico.

Um programa de ensino em ABA eficaz considera motivação, potencialidades, comunicação... e não apenas comportamento-alvo.

Quando a criança não é vocal, por exemplo, ela precisa estar recebendo ensino de pré-requisitos para a fala ou outros recursos comunicativos alternativos.

Além disso, comorbidades não investigadas podem ser barreiras silenciosas que interferem diretamente no engajamento e na aprendizagem. Um olhar integral faz toda a diferença.

O que tem sido mais desafiador para você nesse processo? 💙

Recebi recentemente esta pergunta:“Se a criança consegue interpretar quando o outro está triste, isso exclui autismo?”A ...
15/04/2026

Recebi recentemente esta pergunta:
“Se a criança consegue interpretar quando o outro está triste, isso exclui autismo?”

A resposta mais honesta é: não exclui... especialmente quando falamos do fenótipo feminino.

A capacidade de identificar ou rotular emoções no outro (como dizer “ele está triste”) precisa ser analisada para além do acerto. Do ponto de vista analítico-comportamental, é fundamental diferenciar a topografia da função do comportamento.

Isso porque a criança pode emitir uma resposta aparentemente adequada, mas sob controle de pistas específicas (como expressões faciais mais evidentes, contexto verbal ou aprendizagem prévia), sem que isso represente, necessariamente, um repertório generalizado de compreensão social.

👉No autismo feminino, esse ponto se torna ainda mais sensível. Muitas meninas desenvolvem repertórios compensatórios por meio de observação e modelação - o que chamamos de camuflagem social. Nesses casos, há emissão de comportamentos socialmente esperados, porém com maior custo cognitivo, menor flexibilidade e dificuldades mais evidentes em situações complexas ou menos estruturadas, como ironias, ambiguidades e intenções implícitas.

Por isso, na avaliação, não consideramos apenas se a criança identifica emoções, mas:

• sob quais condições isso ocorre (nível de estrutura e previsibilidade)
• se há generalização para diferentes contextos
• o grau de espontaneidade (ou se ocorre apenas sob instrução)
• a qualidade da reciprocidade social
• e o custo comportamental envolvido

Reconhecer emoções, de forma isolada, não exclui o diagnóstico de TEA.
A análise precisa ser funcional, contextualizada e inserida no repertório global da criança.

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São Paulo, SP

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