25/01/2026
Lá nos cafundós da memória ainda existe a Mercearia da Tia Joana, a Bodega do Bartolomeu, a Vendinha da Zumira… Muitas das vezes era a sala de uma família convertida em estabelecimento comercial dos bons. Tinha balança, óleo de soja, o arroz que a mãe mandava buscar, mas a gente gostava mesmo era do suspiro, da língua de sogra, da maria-mole e do pé de moleque. Num lugar estratégico se avistava os seguintes dizeres: “Não vendemos fiado”. E, noutro lugar, mais estratégico ainda, estava guardada a caderneta que dizia: “Vendemos fiado sim”. Nela tinha a lista da Dona Maria boleira, que pagava todo dia 10. O Seu Custódio sapateiro, no mais tardar, dia 03 e a Lió alguma coisa, só no final do mês, depois de receber da passação de roupa, na casa dos outros.
Eita povo honesto, cujo maior preceito era o de pagar. Dever? Só obrigação mesmo. Já na Mercearia da Dona Vida as coisas são diferentes. Onde a confiança é fiada também há a possibilidade do calote. Se tem o direito, tem o avesso. Todo trair vem de um afiançar. Quem constrói o amigo, edifica o inimigo. Um do ladinho do outro. A gente não tece apenas o amor que vê, mas a dor que insiste desver. Quantas provas uma pessoa precisa cumprir pra ser digna da confiança da gente? Compensa viver armado, na guarita do medo e desconfiado de si, de Deus e todo mundo?
A confiança vem da capacidade que a gente tem de se entregar ao outro, de desarmar as defesas, depor as armas, de permanecer na sombra e água fresca em vez do tiro, porrada e bomba. Confiar não é coisa de gente ingênua, muito menos uma idiotice. Olha a arapuca aí, meu povo. Ao deixarmos de confiar em quem quer que seja: nos tornamos menos confiantes porque ficamos atrofiados no amor. Nunca foi sobre deixar de confiar. Sempre foi sobre retirar a confiança quando ela for tratada com indignidade. Qual a sua caderneta? Quem está listado nela? Menos dívida, mais pertencimento.
PAULO CRESPOLINI
▪️Psicólogo - CRP 06/132391
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