05/04/2026
Antes, arado e semeado pra ser germinado. Agora, colhido e descaroçado pra ser fiado. É algodão tornado fibra, fibra tornada fio, fio tornado tecido, tecido tornado vida pelo trabalho de muitas mãos! Do tramado ao puído: tecido! Do rasgo ao remendo: tecido! Do tingido ao desbotado: tecido! Independente das feituras, uma vez tecido, sempre tecido. Descosturar é possível, destecer é ilusão. Lá nos cafundós da memória ainda resiste aquela profunda lição de que tudo, absolutamente tudo que é útil nesta vida, se faz processo dos mais artesanais. Que seria então o viver senão uma artesania de relações, onde se permite o tecer ao mesmo tempo que se é tecido?
Embora a tessitura seja uma boniteza, o tear que faz o direito não desfaz o avesso. Igualzinho a gente que, quando fia amor, não vê que tá fiando dor. Um às claras, outro às escondidas. Tal qual a tecelagem, viver também é um ofício, onde o relacionamento suscita aos mais diversos entrelaços: jeitosos e custosos. Nascem daí relações tecidas de diferentes formas: as naturais, as sintéticas e, até, as artificiais. Essa daí é a parecença do que nunca foi, mas o tempo todo fingiu ser. Além de esculhambar, isso deixa aos farrapos. A perda de confiança, no fio humano, é, dos resultados, o mais nefasto.
Meu Deus, já não se tecem relações porque é o único jeito de proteger do rasgo? Perdeu-se a diferença entre algodão, poliéster, juta, linho, viscose e cetim? Quando se trata de gente é tudo igual assim? Temo o dia que não teremos mais fiadeiras, costureiras, alfaiates, modistas que sejam. Uma raridade em tempos tão desumanos. Que não nos falte nem as costuras dos tecidos nem as artesanias dos amores! Ninguém existe por si. A gente existe em relação com o outro: de fio a fio. Que o amor, esse ditoso, nunca deixe de ser uma estripulia das boas pra se tornar linha de produção: cópia da cópia, desempregado de autenticidade.
PAULO CRESPOLINI
▪️Psicólogo - CRP 06/132391
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