07/12/2018
"A travessia da fantasia corresponde à destituição subjetiva pois significa essencialmente ir para além dela, para que o sujeito se reconheça num "sou" conectado ao objeto. É da fantasia que o sujeito tira a segurança do que fazer diante das situações que a vida lhe apresenta. A análise, ao levar o sujeito a atravessá-la, promove um abalo e uma modificação nas relações do sujeito com a realidade, levando-o a uma zona de incerteza, pois ele é largado pela âncora da fantasia, liberado das amarradas das identificações que mapeavam sua realidade.
"Sou essa voz da garganta afônica do Outro; essa m***a ejetada por seu furo; esse objeto a devorar por sua boca; esse olhar penetrante a me fuzilar". Revelação de um ser em contraposição ao sujeito que, ao obedecer ao "diga tudo" da regra fundamental, só aparece como falta de ser aquilo tudo que é dito. A partir dessa experiência de ser, o sujeito poderá esvaziar esse objeto do gozo do Outro que lhe sustenta a fantasia. Com essa operação de esvaziamento de gozo, o sujeito pode saber-se um rebotalho e lidar com seu ser de objeto para dele poder se separar. Esse objeto, uma vez separado, decaído, "perde todo privilégio e literalmente deixa o sujeito sozinho". Trata-se aqui de uma dessubstantificação do objeto onde o que conta "não é o próprio objeto, mas a função desse objeto em sua relação com a divisão do sujeito".
O que está em jogo na travessia da fantasia no final da análise é a perda do ser de toda sua substância de objeto. O fim de análise deve permitir ao sujeito renunciar ao que lhe dava a impressão em sua fantasia de lhe oferecer esse complemento de ser".
Antonio Quinet - As 4+1 condições da análise