27/03/2017
Com um grande respeito à sabedoria das grandes Medicinas Tradicionais Orientais e para manter sempre vivo o ensinamento dentro de mim e poder compartilhar um pouco dele, vou passar a incluir aqui alguns textos de mestres e professores a respeito desses conhecimentos e de suas matrizes.
Inicio com o texto abaixo de autoria de Sri Prem Baba, que fala sobre o Ayurveda, mesmo embora meu foco atual de trabalho e estudo esteja mais direcionado às igualmente milenares Medicina Tradicional Chinesa e Medicina Tradicional Tailandesa entre outros estudos, mas por ter me chamado muita atenção pela abrangência, clareza e compreensão de uma das mais antigas Medicinas Tradicionais.
Considerações sobre Ayurveda
Diferentemente da Medicina moderna ocidental, o foco do Ayurveda, cujo significado etimológico é a ciência da vida, é a saúde, e não a doença. Um corpo saudável e equilibrado, um bom controle dos sentidos, uma mente serena e a liberdade para a consciência experimentar nossa real natureza divina, como uma própria manifestação de Deus, aproxima-nos da definição de saúde.
Essa última característica é outra diferença bem marcante da definição de saúde da própria Organização Mundial de Saúde - OMS. No Ayurveda, não levamos em consideração apenas nossa natureza material e física ( “bem estar bio-psico-social” - OMS), mas também nossa natureza espiritual.
Esse sistema de medicina tradicional indiano, concebido há aproximadamente 5 mil anos, compreende um conjunto de métodos naturais aplicados na prevenção e cura das doenças, promoção da saúde, buscando prolongar a vida.
Outras vantagens que poderiam ser citadas são a não exclusão da psiquê como fator desencadeante de doenças, já que mente e corpo são um só, sendo apenas diferentes na densidade da matéria que os compõem ( matéria densa e sutil); a ênfase na singularidade de cada tratamento para cada indivíduo, mesmo que a doença seja a mesma; promoção de um melhor auto conhecimento, já que é a auto-observação é fundamental para a manutenção da saúde; o custo, já que é uma medicina barata; e a ausência de toxicidade, já que os medicamentos são extraídos diretamente da natureza.
Partimos do princípio de que nosso organismo é um universo em miniatura, afinal nossa matéria física é composta pelos mesmos elementos que compõem qualquer ser, animado ou inanimado, no universo. Esses elementos são o espaço, ar, fogo, água e terra.
Nós, humanos, temos em nossa composição, ainda, os sentidos e a consciência, que nos permite através dela, experimentar nossa alma. Essa composição se dá no momento da concepção, dependendo da constituição e desequilíbrios de nossos pais e vivências da gestação e do parto.
Como toda matéria, nosso equilíbrio é instável; podemos, em uma fase da vida, estar equilibrados; em outra, desequilibrados. Se esse desequilíbrio permanecer e não nos observarmos a ponto de percebê-lo, física ou psiquicamente, surgirá a doença.
Aprofundando um pouco mais sobre o funcionamento da matéria viva, temos princípios biorreguladores responsáveis por cada uma das funções do nosso organismo, os chamados doshas. Como tudo no universo, eles são constituídos pelos 5 elementos e, portanto, são profundamente físicos. Possuímos os três doshas, em quantidades diferentes, o que nos dá nossa singularidade de funcionamento fisiológico e mental e composição, como, por exemplo, altura, peso, ritmo intestinal, características dos cabelos, do sono, da digestão, sentimentos mais presentes, nossas reações às mais diversas situações etc.
Os doshas são: vata, pitta e kapha; podemos ser constituídos predominantemente por um deles, pela combinação de dois ( vata-pitta, vata-kapha ou pitta-kapha) ou até mesmo de três deles, os indivíduos chamados de tridoshas. Vata é constituído pelos elementos ar e espaço, que dão ao organismo, como características fundamentais o movimento, a secura e a irregularidade. Pitta é constituído pelos elementos água e fogo, dando calor, intensidade/irritabilidade e atividade/transformação ao organismo. Por fim, kapha, constituído por água e terra, que dá estabilidade, peso e lentidão.
O corpo sutil também possui qualidades, as chamadas gunas, na sua forma original, que são satwa, rajas e tamas. Elas, assim como os doshas, se anulam mutuamente na origem; quando em movimento ou desequilíbrio, se manifestam, sempre havendo predomínio de uma delas. Quando há dominância de satwa guna, aparecem, na mente, o brilho, a alegria, a pureza, o conhecimento, a quietude e o altruísmo; é o estado da matéria sutil que permite a iluminação. Quando há predomínio de raja guna, aparecem a excitação, o movimento, o esforço, a dor, os desejos. E quando há mais tama guna, vêm a resistência, a passividade, a negatividade, o peso, a obstrução e a indolência.
Além de já possuirmos uma constituição prévia de nosso corpo material, precisamos nutri-lo para mantê-lo equilibrado e aumentar nossa imunidade, que também tem relação direta com a nutrição. Para incorporar os nutrientes, é preciso transformá-los, através da nossa digestão e metabolismo. Quando não digerimos bem o alimento, seja pela sua qualidade, quantidade ou déficit no próprio metabolismo, acumulamos esse resto mal digerido, que chamamos de toxina. Tal raciocínio também vale para as emoções, que se não forem bem digeridas, se acumulam na forma de toxina para a mente. A presença de um bom metabolismo leva a uma clareza e agudeza dos sentidos, energia para o dia-a-dia e o não acúmulo de toxina. Já seu mau funcionamento, leva a obscuridade da mente e das percepções, sensação de corpo pesado e rígido e acúmulo de toxina.
