Glória Vianna Psicanálise

Glória Vianna Psicanálise Glória Vianna é psicanalista lacaniana e carioca.

Nessa página, Glória divide, com muito bom humor, pequenas pílulas retiradas de seus mais de 30 anos de clínica.

De tantas dores!    Era um domingo como tantos outros: o tempo nem quente, nem frio. Faltavam poucos minutos para a miss...
30/10/2025

De tantas dores!

Era um domingo como tantos outros: o tempo nem quente, nem frio. Faltavam poucos minutos para a missa começar. Não era nem dia Santo, mas muitas pessoas se aglomeravam na entrada da Igreja. Ana entra e já procura um lugar na frente para assistir à missa. Como suas costas doíam, escolheu um assento na frente de uma coluna, para apoiar o corpo. Foi desse lugar que foi vendo entrarem as pessoas que, costumeiramente, frequentavam a missa naquele horário.

Pediu à senhora que se sentara à frente o favor de mover sua cadeira um pouco mais para o lado direito, para que pudesse ficar com a cabeça encostada na coluna. Com olhar de indagação, a senhora justificou-se que não poderia mover a cadeira, já que sentia dores nas costas, no pescoço, na cabeça, no ombro... Alegou que na semana anterior havia operado os dois pulsos, por ter síndrome do Carpo. Continuou sua fala aflita, listando dores em muitos outros lugares do corpo, contando com detalhes que há tempos sofria. Passou então a relatar a infinidade de medicamentos
que tomava, inclusive, morfina.

Diante da narrativa daquele sofrimento, Ana sentiu a voz embargada de sua interlocutora que “queria falar” muito e há muito tempo. Ela tinha pressa, tendo em vista os poucos minutos que antecediam o início da missa. Disparou a contar acerca de todos os tratamentos a que se submeteu e dos efeitos colaterais de medicações como corticoides. Nas palavras dela, já tinha feito de tudo.

Perguntou se Ana era médica. – “Sou psicanalista”! A senhora prosseguiu frisando que os médicos “não encontraram nada” que explicasse suas dores, inclusive vários neurologistas e neurocirurgiões. Ana, então, lhe pergunta: “já que essas dores persistem tanto, não poderiam vir da alma?”.

A senhora muda a expressão do rosto e começa a chorar. Conta que há pouco tempo perdera seu filho. Diante da revelação de tamanha perda, Ana responde que, sim, ela tinha todo o direito de sentir essa dor cuja dimensão era da ordem do sem palavras. No entanto, o que talvez os médicos que a tratavam não soubessem lhe dizer é que há dores que saem da alma e vão para o corpo! Para esse tipo de dor, não há morfina que aplaque o sofrimento. Portanto, é preciso aprender a conviver com essa dor para poder viver a sua vida, e não a dos médicos. Nesse momento, ambas são interrompidas pela chegada do padre e do som dos sinos que avisavam que a missa começaria... Seria o anúncio de mudanças?

TEMPO DO LUTOAndréa, 60 anos, chegou ao consultório da analista perplexa. Tinha acabado de sair de uma consulta médica d...
13/03/2024

