24/12/2025
Sugestão de filme | Valor Sentimental, de Joachim Trier
Há filmes que não apenas se assistem — eles nos habitam.
Valor Sentimental é um deles.
A obra de Joachim Trier nos conduz por um território delicado, onde luto, memória, vínculos familiares e criação artística se entrelaçam.
A narrativa acompanha a família Borg, marcada por silêncios, ausências e afetos difíceis de nomear. Gustav, cineasta e pai, tenta se reaproximar das filhas e elaborar seu passado por meio da arte, convidando a filha mais velha, Nora, para protagonizar um filme autobiográfico. Essa tentativa inicial é recusada e a aproximação só se torna possível após a travessia de um longo elaboração dos traumas.
A casa como arquivo afetivo:
A casa onde se passa o filme é mais do que um cenário: é um personagem. Um arquivo afetivo familiar que guarda ecos de gerações, conflitos não elaborados, rachaduras visíveis e invisíveis. As paredes sustentam memórias que insistem em retornar. A rachadura estrutural anunciada por Gustav parece falar, simbolicamente, daquilo que não pôde ser simbolizado: o trauma transgeracional que atravessa o tempo e os corpos.
Nora se identifica com a casa desde menina, tentando escutar seus sentimentos quando era habitada, quando estava vazia ou quando algo se quebrava dentro dela — metáfora direta de seus próprios afetos.
Gustav e Nora: espelhos quebrados
Nora, a filha mais velha, é profundamente marcada pelo distanciamento do pai. Há entre eles uma semelhança inquietante: ambos parecem ter dificuldade em sustentar vínculos próximos.
Agnes, a filha mais nova, surge como contraponto à tentativa artística do pai. Busca compreender, elaborar e construir vínculos — casamento, maternidade — apostando na possibilidade de transformação psíquica.
Arte, duplo e reparação:
Ao recriar o passado, inclusive com uma atriz americana interpretando a versão jovem da mãe falecida, o filme trabalha a noção do duplo, borrando as fronteiras entre realidade e ficção. A arte aparece como mediadora da dor: uma tentativa de dar forma ao vivido, ainda que nunca plenamente elaborado.