Nos tempos modernos, os maus hábitos alimentares são a raiz da grande maioria dos problemas do homem. Como nutrir nossa constituição com alimentos cheios de agrotóxicos, conservantes químicos e hormônios? Como nos nutrir de alimentos desvitalizados pela forma de armazenamento (congelados) e cozimento (microondas)? E os horários, a correria diária?
Para esclarecer dúvidas sobre o hábito de alimentar-se, há nos textos ayurvédicos algumas regras gerais da alimentação:
1. Não se alimentar quando não estiver com fome.
2. Não se alimentar quando se está com raiva, irritado, preocupado ou triste. Devemos primeiro digerir os sentimentos para digerir, então, a comida.
3. Não comer logo após o exercício físico; esperar aproximadamente 30 minutos para que a circulação se restabeleça.
4. Comer comidas frescas, da época, da região onde vive.
5. O alimento deve atender a todos os sentidos: ser cheiroso, gostoso, bonito, com temperatura agradável e até mesmo com som agradável (!!).
6. O ambiente deve ser calmo, limpo, iluminado; comer em boa companhia aumenta o prazer e o valor do alimento.
7. Estimular e verificar o poder da digestão antes da refeição: 30 minutos antes, tomar uma chá de gengibre com ervas digestivas ou mastigar um pedaço de gengibre. Pode-se também deitar sobre o lado esquerdo do corpo por 5 minutos ou respirar apenas pela narina direita por alguns minutos ( aumenta o calor interno).
8. Devemos nos higienizar, sendo o ideal um banho. Se não houver possibilidade, lavar mãos e pés (!), o rosto e enxaguar a boca. O alimento deve encontrar um ambiente limpo, já que a sujeira bloqueia o fluxo de energia pelo corpo.
9. Agradecer à natureza pelo alimento recebido.
10. Sentar para comer, de maneira alinhada, na posição de lótus (com as pernas cruzadas).
11. Nenhuma outra atividade deve ser feita enquanto nos alimentamos, como ver TV, “almoço de negócios”, por exemplo.
12. Alimento deve ser apropriadamente mastigado. Nem tão rápido, nem tão devagar.
13. Ao final da refeição, agradecer novamente. Fazer nova higiene. Não criar o hábito de evacuar após as refeições, pois o foco deve ser a digestão e não a eliminação.
14. Ainda ao final, dar uma pequena caminhada ( uns 100 metros) e descansar (não dormir!) por apenas 10 minutos.
15. O intervalo entre as refeições não pode ser menor que 2 horas nem maior que 6 horas. Isso dependerá de cada dosha: vata a cada 3 horas, pitta a cada 4 horas e kapha a cada 6 horas. Nunca beliscar.
16. Evitar comer após às 20 horas.
17. Evitar comer em restaurantes, já que devemos comer alimentos preparados por pessoas que nos conheçam e gostem de nós.
Além da alimentação, o outro motivo principal para o desequilíbrio dos doshas, é o mau funcionamento da mente. Podemos cometer ações nocivas ou indesejáveis decorrente de um erro de julgamento ou discernimento. E, na maioria das vezes, não conseguimos controlá-la; só ela mesma é capaz de se controlar. É considerada, por isso, uma substância instável, vista como um órgão da percepção na medida em que controla os órgãos da percepção. Controla, ainda, os órgãos da ação.
Para isso, é onde se encontram o Ayurveda e o Yoga, que diz que nossa alma é o reflexo da consciência universal. Pelo fruto da ignorância, não percebemos a continuidade entre consciência universal e individual. Um iogue, mantém-se afastado da dor e da mágoa, não tem expectativa de recompensa, desenvolve o hábito da verdade, pratica a equanimidade e mantém a mente inabalável mesmo diante de um terrível sofrimento.
As práticas de ásanas (posturas que buscam levar a uma integração entre mente, corpo e espírito) e pranayamas (exercícios respiratórios que objetivam o controle da energia vital no corpo) associam-se a outras práticas, não físicas, que propiciam esse melhor controle. A não violência através do pensamento, fala e ação física promovem a fraternidade, que é fundamental para a purificação da mente, trazendo amizade, empatia, compaixão e promovendo o amor universal.
Outra prática é a exigência da atitude ativa na busca da verdade e restrição da falsidade. Também, a não apropriação do que é de outros indivíduos, como objetos, idéias e sentimentos; o não exagero com as práticas sexuais para conservação de energia vital e a limitação do desejo de posse, ficando apenas com o que é essencial.
Devemos promover a pureza interna e externa, através de boa alimentação e evitando contato com emoções negativas; devemos nos satisfazer com o fruto de nosso trabalho, pois o descontentamento é a raiz de todas as misérias e estaremos sempre insatisfeitos se nos deixarmos levar pela busca constante do conforto e gozo dos sentidos; devemos praticar austeridades através de práticas severas e temporárias para destruição de impurezas, colocando o corpo sob o controle da vontade; devemos estudar regularmente textos que falem sobre as verdades eternas, para não nos esquecermos porque demos o primeiro passo; por fim, devemos nos cercar de Deus, dedicando a Ele nossas ações.
“Se há um mal neste mundo, este mal se chama esquecimento. O esquecimento da sua natureza divina”
“Pensamento, palavra e ação devem caminhar juntos para haver realização. Isto é inteireza.”
Sri Prem Baba.