22/11/2022
AMOR É QUEBRA DE PRÉ-REQUISITOS
Foto de Annick Melo
Fabrício Carpinejar
Eu parei para pensar e percebi que não sou o padrão masculino de Beatriz.
Ela jamais tinha se envolvido com um homem de altura mediana, romântico, pai de dois filhos e com uma barriguinha de leitor de clássicos.
Representei uma exceção em seus romances. Ao contrário de meus antecessores, eu não mantinha profissão estável, carreira segura com contracheque.
Ela se casou corajosamente com um poeta. Ou seja, com uma incógnita financeira todo mês.
Além de ser um intelectual, eu apresentava uma característica que ela refutava em qualquer homem: fanatismo pelo futebol.
Sempre dizia para as amigas que passaria longe de qualquer torcedor inveterado. Porque ele tem metade da sua atenção ocupada em torcer pelo seu time e a outra metade em secar seus rivais.
Não sei quem foram os seus ex-namorados, mas guardo a convicção, por aquilo que ouvi sobre o seu passado amoroso, de que não sou o tipo ideal da minha esposa.
Fui a sua bola fora da curva. Quem ela não imaginava. Quem ela não previra. Aquele com quem ela não sonhara.
Do mesmo modo, eu jamais havia namorado uma advogada, tampouco alguém de estado distinto do meu. Não cogitava em mudar de cidade para acompanhar a esposa. Nunca em meu passado sentimental existiu uma pessoa semelhante a ela, fisicamente e espiritualmente.
Por isso, funcionamos juntos. Pela primeira vez em nossa história, não repetimos experiências. Fomos novidades mútuas. Mergulhamos lado a lado no inesperado. Quebramos as nossas regras e pré-requisitos para podermos nos deslumbrar pelas diferenças e redigir uma legislação inédita de nossos sentimentos.
Não nos restringimos a encaixes fáceis ou ao retrato falado da idealização. Inventamo-nos na convivência.
Largamos os croquis e os rascunhos, as obsessões pela aparência e os sonhos de consumo.
Se ela acha lindo o George Clooney ou charmoso o Selton Mello, optou por viver com quem não tem nada a ver com os dois, começando pela falta total de cabelos.
Hoje ela é alucinada por dar beijos em minha careca, mas nem sempre foi assim. Provavelmente tenha estranhado não ter onde se segurar na nuca no começo da relação.
É evidente que enfrentamos resistências familiares, já que não estávamos trazendo clones aceitos anteriormente, perfis conhecidos e aprovados. Os parentes ao nosso redor saíram do comodismo do acolhimento, reagindo a novos assuntos e necessidades.
Assim não enfrentamos projeções ou atos falhos, ninguém trocou o nome de ninguém na intimidade, não amargamos discussões ou medos vividos nos antigos relacionamentos.
Somos tão diferentes que nos completamos. Não corremos o risco da simbiose e da anulação de uma das identidades. Ela adora viajar, eu amo estar em casa. Ela adora festas, eu amo pequenos grupos. Ela adora dançar, eu amo conversar. Às vezes, eu me vejo aprendendo com ela. Às vezes, ela se vê aprendendo comigo.
Para um casal ser feliz, ele não pode optar pela sua fantasia. É a coragem de assumir a escolha por amor. O amor é a única realidade que interessa.
Leia a minha crônica desse final de semana no jornal O Tempo (19 e 20/11/2022):
https://www.otempo.com.br/mobile/opiniao/fabricio-carpinejar/subscription-required-7.5927739?aId=1.2767440