30/10/2025
De tantas dores!
Era um domingo como tantos outros: o tempo nem quente, nem frio. Faltavam poucos minutos para a missa começar. Não era nem dia Santo, mas muitas pessoas se aglomeravam na entrada da Igreja. Ana entra e já procura um lugar na frente para assistir à missa. Como suas costas doíam, escolheu um assento na frente de uma coluna, para apoiar o corpo. Foi desse lugar que foi vendo entrarem as pessoas que, costumeiramente, frequentavam a missa naquele horário.
Pediu à senhora que se sentara à frente o favor de mover sua cadeira um pouco mais para o lado direito, para que pudesse ficar com a cabeça encostada na coluna. Com olhar de indagação, a senhora justificou-se que não poderia mover a cadeira, já que sentia dores nas costas, no pescoço, na cabeça, no ombro... Alegou que na semana anterior havia operado os dois pulsos, por ter síndrome do Carpo. Continuou sua fala aflita, listando dores em muitos outros lugares do corpo, contando com detalhes que há tempos sofria. Passou então a relatar a infinidade de medicamentos
que tomava, inclusive, morfina.
Diante da narrativa daquele sofrimento, Ana sentiu a voz embargada de sua interlocutora que “queria falar” muito e há muito tempo. Ela tinha pressa, tendo em vista os poucos minutos que antecediam o início da missa. Disparou a contar acerca de todos os tratamentos a que se submeteu e dos efeitos colaterais de medicações como corticoides. Nas palavras dela, já tinha feito de tudo.
Perguntou se Ana era médica. – “Sou psicanalista”! A senhora prosseguiu frisando que os médicos “não encontraram nada” que explicasse suas dores, inclusive vários neurologistas e neurocirurgiões. Ana, então, lhe pergunta: “já que essas dores persistem tanto, não poderiam vir da alma?”.
A senhora muda a expressão do rosto e começa a chorar. Conta que há pouco tempo perdera seu filho. Diante da revelação de tamanha perda, Ana responde que, sim, ela tinha todo o direito de sentir essa dor cuja dimensão era da ordem do sem palavras. No entanto, o que talvez os médicos que a tratavam não soubessem lhe dizer é que há dores que saem da alma e vão para o corpo! Para esse tipo de dor, não há morfina que aplaque o sofrimento. Portanto, é preciso aprender a conviver com essa dor para poder viver a sua vida, e não a dos médicos. Nesse momento, ambas são interrompidas pela chegada do padre e do som dos sinos que avisavam que a missa começaria... Seria o anúncio de mudanças?