30/08/2020
Uma página com Paulo Afonso Ronca
PRECISAMOS CONVERSAR SOBRE O AB**TO
Não volto às notícias da pobre menina pobre violentada. Sabemos o que nos embrulha o estômago, tal como o sadismo e a desumanidade de um grupo de malucos, que enluta esta sociedade já tão empobrecida e cínica. Porém, por que o ab**to é assim tratado? Por que tanto ódio e debates ideológicos a ponto de gritarem “assassina” e de religiosos intolerantes rejeitarem o procedimento legal que salvaria a vida dela?
Do ponto de vista psicanalítico, o tema é Nitroglicerina pura e, multifacetado, está inserido em nosso inconsciente, em terrenos minados: mexe com nossos fantasmas, nossas culpas, fantasias, vergonhas, com desejos sádicos, com ambivalências e contradições. Não adianta sermos contra ou a favor, porque, assim debatido, nascerão mil argumentos e poucas conclusões. O que segura a discussão é que o Estado não é laico. Não é! Difícil, hein?
Não há ab**to, há ab**tos, cada qual em suas circunstâncias! Há ab**to no Brasil, na Europa, nos EUA, para pobres, ricas, brancas, pretas, maiores ou menores de idade, permitidos ou clandestinos.
Pensemos nas Religiões, dimensão capital para os brasileiros. A Católica vive um transtorno obsessivo-compulsivo: é pecado, é pecado, é pecado, crime hediondo, inclusive para a menina que tinha direitos legais. As Neopentecostais nada discutem, pois desta cartola não sairão dízimos ou milagres, dentre outras obstinações impuras destas instituições religiosas sectárias.
A nossa desgraça será o avanço dos fundamentalistas!
No Brasil machista, mulher não ‘faz’ ab**to, ‘comete’ um. Assim, é tida como criminosa e sente-se envergonhada. Por isto, vejo pacientes que abortam sem contar para os pais ou maridos...
As Ciências estão longe de chegar a um consenso quanto ao início da vida humana; talvez nunca saberemos! Contudo, a Igreja Católica já equacionou tudo, afirmando que já há alma no embrião; ela adora discutir sobre a existência ou não da alma, tanto que passou muito tempo, afirmando que os índios não a tinham... Difícil, hein?
No Brasil, foi a partir dessa moral Cristã que se deu a incriminação da mulher que aborta. Fato. Não aprecio nem essa “moral seletiva”, tampouco esse Deus que castiga e castiga e castiga. A ‘culpa católica’ não me convence mais. Aprecio um pobre que nasceu em Nazaré. Uma vez, criticou os seus amigos dizendo: “deixai vir a mim as criancinhas... e tudo o que fizerdes a uma delas, é a mim que estarão fazendo”. Assim, por Sua lógica, no caso da menina em questão, é justo pensar que, mais do que simbolicamente, estupraram o próprio Jesus Cristo...