16/02/2026
Aquilo que não encontra palavra não se cala, vira ruído.
Freud propõe que o sofrimento psíquico não deriva apenas do acontecimento traumático em si, mas da impossibilidade de reação afetiva adequada diante dele. Quando o afeto não encontra via de expressão, permanece ligado à representação recalcada como uma força atuante.
Na escuta clínica, é frequente que o sujeito
apresente sua experiência recente por meio de relatos aparentemente esvaziados de acontecimento, descrevendo a semana como “normal” ou “sem nada digno de nota”.
No entanto, tal economia narrativa não corresponde necessariamente a uma ausência de afetação psíquica. Ao contrário, muitas vezes revela uma dissociação entre a experiência vivida e sua possibilidade de simbolização.
O que não encontra inscrição na palavra tende a se manifestar sob a forma de excesso.
O que não se ab-reage não se extingue. Aquilo que não encontra palavra não se dissolve, retorna como ruído psíquico, sintoma ou tensão difusa.
O afeto não elaborado persiste como resto que insiste em se manifestar. Freud descreve esse processo como a permanência de um “afeto estrangulado”, que exige descarga ou elaboração simbólica. Nesse sentido, a ab-reação não é simples catarse emocional, mas a possibilidade de o afeto se ligar à palavra, integrando-se a uma nova cadeia associativa.
Afetos que não se ligam a representações simbólicas buscam outras vias de expressão, frequentemente corporais ou sintomáticas.
Nesse sentido, a diferença entre a fala socialmente organizada e a dinâmica psíquica é fundamental: enquanto a primeira opera por síntese e adaptação, a segunda insiste em se fazer presente mesmo quando não encontra linguagem disponível.
Pode-se compreender o sintoma como efeito dessa falha de tradução. Entre o que o sujeito relata e o que efetivamente experimenta existe um campo de afetos não simbolizados, cuja pressão exige algum tipo de inscrição.
Quando a experiência não encontra palavra, ela não desaparece, apenas se desloca. O sintoma emerge como tentativa de inscrição do que não pôde ser elaborado discursivamente.
Nesse contexto, a fala, no trabalho clínico, não se reduz a um ato de descarga emocional.
Falar não equivale a despejar conteúdos, mas a estabelecer ligações. Trata-se de um processo de articulação no qual o excesso afetivo é progressivamente integrado a uma narrativa possível.
A linguagem opera como dispositivo de ligação entre sensação e sentido, permitindo que o sujeito reconheça e reordene sua experiência.
O efeito transformador da fala não reside no apagamento do sofrimento, mas na produção de lugar para ele. Quando o afeto encontra inscrição simbólica, deixa de exigir expressão compulsiva.
O que antes se impunha como grito pode passar a circular como palavra. Assim, a clínica não visa eliminar o excesso, mas torná-lo habitável por meio da simbolização.
Referências
FREUD, S. Estudos sobre a histeria (1893–1895). In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. Recordar, repetir e elaborar (1914). ESB, v. XII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. Inibição, sintoma e angústia (1926). ESB, v. XX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
LACAN, J. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise (1953). In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
Psicóloga/Psicanalista Francinéia Fabrizzio