08/08/2021
A PELE E A MENTE - UMA ESTREITA RELAÇÃO:
A ligação entre psiquismo e pele não é novidade. Esse “diálogo” foi comprovado por numerosos estudos realizados desde a segunda metade do século XX. Pesquisas recentes identif**aram o processo bioquímico que ocorre nessa comunicação. Com base nas descobertas, especialistas buscam compreender a “linguagem” estabelecida entre pele e mente, para poder intervir no movimento de somatização. O interesse nesses fenômenos se justif**a: há estimativas de que 30% dos distúrbios dermatológicos derivam de processos psicossomáticos. Nessa projeção estão incluídos alopecia local – perda de cabelos localizada –, psoríase, vitiligo e pruridos.
Até hoje o foco das pesquisas tem sido o psiquismo, com seus distúrbios em grande parte desconhecidos. Essa tendência é confirmada pela expressão “psicossomático” (do grego psico, relativo a mente, e soma, que signif**a corpo). O dermatologista Torello Lotti, professor da Universidade de Florença, na Itália, acredita, no entanto, em novos paradigmas: “Em vez de psicossomático, hoje se dá preferência ao termo somatopsíquico, exatamente para centralizar o soma”. Interpretações atualizadas desses fenômenos comparam o comportamento do corpo ao de um “cérebro difuso”.
Neurotransmissores envolvidos nos processos cerebrais estariam presentes em outras partes do organismo. Para Lotti, é assim que as mensagens do cérebro são percebidas fisicamente, sobretudo quando provocam algum distúrbio. A teoria do cérebro difuso pode ser demonstrada por uma pequena molécula protéica, chamada alfa-MSH (do inglês melanocyte stimulating hormone), hormônio que, além de importante neurotransmissor, está presente, como se descobriu, na pele e ao seu redor.
MECANISMO HORMONAL
Segundo Lotti, o alfa-MSH é um antiinflamatório mais potente que muitos medicamentos. Até poucos anos acreditava-se que fosse produzido somente na hipófise, mas estudos comprovaram que é sintetizado também pelas células da pele. Essa produção cutânea parece ser coordenada pelo sistema nervoso central, o que configura uma espécie de mecanismo de controle das inflamações. A cura de doenças relacionadas a essa manifestação, portanto, depende do cérebro, capaz de determinar a produção da substância diretamente na pele.
Mas por que exatamente na pele e não em outro órgão qualquer? A origem dessa interação é ancestral: o folheto embrionário do qual se origina a pele é o ectoderma, o mesmo que forma o tecido cerebral. O professor Torello Lotti observou que os melanócitos, células responsáveis pela coloração da pele, são muito similares aos neurônios, dotados de dendritos com receptores do sistema nervoso central.
São inúmeros os eventos, patológicos ou não, que têm origem na mente e se manifestam na superfície da pele. Pessoas acometidas, por exemplo, pela alexitimia (incapacidade de nomear as próprias emoções) sofrem das mais variadas patologias cutâneas. Aquilo que não se consegue elaborar no sistema nervoso central parece exprimir-se sobre a cútis. Para Lotti, a pele seria o palco preferido da mente – uma “escolha” feita, provavelmente, no período neonatal. Muitos psicólogos acreditam que a pele tem papel importante na primeira fase da vida, no desenvolvimento da identidade e na constituição do self. O contato físico do bebê com a mãe seria o principal estímulo à percepção de uma fronteira entre ele e os outros. Nessa fase a criança começa a estruturar a própria imagem. Pessoas que, desde o nascimento, apresentam deficiências táteis parecem estar mais sujeitas a distúrbios de personalidade.
A interação entre psiquismo e pele, portanto, é dupla: existem patologias psiquiátricas, como esquizofrenia ou depressão, que se manifestam na forma de manchas, irritações, erupções, pruridos e escamações. Na direção oposta, o aparecimento de doenças da pele costuma interferir nos estados de humor, provoca sintomas depressivos e compromete a auto-estima.
A classif**ação de doenças produzidas pela comunicação entre pele e mente prevê três grupos de patologias: o primeiro reúne distúrbios psicofisiológicos nos quais as manifestações cutâneas são preexistentes e se agravam em períodos de desequilíbrio emocional. O segundo grupo compreende doenças psiquiátricas com decorrências predominantes sobre a pele. É o caso da tricotilomania (hábito de arrancar cabelos) ou de dermatites provocadas por arranhões no próprio corpo. Com esses pacientes o primeiro passo é a terapia psiquiátrica, ao mesmo tempo que o dermatologista intervém para remediar os danos auto-infligidos e prevenir eventuais complicações.
O terceiro grupo é composto por distúrbios psiquiátricos secundários, nos quais o desconforto emocional é provocado pela presença de doenças da pele, especialmente as mais desfigurantes, como o vitiligo. Mesmo distúrbios considerados mais leves pela dermatologia, como acne ou alopecia local, podem ser prejudiciais à imagem e interferir no equilíbrio psíquico do paciente.
Em muitos casos o desenvolvimento de afecções cutâneas parece ser um recurso para alívio da ansiedade. Pessoas afetadas por acne crônica tendem à insegurança e são pouco tolerantes a frustrações. Quando as pústulas na face desaparecem com o uso de medicamentos, é comum encontrarem dificuldades para se adaptar à nova condição. Entre pacientes de alopecia, além da ansiedade, são freqüentes traços obsessivos e de dependência. Já a psoríase parece relacionada à predisposição genética e à dificuldade de expressão verbal das emoções. Pesquisas identif**aram comportamento defensivo, caracterizado por repressão dos próprios sentimentos, falta de atração sexual e raiva intensa em vítimas desse distúrbio. Como a doença implica espessamento da pele, é possível recorrer à psicanálise para traçar uma analogia: a pessoa afetada constrói uma espécie de couraça com a qual se protege do mundo.
Fonte: Mente e Cérebro
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