27/03/2026
Já era fim de tarde. Tudo meio suspenso. O café já não tão quente, mas ainda na mão, como se o gesto pudesse segurar o tempo. Uma música, depois outra. Não exatamente escutando, mais deixando passar.
E, sem perceber quando, um pensamento desses simples demais para ser simples: a gente não sabe quase nada… e vive como se soubesse. Ou como se precisasse saber.
Fico ali, girando nisso.
Tem algo curioso nesse “se eu soubesse”. Ele sempre chega depois. Sempre tarde. Como se houvesse um pequeno atraso entre viver e entender o que foi vivido. Não é falta de informação. É outra coisa. Uma dificuldade de estar presente quando ainda não há garantia nenhuma.
Parece que no fundo, a gente até sabe algumas coisas. Mas sabe tarde.
Quando já não dá mais tempo de dizer.
Quando o gesto perdeu o momento.
Quando o outro já não está ali do mesmo jeito.
E, ainda assim, repetimos. Como se da próxima vez fosse diferente. Como se fosse possível antecipar aquilo que só aparece depois.
Mas existe um outro lugar também. Mais silencioso. Onde não se tenta saber. Onde tudo segue como sempre foi. Sem muita pergunta, sem muito movimento. Não por falta de inteligência, mas porque saber implicaria mexer em algo que talvez não se queira mexer.
E isso, de algum modo, desconcerta mais.
Talvez a gente oscile entre esses dois lugares. Às vezes correndo atrás de entender tudo. Às vezes se acomodando em pequenas zonas onde nada precisa ser revisto.
E talvez o ponto nem seja o não saber. Talvez seja o que a gente faz para não lidar com aquilo que o saber exige.
Porque saber, de verdade, desloca. Desorganiza. Tem um custo. E a gente sente isso. Então inventa atalhos. Explicações rápidas. Certezas frágeis. Não para entender melhor, mas para conseguir continuar.
No fim, a impressão que f**a é essa: a gente vive nesse intervalo. Entre o que ainda não conseguimos ver e o que, no fundo, evitamos olhar.
O café já esfriou.
E talvez entender demais nunca tenha sido exatamente o que a gente queria. Será?
https://rennenunes.com/2026/03/27/if-i-had-known-would-i-have-done-anything-differently/