11/10/2019
CORINGA: UM SINTOMA SOCIAL
!!ATENÇÃO, CONTÉM SPOILER!!
O novo filme do arquivilão do Batman, Joker (Coringa no Brasil), tem chamado muita atenção da crítica e do público. Há várias interpretações e leituras sobre o filme e o personagem. Neste texto vou dar uma palhinha da minha leitura dessa incrível adaptação dirigida por Todd Phillips.
O universo Batman sempre apresentou uma sociedade caótica, violenta e em crise, remetendo aos anos 70/80 da cidade de Nova York. O filme Coringa (2019) representa o quanto uma sociedade pode ser nociva e o personagem interpretado por Joaquim Phoenix encarna essa crise.
Artur Fleck é um homem falido, deprimido, que vive com a mãe e que trabalha como palhaço. Ele experiencia diversas desventuras ao longo da trama, mostrando sua dificuldade e impossibilidade em criar laços, mas também como as pessoas o recebe. Como f**a exemplif**ado em sua fala a situação em que vivia:
“Só espero que minha morte valha mais centavos que minha vida."
Logo nas primeiras cenas, há os garotos que o roubam e o espancam. Temos a cena do ônibus, aonde ele br**ca com uma criança, mas é repreendido pela mãe que ocasiona seu sintoma de riso que ocorre ao longo do filme.
Esse sintoma é a impossibilidade de expressar um sentimento por meio do choro, no lugar, risos.
Ainda temos a cena do metrô em que ele ri da fala dos três rapazes que assediam uma mulher e, posteriormente passa a ser espancado e reage matando os três.
A relação com sua mãe é estranha e simbiótica. Relação está que é de cuidado, como ele diz: "sou o homem da casa." Ele não tem nenhuma lembrança de sua infância e curiosamente sua mãe o chama de Happy!
(Uma pequena digressão. Joker traduzido por Coringa em português, signif**a palhaço, br**calhão. O nome Joker é importante, pois diferentemente de Coringa, possuí traços do que no filme podemos constatar do que ele "carregava", como ser chamado de Happy e o imperativo de ter que causar felicidade e risada; um deslizamento.)
Muito interessante, pois é o que ele vai buscar em sua vida: responder ao desejo da mãe tentando ser um comediante.
Tem a questão com a figura paterna, figura essa que é ausente (referência de masculinidade, em outras palavras, como ser um homem), onde podemos perceber sua tentativa de dar conta, como quando ele assiste ao programa e devaneia com o apresentador de quem é fã. Também há, por conta de uma carta da mãe, sua crença de que Thomas Wayne é seu pai e que ele o procura para preencher esse lugar ausente da referência do que ele pode vir a ser.
Interessante, pois ele busca por ajuda, passa com uma assistente social que não o escuta - conclusão que ele chega em determinado momento do filme:
"Você não escuta, né? Você faz as mesmas perguntas todos os dias. Como vai seu trabalho? Está tendo pensamentos negativos?
Só o que eu tenho são pensamentos negativos"
Essa cena é muito importante para nos psicólogos e profissionais que trabalham com saude mental no que tange a questão do tratamento daquele sujeito, a escuta para ser mais preciso.
O ponto de virada ocorre quando o segurança (pode ser o Alfred?) lhe da uma verdade e então ele vai atrás de saber sobre sua história. Descobre que aquela não era sua mãe biológica e que ela foi uma paciente do "hospital psiquiátrico". Nesse momento ele perde o que lhe dava contorno, corpo, e talvez a única referência em que ele se baseava na sua tentativa de dar um sentido para sua vida.
Coringa é um personagem que revela algo muito humano, muito nosso, se posso dizer; ele busca em suas tentativas existir, como ser, o que ser. F**a nítido na trama que quando todas às referências, seus ideais, como por exemplo, ser um comediante famoso, quebram (aqui remetemos a figura do apresentador que debocha de sua apresentação), ele surta e deste surto dá um caminho, se torna o Coringa.
Esse filme é muito rico, bem como seu personagem. Há mil outras coisas a se falar, como a questão social, a questão de como surge um líder, pois afinal foi ele quem no programa falou e fez o que muitos em sua condição "gostariam" de fazer. Isso notamos depois que ele discursa e mata o apresentador, os cidadãos de Gotham se rebelam.
O Coringa é um sintoma social que escancara toda a hipocrisia, toda repressão, toda desigualdade e a falta de humanidade entre os semelhantes. É quase como se em seu ato ele disesse: "É essa sociedade que vocês querem, é essa sociedade que terão. Por quê tão sério?"