18/05/2020
Meu pai não tirava férias. Não gostava.⠀
Quando chegava o verão, minha mãe pedia para as minhas tias me levarem com elas para o litoral.⠀
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Não vou dizer que nunca questionei a situação, eu era uma criança como qualquer outra, sentia falta da presença. Mas estaria mentindo descaradamente se dissesse que foi o que mais me marcou da época.⠀
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Quando penso nos verões da minha infância, eu me lembro do sorveteiro, vindo lá de longe na areia, e dos segundos de tensão que era esperar a minha tia dizer se íamos ou não ganhar picolé.⠀
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Eu me lembro da minha prima que gritava “primeira no banho”, antes mesmo da gente tirar o pé da praia (pensa numa coisa irritante), do caladryl na porta da geladeira, do meu tio cozinhando marisco, da simpatia que fazíamos para Santa Clara trazer o sol.⠀
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Eu me lembro de tantas coisas. Dessas que são tidas como pequenas. Sabe, eu espero que a minha mãe não tenha se culpado, nem por um minuto.⠀
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Você se culparia?⠀
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Eu tenho pensado nisso, em como as memórias são formadas, principalmente agora, no momento que estamos vivendo.⠀
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É bem provável que seus filhos estejam assistindo mais TV do que você gostaria. Que a alimentação esteja diferente, a escola um caos, os horários bagunçados e a vida de pernas para o ar.⠀
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Mas como saber o que ficará guardado disso tudo?⠀
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Talvez seja realmente a imagem do seu dia ruim e de uma resposta que saiu atravessada. Talvez seja o cheiro da pipoca estourando na cozinha e o seu meio sorriso entregando o pote no sofá.⠀
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Talvez seja os muitos “nãos” que você disse hoje, talvez seja a piada que até era engraçada, mas que o irmão repete o dia inteiro. ⠀
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Muita calma nessa hora, muita gentileza nessa culpa. Talvez eles estejam construindo boas lembranças, não dor.⠀
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