16/04/2026
Mágica cirúrgica
Conheci, há muitas décadas, um menino mágico. Filho de grandes amigos oftalmologistas que fiz durante uma série de conferências no Caribe.
simoncelli era estudante e encantava as pessoas por quem era e pelas transformações aparentemente inexplicáveis que saíam de suas pequenas mãos ligeiras.
Hoje é amigo e um grande cirurgião de catarata. Passou pelo departamento que chefiei na , e me ensinou bastante, como provavelmente também ensinei a ele.
A mágica agregou habilidade ao médico empático, que sempre entendeu bem como as coisas funcionam, porque, para ele, nunca houve magia.
Cirurgia não é mágica.
Não é algo intangível, inexplicável, acessível apenas aos bruxos. É técnica: determinada, conhecida, repetitiva, precisa, treinável, passível de aperfeiçoamento e, às vezes, falha.
Com o avanço tecnológico, saímos da fantasia de quem cura apenas com as mãos para outra: a das máquinas que supostamente operam por nós.
Nenhuma das duas traduz a realidade.
Falei sobre isso recentemente em um congresso, no Rio de Janeiro.
Muitas vezes ainda usamos imagens e derivações indiretas para tomar decisões cirúrgicas. Mas hoje já dispomos de ferramentas que transformam exames diagnósticos em dados palpáveis, utilizáveis na ponta dos dedos.
Um exemplo é o “olho digital”, construído a partir de exames da anatomia complexa e milimétrica do olho e de suas interfaces ópticas.
Com a força computacional atual, podemos exportar esse "gêmeo digital", simular cenários, adicionar fatores como cicatrização e envelhecimento, e produzir perfis de tratamento a laser para miopia, hipermetropia, astigmatismo e até presbiopia.
Faço aqui uma analogia com a caverna de Platão: sem educação crítica, vemos sombras e as tomamos por realidade. Quando entendemos os truques, desvendamos a mágica e tornamos os dados mais concretos.
O convite é para sairmos da caverna. Pacientes e cirurgiões. Para seguir nos maravilhando, sem sermos engolidos pelo inexplicável.