14/03/2019
Com clara intenção de chocar, Melanie Martinez faz ótimas referências às anestesias do cotidiano e a plasticidade da normalidade. E tudo isso dentro de uma música bacana.
A começar pelo título da música Mad Hatter, que para nós é traduzido como Chapeleiro Louco ou Maluco, Melanie faz várias referências ao conto Alice no País das Maravilhas. Obra de Charles Lutwidge Dodgson escrita com o pseudônimo de Lewis Carroll.
Essa obra famosa, é muito usada para simbolizar a loucura, o delírio e a fantasia de uma mente que recorre a objetos, seres fantásticos e estranhos, para dar conta de uma realidade difícil, dolorosa ou simplesmente enfadonha.
No clipe podemos ver algumas criaturas peculiares e antropomórficas que dentro da narrativa, mesclam os personagens Gato de Cheshire, o Coelho Branco e a Lebre de Março com um certo tipo de Teletubbies sinistros. Essa mistura estranha funciona para trazer o conceito do que é real, do que faz parte da fantasia e de como isso interage com a protagonista. Embora para mim, os Teletubbies já fossem estranhos por si só.
Temos outras cenas com referências claras ao “Chá da Tarde”, a “Toca do Coelho” e aos ingredientes psicotrópicos que Alice faz uso durante sua aventura. Até mesmo o cigarro de maconha que Melanie fuma no começo do clipe, faz referência a Lagarta Azul que originalmente no conto em inglês é chamada de “Caterpillar”. Na letra da canção temos um trecho onde o personagem é mencionado “This dream, dream is a killer, Getting drunk with the blue Caterpillar”.
Traçadas algumas referências da literatura, podemos falar do conceito interessante que a compositora nova-iorquina traz sobre os transtornos mentais e os preconceitos que os cercam.
Em sua música, a cantora retrata como as pessoas com transtornos mentais são chamadas de loucas, estranhas, errantes, tortas, malucas, doidas e de outras formas que não são lembradas na letra.
No clipe, mesmo de forma bizarra e caricata, vemos um “Doutor Coelho” oferecendo como tratamento duas opções: Remédios ou remédios.
Levantando novamente a polêmica mundial e principalmente norte americana, sobre a industria farmacêutica e a prescrição em excesso de medicamentos para transtornos mentais. Nessa cena ainda podemos ver o objeto mais simbólico que podemos pensar sobre a quebra do sujeito, sobre retirada efetiva da pessoa do seu meio. A Camisa de Força.
Na psicanálise não usamos o termo louco, e sim disfuncional. Acreditamos que o sujeito tem o seu funcionamento prejudicado por causa de suas demandas psíquicas, de suas neuroses, dos seus desejos recalcados e de todo um conjunto de elementos do inconsciente, que abrimos mão para viver em sociedade.
É claro que em muitos casos, se faz necessário o uso de medicamentos. Melhor ainda quando esses medicamentos são alinhados com a análise ou terapia.
Pessoalmente, o que mais gosto na música e também no clipe, é sobre como ela se refere à aqueles que se auto intitulam de “normais”. E no clipe, mesmo de forma perturbada e as vezes um tanto chocante, ela nos traz a concepção de como a normalidade pode ser plástica.
E ao final do videoclipe quando a protagonista acorda do sonho, ou de sua fantasia com os olhos negros, podemos interpretar que ela pode ter ficado “normal”. O seja, quase um zumbi. Que essa dita tal “normalidade” traz um viés de perda da individualidade.
Assistam e tirem suas próprias conclusões.
Eu fiquei com a seguinte reflexão:
Podemos então questionar afinal, se a normalidade é na verdade um sintoma?
Boa viagem Alice!!
Sandro Siqueira
Psicanalista
Written, Directed & Conceived by: Melanie Martinez Executive Producer: Jennifer Goodridge Executive Producer: Wes Teshome Produced by: Jennifer Goodridge Pro...