31/03/2026
diante de tudo que a gente tem visto (violência, misoginia, discursos cada vez mais legitimados) eu me peguei voltando pra minha monografia.
não como quem revisita um trabalho antigo, mas como quem tenta entender de onde vem o próprio olhar.
na época, o tema já incomodava. não era confortável, não era simples, e talvez por isso mesmo tenha sido impossível ignorar. o que começou como escolha virou pergunta, e depois virou algo mais difícil de nomear: como sustentar, na clínica, encontros atravessados por violência, desigualdade e abandono sem reduzir isso a teoria ou técnica?
quando fui pra campo, qualquer ilusão de distância caiu. deixou de ser um tema. virou realidade viva, dessas que deslocam o corpo antes mesmo de qualquer elaboração. e, com isso, veio uma sensação que até hoje não se resolve fácil: a impotência.
acho que foi ali que algo começou a se reorganizar. não no sentido de “dar conta”, mas de suportar. suportar o que não fecha, o que não responde, o que insiste. sustentar o encontro sem sair correndo dele.
a Nise entrou nesse processo desse lugar. não como resposta pronta, mas como uma ética possível. a ideia de que o cuidado não se sustenta só na técnica, mas na presença, no afeto, na capacidade de estar diante do outro sem apagar o que é incômodo.
esse trabalho me esgotou, mas também me deslocou. me mostrou que permanecer também é uma forma de trabalho clínico.
e, olhando pro cenário de hoje, eu sei que aquele tema não ficou no passado. ele continua aqui, atravessando a clínica, a cultura, os discursos, os corpos.
talvez por isso algumas histórias não saem da gente. porque não são só histórias. são estruturas. e, quando você começa a ver, entende que não dá pra fingir que é distante.