03/03/2026
A medicina pesquisou homens.
A política regulou úteros.
A religião controlou desejos.
A cultura ensinou a suportar.
E o corpo feminino foi sendo interpretado como desvio.
Como excesso.
Como instabilidade.
Os ciclos foram chamados de descontrole.
As emoções, de exagero.
A intuição, de fantasia.
A dor, de fraqueza.
A estrutura política decidiu quais corpos importam.
Quais dores são urgentes.
Quais pesquisas recebem investimento.
Quais experiências viram estatística.
A cultura construiu piadas sobre TPM.
Naturalizou cólicas incapacitantes.
Romantizou o sacrifício materno.
Transformou cansaço em obrigação.
E, pouco a pouco, foram se formando pactos de silêncio.
Silêncio sobre violência.
Silêncio sobre abuso.
Silêncio sobre parto traumático.
Silêncio sobre menopausa.
Silêncio sobre prazer.
Pactos que atravessam gerações.
Pactos que vivem nas famílias.
Pactos que ensinam a suportar antes de questionar.
Mas o corpo nunca foi mudo.
Ele sempre falou em ciclos.
Sangrando.
Inflamando.
Cansando.
Desejando.
Adoecendo quando não é escutado.
Recuperar a pergunta é romper o pacto.
Quem ensinou as mulheres a se calarem sobre o próprio corpo?
E o que acontece quando começamos a falar —
não apesar dos ciclos, mas a partir deles?