28/12/2025
Projeto Aurora Index: quando a ecocardiografia começa a revelar o que ainda não tem nome
Ao longo dos anos, muitos de vocês me acompanharam aqui nesta página enquanto eu cuidava de pacientes, discutia exames, explicava diagnósticos e tentava traduzir a cardiologia para uma linguagem compreensível e honesta.
Hoje, quero compartilhar algo diferente , mas profundamente conectado a tudo isso.
Estou envolvido no desenvolvimento de um projeto chamado Aurora Index.
O Aurora Index nasce de uma inquietação minha antiga da prática clínica: nem tudo que importa no coração aparece claramente nos parâmetros tradicionais. Muitas pessoas envelhecem, sentem mudanças sutis na tolerância ao esforço, no ritmo do corpo, na adaptação ao dia a dia e ainda assim têm exames considerados “normais”.
A pergunta foi simples, mas incômoda:
👉 será que estamos medindo tudo o que deveríamos?
O Aurora Index é um parâmetro ecocardiográfico funcional, voltado para compreender melhor o acoplamento entre o átrio esquerdo e o ventrículo esquerdo ou seja, como a contração do átrio realmente contribui para o enchimento do coração em diferentes condições de carga e ao longo do envelhecimento.
Diferentemente dos parâmetros clássicos da diástole, que priorizam estimativas indiretas de pressão de enchimento ou marcadores de remodelamento estrutural, o Aurora busca descrever um estado funcional dinâmico, integrando fluxo atrial efetivo, complacência ventricular e carga arterial.
Nos achados iniciais, algo chamou muito a atenção:
• O Aurora não se associa ao E/e’, um dos principais marcadores ecocardiográficos de pressão de enchimento.
• Também não se associa ao volume do átrio esquerdo, marcador clássico de remodelamento crônico.
• Por outro lado, apresenta associação moderada com a idade, mesmo quando esses outros parâmetros permanecem normais.
Isso sugere algo fascinante:
👉 existem fenótipos funcionais do coração que mudam com o envelhecimento, mas que ainda não são captados pelas classificações tradicionais da disfunção diastólica.
É cedo. Os dados ainda são iniciais. Estamos estudando, testando hipóteses, organizando fenótipos e comparando com outros parâmetros.
Mas o caminho tem sido surpreendentemente fértil.
Algo que me deixou particularmente feliz foi perceber o alcance que esse conceito que criei começou a ter. Colegas da Europa, dos Estados Unidos, do Oriente Médio, da África e do Extremo Oriente têm buscado informações sobre o que batizei de acoplamento atrioventricular, interessados não apenas no conceito, mas em aprender a medir, interpretar e discutir seus significados clínicos na prática diária.
Nesse processo de troca, tive a oportunidade de conhecer o Dr. Jeff Scott, da Cleveland Clinic _ Jacksonville, FL , que tem sido extremamente generoso nos diálogos e nos insights fisiológicos, ajudando a refinar perguntas, hipóteses e interpretações. Esse tipo de colaboração reforça algo essencial: ideias só amadurecem quando circulam.
E aqui faço questão de reforçar algo em que sempre acreditei:
a ecocardiografia não é apenas um exame de imagem.
Ela é uma ferramenta poderosa de raciocínio fisiológico. Um método que, quando bem utilizado, permite enxergar o coração em movimento, em adaptação contínua, em diálogo com o corpo inteiro.
Projetos como o Aurora Index mostram que a ecocardiografia ainda tem muito a oferecer — não apenas para diagnosticar doenças avançadas, mas para entender estados funcionais intermediários, o envelhecimento cardiovascular e mudanças sutis que antecedem a doença manifesta.
Seguirei compartilhando, com transparência e espírito crítico, os próximos passos desse projeto.
Porque ciência se constrói assim: com curiosidade, método, humildade e vontade genuína de compreender melhor o ser humano.
E, por fim, uma curiosidade que carrega o espírito deste projeto.
No Aurora Index, o nome não foi escolhido por acaso. Aurora remete ao amanhecer, ao surgimento da luz depois da noite, ao início de um novo ciclo. Cada letra também dialoga com o conceito central do índice: A de Atrial, U de Understanding, R de Relationship, O de Output, R de Reserve e A de Atrioventricular. Um índice que busca compreender melhor a relação funcional entre o átrio e o ventrículo, suas reservas e suas adaptações ao longo do tempo.
Que este novo ano seja, para todos nós, uma Aurora: um despertar para um tempo melhor, com mais conhecimento, mais humanidade e mais cuidado com aquilo que realmente importa.
Desejo a todos um Feliz Ano Novo, com saúde, serenidade e bons começos.