11/12/2025
Entro na sala como quem chega sem chegar,
carrego nos bolsos uns restos de silêncio,
umas frases mal dormidas,
um tanto de medo de me ouvir.
Sento.
O mundo dá uma pequena trégua
e eu quase acredito que dá pra começar.
Falo torto, como sempre.
Às vezes invento caminhos demais,
às vezes não encontro nenhum.
A palavra vem manca,
mas vem.
E quando não vem,
também diz.
Tem dias em que parece que estou só repetindo
a mesma história
com nomes trocados,
como quem tenta enganar o espelho.
Mas o espelho sabe.
A análise também.
Às vezes eu me escuto pela primeira vez
dentro da minha própria frase,
como se a voz atravessasse uma fresta
e me puxasse de volta pra mim.
Tem dor, claro.
Tem aquele tipo de dor que não tem nome,
que só se reconhece pelo jeito que encosta no peito.
Mas tem também um alívio miúdo,
uma espécie de luz que não ilumina nada,
mas aquece.
Saio da sessão sempre meio diferente
do que entrei,
mesmo quando digo que foi inútil.
Porque a análise é esse lugar
onde nada acontece
e tudo mexe.
Onde eu falo de mim
e descubro que não sou só eu.
Que tem uma história antiga
me pegando pela borda,
me pedindo outra leitura.
E, no entanto,
é ali que eu renasço devagar,
como quem desmonta uma casa velha
pra descobrir a janela
que sempre esteve virada pro sol.
Talvez seja isso:
aprender a ouvir o que eu não sabia que dizia,
e seguir, sem pressa,
com o coração um pouco menos estrangeiro de mim.