Psicólogo Renne Nunes

Psicólogo Renne Nunes Psicólogo / Psicanalista
Mestre em Psicologia Clínica pela USP
Especialista em Psicoterapia Psican

Já era fim de tarde. Tudo meio suspenso. O café já não tão quente, mas ainda na mão, como se o gesto pudesse segurar o t...
27/03/2026

Já era fim de tarde. Tudo meio suspenso. O café já não tão quente, mas ainda na mão, como se o gesto pudesse segurar o tempo. Uma música, depois outra. Não exatamente escutando, mais deixando passar.

E, sem perceber quando, um pensamento desses simples demais para ser simples: a gente não sabe quase nada… e vive como se soubesse. Ou como se precisasse saber.

Fico ali, girando nisso.

Tem algo curioso nesse “se eu soubesse”. Ele sempre chega depois. Sempre tarde. Como se houvesse um pequeno atraso entre viver e entender o que foi vivido. Não é falta de informação. É outra coisa. Uma dificuldade de estar presente quando ainda não há garantia nenhuma.

Parece que no fundo, a gente até sabe algumas coisas. Mas sabe tarde.

Quando já não dá mais tempo de dizer.
Quando o gesto perdeu o momento.
Quando o outro já não está ali do mesmo jeito.

E, ainda assim, repetimos. Como se da próxima vez fosse diferente. Como se fosse possível antecipar aquilo que só aparece depois.

Mas existe um outro lugar também. Mais silencioso. Onde não se tenta saber. Onde tudo segue como sempre foi. Sem muita pergunta, sem muito movimento. Não por falta de inteligência, mas porque saber implicaria mexer em algo que talvez não se queira mexer.

E isso, de algum modo, desconcerta mais.

Talvez a gente oscile entre esses dois lugares. Às vezes correndo atrás de entender tudo. Às vezes se acomodando em pequenas zonas onde nada precisa ser revisto.

E talvez o ponto nem seja o não saber. Talvez seja o que a gente faz para não lidar com aquilo que o saber exige.

Porque saber, de verdade, desloca. Desorganiza. Tem um custo. E a gente sente isso. Então inventa atalhos. Explicações rápidas. Certezas frágeis. Não para entender melhor, mas para conseguir continuar.

No fim, a impressão que f**a é essa: a gente vive nesse intervalo. Entre o que ainda não conseguimos ver e o que, no fundo, evitamos olhar.

O café já esfriou.

E talvez entender demais nunca tenha sido exatamente o que a gente queria. Será?



https://rennenunes.com/2026/03/27/if-i-had-known-would-i-have-done-anything-differently/

A traição costuma ser pensada como um ato, um ponto de ruptura claro que separa antes e depois. Mas essa é uma leitura a...
25/03/2026

A traição costuma ser pensada como um ato, um ponto de ruptura claro que separa antes e depois. Mas essa é uma leitura apressada. Em muitos casos, ela começa muito antes de se tornar visível, nas pequenas erosões da confiança, nos deslocamentos quase imperceptíveis que, ao longo do tempo, vão alterando a consistência do vínculo.

Quando finalmente aparece, a traição não atinge apenas a relação. Ela desorganiza a própria experiência de realidade compartilhada. Aquilo que parecia sólido se torna incerto. O passado, antes estável, passa a ser revisitado sob o signo da dúvida. Não é apenas o outro que falha, é a confiança que deixa de ser um chão seguro.

Talvez por isso a pergunta mais comum diante da traição seja insuficiente. Perguntar por que alguém trai é tentar encontrar uma causa clara para algo que raramente é linear. Nem toda traição nasce da falta, assim como nem toda relação aparentemente satisfatória está protegida contra ela. Em alguns casos, o que está em jogo não é a busca por algo fora, mas a dificuldade de sustentar aquilo que já existe.

Isso nos leva a um ponto menos confortável. Nem toda fidelidade é sinônimo de lealdade. Há permanências que esvaziam, vínculos que se mantêm mais por inércia do que por implicação, continuidades que preservam apenas a aparência de estabilidade. Em certas circunstâncias, permanecer pode ser apenas uma forma silenciosa de trair.

A traição, então, não diz respeito apenas ao gesto do outro. Ela também revela algo sobre a fragilidade dos laços, a instabilidade da confiança e a dificuldade de sustentar relações vivas, que incluam conflito, diferença e verdade.

