17/03/2020
Coronavírus: uma pandemia da angústia?
A disseminação do Covid-19 em escala global nos fez abrir aspas para pensar o modo como a sociedade responde às situações de alerta e crises. Desde a divulgação das notícias até a restrição do contato físico, o corona é uma carona de volta para nossas raízes mais primitivas e instintuais da espécie. Sem a barreira do social, o humano tende a regredir ao selvagem.
Pensar no coronavírus é relembrar outros fatos históricos ocorridos recentemente, como a greve dos caminhoneiros, o H1N1, o Ebola, por exemplo. Voltar os olhos para esse contexto de crise é deparar-nos com nossas limitações, responsabilidades e impotências, todas geradoras de angústia. Principalmente, quando a sociedade enraiza-se na ideia de que limitações e barreiras existem para os fracassados, como nos aponta Ehrenberg (2010). A limitação do ir e vir, a necessidade de cuidados higiênicos no cotidiano, como lavar as mãos, usar álcool em gel, evitar contatos físicos e espaços públicos, pode não ser algo tão simples para todos. A dificuldade de aceitarmos nossos limites está no cerne da civilização: a limitação do corpo perecível, a limitação imposta pela morte.
A morte que falamos aqui transcende a morbimortalidade trazida pelo coronavírus. Chamamos a atenção para a morte como o tabu ainda presente nos dias atuais. A morte enquanto aquilo que nos barra, que desconhecemos, que tememos. Paradoxalmente, é nossa única certeza e garantia. É o caminho final de todos, não importa os meios. Como dizia Freud (1920), o objetivo de vida toda é a morte. E é graças à ideia de morte que continuamos nos movimentando nesse intervalo chamado de "vida". Com as novas tecnologias médicas, a morte é tida como fracasso. Se antes, ela acontecia brevemente e em casa, na presença de familiares do moribundo, hoje ela ocorre postumamente, quase sempre nos hospitais, em unidades de terapia intensiva, nas quais se tenta à todo custo manter vidas.
No caso do coronavírus, a morte que antes nos parecia "distante" começou a bater em nossas portas. A contaminar nossos conhecidos, se disseminar em locais de trabalho e transportes públicos. A pandemia nos lembra do limite da morte e, consequentemente, a instala o caos. É esse caos que esgota as prateleiras dos supermercados e os estoques de álcool em gel. É esse caos que mobiliza instituições a fecharem suas portas, a fim de diminuir os riscos e prevenir novos casos. É esse caos que se utiliza do isolamento social e individualismo como aliados, quando estes últimos são, historicamente, sintomas sociais prevalentes baseados na exclusão.
O corona é nossa carona para o primitivo. Carona compartilhada por milhares de pessoas. Freud (1930) postula a necessidade de renúncia dos prazeres individuais para vivermos Na civilização. É essa renúncia que nos permite fazer laço com o outro. Mas esta tarefa não é fácil, visto que lutamos toda a vida para evitar o desprazer, evitar a dor, evitar o sentir. Afinal, nos dizem que precisamos estar bem e felizes o tempo todo. De acordo com Ehrenberg (2010), nossa cultura prima pelos prazeres comprados, prioriza os excessos e a performance individual, com o lema "você quer, você pode, você consegue". Segregando o sujeito de todo o cenário político, social, econômico e histórico que o ronda, o fracasso passa a ser visto como uma escolha. Logo, renunciar aos desejos pessoais em prol do coletivo parece ser impossível.
Uma cultura também se faz do regime político que a conduz, e neste caso, permeia-se uma conduta política egocêntrica que tende a ir na direção contrária da amenização do caos. Uma postura de negação, que repudia as diretrizes médicas preventivas, que diz que a mídia é sensacionalista, aumenta a resistência às limitações impostas pelo vírus.
De certo, é angustiante lidar com esses limites, com o “fim”, com a ameaça dos desejos não realizáveis. Nesse cenário de pandemia, qual é nossa responsabilidade para instalação e manutenção do caos? O que é possível fazer em meio a angústia de sermos afetados direta ou indiretamente pelo vírus? Que outras formas podemos deslizar e fazer laço social, sem necessariamente enlaçarmos nossas mãos? Em uma civilização que prima pelo individual ao invés do público, podemos enxergar um sintoma coletivo que não é nada novo: o narcisismo. Por que não considerá-lo uma pandemia social?
Autoria:
📝 Túlio Bueno R. Martins
Psicólogo Clínico (CRP 06/141430)
📝 Flávia Costa Haidar
Psicóloga Clínica (CRP 06/150064)
https://psicologotuliobueno.com/
REFERÊNCIAS:
Ehrenberg, A. (2010). O culto da performance: da aventura empreendedora à depressão nervosa. Aparecida: Ideias e Letras.
Freud, S. (1922). Além do princípio de prazer: psicologia de grupo e outros trabalhos. In Além do principio de prazer: psicologia de grupo e outros trabalhos.
Freud, S. (1996). O mal-estar na civilização (1930). ______. Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 21, 73-150.