10/05/2026
Trabalhar no SUS como pediatra e neonatologista é viver, diariamente, o exercício da medicina em sua forma mais crua e humana. Ao longo de toda a minha carreira até aqui, aprendi que o prontuário de um paciente no sistema público não registra apenas patologias, mas histórias de resiliência— e a nossa missão como profissionais é ser o suporte que impede que essas histórias sejam interrompidas por falta de recursos.
Quantas vezes a prescrição médica precisou ir além da caneta? Perdi as contas de quantas vezes abri a própria carteira para garantir que um antibiótico chegasse a uma criança, ou de quando comprei insumos básicos e equipamentos que o hospital ou a UBS simplesmente não tinham no momento. Para quem vê de fora, pode parecer um erro de gestão ou uma falha no sistema — e tecnicamente é. Mas, para quem está ali, diante do olhar de uma mãe ou da fragilidade de um recém-nascido, a burocracia se torna irrelevante diante da urgência da vida.No entanto, essa jornada me ensinou algo profundo: fazer o melhor com o que temos disponível não é sobre conformismo, é sobre transcendência.Essa missão vai muito além da contabilidade material. Não se trata de lucro, perdas ou de quem deveria ter fornecido o quê. É um compromisso que reside no nível mais sutil da alma. É entender que o nosso propósito não é definido pelas paredes de uma UTI neonatal bem equipada ou por um conforto médico com luxo, mas pela disposição de ser a ponte onde o caminho parece ter acabado.Trabalhar no SUS é descobrir que, quando falta o material, o que sobra é a essência do nosso juramento. É o toque que acalma, o olhar que acolhe e a criatividade técnica que salva vidas com o mínimo. É uma entrega que não se mede em holerite, mas na satisfação silenciosa de saber que, naquele dia, a nossa humanidade preencheu as lacunas de um sistema falho.A medicina no serviço público é, acima de tudo, um ato de amor e um resgate constante do nosso próprio propósito como seres humanos.