17/12/2025
Bom dia com poesia!
Eu tenho Parkinson.
Mas ele não me possui.
Aprendi a dizer isso devagar,
como quem aprende uma oração nova
e precisa repeti-la até que desça da boca para o peito.
Eu tenho Parkinson.
Mas ele não me tem.
Viver com uma doença que não promete cura
é acordar todos os dias diante de um espelho
que muda de humor.
Há manhãs em que o corpo responde com atraso,
como se o pensamento tivesse chegado antes dele.
Outras, a memória tropeça,
o equilíbrio vacila,
e caminhar exige fé.
Planejar já não é tão simples;
decidir, menos ainda.
As emoções transbordam sem pedir licença.
Às vezes, imagens surgem onde não deveriam estar.
Outras vezes, o silêncio pesa mais do que o barulho.
É também sentir, em algum lugar invisível,
as células se despedindo.
E junto com elas, certos sonhos,
projetos, versões de mim
que um dia pareceram permanentes.
O corpo vai ficando rígido,
a marcha mais curta,
a deglutição traiçoeira.
Engasgar-se vira possibilidade cotidiana.
A letargia se instala como hóspede insistente.
O esquecimento passa a morar aqui.
Porque o tempo...como disse o poeta, ah, o tempo, não para.
No meu caso, o corpo vai se curvando enquanto caminho,
e essa curvatura me lembra, sem delicadeza,
de onde vim e para onde vou. Pó da terra!
Ainda assim, se o Parkinson pensa
que isso é derrota,
respondo em silêncio:
os dados ainda estão rolando.
Há dor.
Há estresse que reverbera nos ossos.
Há noites em que o sono vem curto
e povoado de sombras.
Mas não há rendição total.
Porque, mesmo com as mãos trêmulas
e o passo contido,
continuo estendendo mãos.
Continuo ouvindo histórias partidas,
acolhendo quedas,
caminhando com homens e mulheres
que lutam contra outras prisões invisíveis.
O Parkinson não me afastou das pessoas,
aproximou-me ainda mais da dor delas.
Sigo atendendo dependentes químicos e alcoolistas,
e também suas famílias,
essas que adoecem em silêncio
enquanto tentam amar alguém ferido.
Sigo escutando, interpretando,
nomeando dores que não sabem se explicar.
Como psicanalista, conheço técnicas e teorias, mas na hora de tocar a alma humana, sou travessia, sou simplesmente outra alma humana.
Quando o minhas forças não bastam,
encaminho para tratamento,
porque cuidar também é reconhecer limites.
O Parkinson pode tocar meu corpo,
mas não alcança minha vocação.
Não interrompe o chamado.
Não me rouba o sentido.
Enquanto houver alguém precisando ser ouvido,
eu estarei,
talvez mais lento,
talvez mais cansado,
mas inteiro no que importa.
O homem exterior pode se dobrar,
mas o interior permanece em pé e ou de joelhos.
Sei em quem tenho crido.
O Cristo que vive em mim
conheceu o fundo do abismo
e foi exaltado acima de tudo.
Um dia, todos se curvarão diante d’Ele.
Penso que, o Parkinson esteja apenas me ensinando
o que muitos resistem a aprender:
abaixar o nariz,
reconhecer limites,
reaprender a ser humano.
Aquele homem de antes,
inteligente, ativo, um tanto vaidoso,
quase elegante (confesso com um sorriso)
e cheio de fome de vida,
vai se despedindo aos poucos.
Às vezes paralisado.
Às vezes sacudido por espasmos
que não pedem permissão.
É uma despedida lenta,
e por isso mesmo dolorosa.
Em certos momentos,
ecoam versos que falam de noites difíceis,
de escolhas extremas,
de sobrevivência.
E me pego perguntando:
onde estão os humanos de verdade?
Onde estão aqueles que confessam fraquezas,
covardias, quedas?
Como disse o poeta: "Arre! Estou farto de semideuses. Onde é que há gente no mundo?"
O Parkinson, curiosamente,
me devolve ao chão comum.
Revela minha humanidade.
Sou impotente.
Sou frágil.
E sempre que me esqueço disso,
visto a máscara mais perigosa:
a da falsa onipotência.
A doença não cria essa verdade,
apenas a expõe.
E se hoje continuo de pé,
é porque não caminho sozinho.
Minha família é chão firme
quando minhas pernas falham.
É abraço quando o corpo endurece.
É paciência quando o tempo se desorganiza.
São olhos que me lembram quem eu sou
quando a doença tenta me reduzir
ao que sinto.
O amor deles sustenta o que o corpo ameaça soltar.
Hoje, olho para frente
e vejo o futuro repetir o passado.
Meu corpo se parece com um museu
de grandes novidades.
O tempo... ah, esse tempo, não para, não, não para, segue correndo,
sem pedir licença.
E eu sigo também.
Vou sobrevivendo,
às vezes cansado,
às vezes assustado,
mas inteiro no essencial.
Porque, no fim das contas,
eu tenho Parkinson.
Mas ele não me tem.
Não me possui.
Não me define.
Não me cala.
Sou demasiadamente humano.
E, por isso mesmo,
eternamente amado.
Zique