TEMPO DO LUTO

Andréa, 60 anos, chegou ao consultório da analista perplexa. Tinha acabado de sair de uma consulta médica de rotina. Ao falar emocionada e entre soluços que tinha perdido um ente querido, foi surpreendida com o seguinte comentário: “Mas, Andréa, já não faz seis meses que essa pessoa faleceu? Já era tempo desse choro ter parado!”.
“Ah, pensou Andréa, quer dizer que existe um tempo delimitado para o choro? É possível mensurar o tempo de um luto, Dra.?”. Foram com essas perguntas que a paciente se pôs a falar do seu sofrimento. Estaria ela fora de alguma normatividade clínica que estabelecia quanto tempo, a intensidade, a regularidade da expressão de uma emoção? Haveria uma classificação, tal como indicada na Consolidação das Leis do Trabalho - CLT - que estabelecia, dado o grau de parentesco, por quanto tempo a pessoa teria a “licença” para chorar a perda?
À analista coube acolher não somente o choro da paciente, mas também sua indignação pelo susto que a vida lhe pregou.
Para a psicanálise, não existe um tempo universal para o luto. Cada sujeito, com os recursos de que dispõe, encontra um caminho para lidar com a dor da perda de alguém amado.
Seria o choro a única forma de revolta contra a morte, que chega sempre apressada demais? Andréa, ao longo do tempo, foi descobrindo outras formas de lidar com a falta, com um vazio que não pode ser preenchido. Pouco a pouco, foi descobrindo modos de conviver com a saudade e encontrou na escrita uma maneira de subverter a tirania implacável da morte.
Escrever aplaca o vazio do sem palavras, do não saber o que fazer frente à partida de alguém. Escreve-se não para cobrir papéis em branco, mas justamente para, nesse esforço muitas vezes repetitivo, encontrar-se com o genuíno vazio do fim do tempo de alguém. Quem sabe aí encontra-se uma companhia! Esta é a aposta!

Confira um trecho de nosso novo texto no site: "Acompanhar alguém em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospit...
07/08/2023

Confira um trecho de nosso novo texto no site: "Acompanhar alguém em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital pode ser devastador. Em geral, só vão para as UTIs as pessoas com um quadro clínico que inspira cuidados especiais. Não há quartos. São “boxes” enfileirados, pequenas repartições onde os sujeitos lutam pela vida. A correria não pára: noite e dia os profissionais de saúde estão em constante vigia, entrando e saindo. Se pudéssemos olhar de cima, talvez imaginássemos uma colmeia onde as abelhas seguem firme em seu propósito, sabendo seu papel. [...]"

Leia mais em: https://gloriavianna.com.br/textos/a-psicanalise-e-a-dureza-do-real/ ou link da bio!

O Complexo de Édipo e o Complexo de Castração são dois conceitos que estão na boca do povo. Por exemplo, se uma pessoa a...
24/02/2023

O Complexo de Édipo e o Complexo de Castração são dois conceitos que estão na boca do povo. Por exemplo, se uma pessoa arranja um namorado mais velho, logo aparece alguém para afirmar, dando uma risadinha, “Deve ser o Édipo!”. Também, se um marido tenta controlar as vestimentas da esposa, dizendo, por exemplo, que ela não pode usar minissaia, ela responde “Quem é você para me castrar?”.

Esses usos, bastante corriqueiros, de inspiração psicanalítica, correspondem aos conceitos fundamentais da Psicanálise que estão presentes no Seminário V – As formações do Inconsciente, de Jacques Lacan (1957-1958). Neste ano, ao continuar o estudo e leitura deste texto, buscaremos construir enlaçamentos clínicos em torno desses conceitos fundamentais.

Venha estudar conosco!


Na quinta-feira dia 02 de março, retomamos as atividades do grupo Enlaçamentos Clínicos. Em 2023, daremos continuidade a...
16/02/2023

Na quinta-feira dia 02 de março, retomamos as atividades do grupo Enlaçamentos Clínicos. Em 2023, daremos continuidade ao estudo do Seminário V (1957-1958) de Jacques Lacan: As formações do Inconsciente.

Estudaremos o Complexo de Édipo e o Complexo de Castração.

Dado seu formato on-line, o curso permite a participação de todos os interessados, independentemente da localização geográfica. Buscaremos construir enlaçamentos clínicos em torno desses conceitos fundamentais. Nosso objetivo é mostrar como tais conceitos são indissociáveis na relação que o sujeito estabelece com sua palavra, podendo ser operacionalizados para ler e tratar os sintomas que nos chegam à clínica.

Quer nos conhecer? Acesse o link na bio ou este link para mais informações: https://gloriavianna.com.br/cursos/

O voto é um privilégio desfrutado à custa de muita luta. Poder votar é agir na contramão do silêncio aparador das ideolo...
22/10/2022

O voto é um privilégio desfrutado à custa de muita luta. Poder votar é agir na contramão do silêncio aparador das ideologias. A eleição é uma ocasião em que se celebra o direito de não ter sua voz condenada a um mutismo alienante. O dia da eleição é um momento em que as pessoas fazem uma aposta em que uma diferença possa advir. O preço pago pelo exercício de cada escolha é a possiblidade do sujeito buscar sua singularidade. O mesmo ocorre na clínica psicanalítica, na qual se trabalha para que as pessoas deixem um mutismo alienante.

