19/07/2020
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TRANSPLANTE DE ILHOTAS PANCREÁTICAS
Por Vanessa Araujo Montanari
Médica endocrinologista
HISTÓRICO
Vários estudos buscam a cura do diabetes, o transplante de ilhotas pancreáticas produtoras de insulina é um deles.
Em 1990, após diversas tentativas de transplante pancreático de pâncreas inteiro, Scharp e col. realizaram o transplante apenas de ilhotas pancreáticas com sucesso e conseguiram a independência de insulina de um paciente DM1 por 1 mês, porém a dificuldade de isolamento das ilhotas na época impediu que esse transplante fosse realizado em larga escala.
Na década seguinte Shapiro e cols. conseguiram que sete pacientes tivessem a independência de insulina por um ano, utilizando um novo protocolo de imunossupressão chamado Protocolo Edmonton (a imunossupressão é necessária para evitar a rejeição do transplante). Esse foi o marco inicial para que mais de 1000 transplantes de ilhotas fossem realizados a partir desta data, em vários locais do mundo. No entanto, esse não é procedimento fácil de ser realizado, pois depende de: tempo, custo, riscos, efeitos colaterais graves dos imunossupressores.
Quais são as indicações?
1) Indicação precisa: presença de hipoglicemias severas mesmo após terapia de bomba de insulina.
2) Indicação secundária: para pacientes que apresentam alta variabilidade glicêmica com pobre controle metabólico (Diabetes hiperlábil).
Onde são adquiridas as ilhotas para transplante?
✓ Através de doador falecido (banco de órgãos), doador vivo compatível (que tem aumento de risco em 40% de desenvolver o diabetes após doar parte do seu pâncreas) e doador de outra espécie (em geral porco, mas pela alta taxa de rejeição, estudos de engenharia genética estudam um modo de transforma-las em células de menor imunogenicidade e sem riscos de infecções).
✓ Células tronco mesenquimais do próprio paciente (autólogas) – em estudo
Como é o procedimento? Inicialmente o pâncreas de doador deverá ser preparado por técnica padronizada de isolamento: digestão enzimática e mecânica, seguida de purificação. Vale ressaltar que as ilhotas produtoras de insulina estão presentes em apenas 1 a 2% do pâncreas (pâncreas endócrino), o restante é o pâncreas exócrino produtor de enzimas digestivas. Por esta razão, para que o transplante seja bem sucedido são necessários a purificação de 200.000 ilhotas de boa qualidade (viabilidade, pureza, volume tecidual, e esterilidade). A infusão dessas ilhotas purificadas é realizada através da veia porta, para que estas células se instalem no fígado e, são utilizados vários tipos de protocolos de imunossupressão procurando evitar o uso de glicocorticóides.
✓ Encapsulamento para evitar a imunossupressão necessária para evitar o ataque do sistema imunológico – em estudo
Devido ao alto custo, poucos locais estão aptos a realizar esse isolamento de rotina (América do Norte, Europa e Austrália) além da necessidade de uma equipe de transplante com disponibilidade de 24 horas. Nos EUA, por exemplo, onde o transplante de ilhotas ainda não foi aprovado pelo FDA,(onde é considerado como cirurgia experimental mesmo após décadas de estudo) o seu é de 20.000 dólares e somado ao custo de internação hospitalar e de purificação das ilhotas, pode chegar a um total de 138.000 dólares.
Como sabemos se o transplante deu certo?
O sucesso do transplante é definido quando paciente tem uma hemoglobina glicada abaixo de 7%, livre de aplicação de insulina. Hoje discutimos sucesso também com a melhora de qualidade de vida e diminuição de risco de complicações.
Os estudos mostraram que:
1- 75% dos pacientes permanecem livres de insulina durante um ano de transplante;
2- 40% a 50% ficam livres de insulina durante 2 anos de transplante;
3- 10 a 30% ficam livres de insulina durante 3 anos de transplante, reduzindo a quase 13% durante 5 anos.
Geralmente há a necessidade de retransplante após 3 anos do primeiro transplante.
Considerações finais
Estudos de várias formas de fixação das células pancreáticas e de seu encapsulamento para evitar o ataque do sistema imunológico estão em andamento, sendo alguns de sucesso em modelos animais.
Vamos aguardar com muita esperança que novos estudos possam evitar os efeitos colaterais da imunossupressão.
A ciência tem buscado novas alternativas de tratamento para o diabetes que trazem cada vez mais opções para a melhoria da qualidade de vida das pessoas com diabetes. Vale porém ressaltar, que para o uso das mesmas, a educação em diabetes é de extrema importância para que estas sejam utilizadas de forma adequada e que a pessoa com diabetes esteja cada vez mais empoderada para a realização do seu autocuidado, sendo o centro do seu tratamento e tendo uma equipe interdisciplinar para auxiliá-la neste caminho.
Fontes:
1- Advances in β-cell replacement therapy for the treatment of type 1 diabetes. Marie-Christine Vantyghem, Eelco J P de Koning, François Pattou, Michael R Rickels www.thelancet.com Published online September 15, 2019 http://dx.doi.org/10.1016/S0140-6736(19)31334-0
2- IDF- Important Things to Know about Beta Cell Transplants for Diabetes. Angela M.Bell and Ginger Vieira on April 16, 2020