Leia mais sobre isso em: https://gloriavianna.com.br/textos/segundo-turno/

Na clínica psicanalítica, ocorre o mesmo que em uma democracia. Nela, se trabalha para que as pessoas deixem um mutismo alienante.

“O complexo de Édipo é a base de nossa relação com a cultura”, afirmou Lacan, no Seminário 5 (p. 180). Na aula desta sem...
20/10/2022

“O complexo de Édipo é a base de nossa relação com a cultura”, afirmou Lacan, no Seminário 5 (p. 180). Na aula desta semana, nos Enlaçamentos Clínicos, vamos discutir essa afirmação e as três modalidades de pai abordadas por Lacan (pai real, imaginário e simbólico), bem como suas incidências na clínica.

Neste mês de outubro, passamos a estudar a “Lógica da castração”, do Seminário V, de Jacques Lacan. Começamos nosso estu...
06/10/2022

Neste mês de outubro, passamos a estudar a “Lógica da castração”, do Seminário V, de Jacques Lacan. Começamos nosso estudo pelo conceito de “foraclusão do nome do pai”, hipótese elaborada por Lacan para explicar um tipo de negação que funciona como um bloqueio do simbólico em que há um retorno do real através de construções imaginárias.

Embora seja carioca, há pelo menos três anos não aparecia por essas bandas. Inicialmente, foi a pandemia que me condenou...
08/08/2022

Embora seja carioca, há pelo menos três anos não aparecia por essas bandas. Inicialmente, foi a pandemia que me condenou a um exílio forçado. Depois, a vida foi se impondo à vontade de voltar à cidade maravilhosa.
Reflexões de uma carioca sobre uma cidade que há muito deixou para trás. Acesse em: https://gloriavianna.com.br/textos/o-rio-de-janeiro-esta-velho-sera/ ou link na bio!

Ao ser caracterizada, desde criança, como alguém “abatido”, uma paciente de 40 anos percebeu que viveu para endossar ess...
06/04/2022

Ao ser caracterizada, desde criança, como alguém “abatido”, uma paciente de 40 anos percebeu que viveu para endossar esse adjetivo.

Um insulto recebido na infância pode dar o tom da vida de uma pessoa enquanto ela deixa que isso aconteça. Foi o que ocorreu com Paula, 40 anos, divorciada e mãe de dois filhos. Era do tipo que cruzava as pernas sedutoramente para chorar. Procurou análise com uma queixa de se sentir “sem vida” mesmo sendo uma advogada bem-sucedida. Relatava estar com pressão baixa, com a pele gelada e se sentindo muito cansada. O clínico havia atestado ótima saúde, dizendo: “o que esta moça tem é da cabeça, não do corpo”.

Leia mais em https://gloriavianna.com.br/textos/precisa-assinar-embaixo/ ou no link da bio!

Indicação de leitura: Seu paciente favorito (Perspectiva, 2020) foi escrito pela jornalista Violaine de Montclos. O livr...
04/04/2022

Indicação de leitura: Seu paciente favorito (Perspectiva, 2020) foi escrito pela jornalista Violaine de Montclos. O livro traz 17 relatos de casos que marcaram a escuta e a carreira de psicanalistas franceses. Ano passado, por ocasião do curso Mais ainda, o corpo, discutimos o caso No seu colo [Bernard Golse & Élise]. A nosso ver, o caso ilustra como a psicanálise pôde vivificar um corpo, no caso, o de Élise, uma simpática menina de sete anos, mas, também, do próprio psicanalista. Trata-se de uma narrativa sensível que mostra o percurso de Bernard que, a partir da escuta de Élise, pôde se sentir bem “em sua própria pele” e na sua escolha profissional.

Endereço

São Paulo, SP

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