Talvez a pergunta mais incômoda não seja por que a traição faz mal, mas o que, afinal, estamos tentando preservar quando falamos em fidelidade.



Será que você quer mesmo entender isso ou prefere continuar acreditando que o problema é sempre do outro? Clique no link e veja até onde essa história vai:

https://rennenunes.com/2026/03/24/betrayal-what-comes-to-light-when-a-bond-breaks/

Cheguei antes da hora, como quem desconfia que o tempo começa antes do relógio.A cidade ainda respirava do lado de fora....
21/03/2026

Cheguei antes da hora, como quem desconfia que o tempo começa antes do relógio.

A cidade ainda respirava do lado de fora. Skates riscavam o chão, corpos à deriva ocupavam as bordas. E eu hesitei diante do estacionamento sem saber por quê, como se já estivesse sendo convocado a escolher alguma coisa antes mesmo de entrar.

Lá dentro, o teatro não esperava. Já acontecia.
Um som que não era música, mas prenúncio.
Movimentos mínimos, quase imperceptíveis.
Como se o palco respirasse sozinho, indiferente à nossa chegada.

Quando as luzes se apagaram, nada começou. Tudo seguiu.

Os corpos não dançavam, negociavam.
Avançavam, recuavam, se tocavam, se desviavam.
Sustentavam o que parecia impossível sustentar.
Havia violência e cuidado no mesmo gesto.
Ritmo e falha no mesmo fôlego.

Em poucos minutos, o auge já estava ali.
Isso desestabiliza.
Desmonta a expectativa confortável de que o clímax vem depois.
Aqui, ele insiste, retorna, se reconfigura.
Não existe depois. Só um agora que se intensif**a.

E então, quando tudo parecia exausto, quase colapsado, entra Xuxa.

O riso vem primeiro, automático.
Logo depois, algo muda de lugar.
Uma infância atravessa a cena sem pedir licença.
Uma memória que não consola, apenas desloca.

A canção colorida atravessando corpos exauridos.
Alegria como ruído.
Nostalgia como fissura.

O que parecia fim vira outra coisa.

Eles se juntam.
Um corpo só, informe, quase cósmico.
Uma massa pulsante que gira, insiste, resiste.
E aos poucos se desfaz, não em ruptura, mas em diferenciação.
Cada um retomando seu ritmo, sem perder o fio invisível que os mantém ligados.

Ali, a pergunta deixa de ser discurso e passa a ser problema real.
Como sustentar o espaço do outro sem desaparecer de si?

A resposta não aparece.
Mas o corpo tenta.
E isso, por um instante, parece suficiente.

Saí sem a sensação de fim.
Como quem não encerra. Continua...

Há livros que não se limitam a narrar um acontecimento. Eles alteram o lugar de onde lemos. 𝙀𝙪 𝙣𝙪𝙣𝙘𝙖 𝙢𝙖𝙞𝙨 𝙫𝙤𝙪 𝙩𝙚 𝙘𝙝𝙖𝙢𝙖𝙧 ...
20/03/2026

Há livros que não se limitam a narrar um acontecimento. Eles alteram o lugar de onde lemos. 𝙀𝙪 𝙣𝙪𝙣𝙘𝙖 𝙢𝙖𝙞𝙨 𝙫𝙤𝙪 𝙩𝙚 𝙘𝙝𝙖𝙢𝙖𝙧 𝙙𝙚 𝙥𝙖𝙞, de Caroline Darian, não se organiza como denúncia linear, nem como relato que conduz a uma conclusão estável. O que aparece ali é um pensamento em processo, atravessado por hesitação, por rupturas, por uma tentativa persistente de dar alguma forma ao que desfez as próprias bases de uma vida.

O que se expõe não é apenas a violência, mas o colapso de uma referência fundamental. Ser filha da vítima e do agressor não é uma posição que se resolve. É uma tensão que permanece. E talvez seja nesse ponto que o livro mais exige do leitor. Não há conforto possível em acompanhar alguém que tenta reconstruir sua história enquanto descobre que aquilo que sustentava sua origem já não pode ser reconhecido da mesma forma.

Mas há algo ainda mais incômodo que se insinua ao longo da leitura. Porque, em algum momento, a questão deixa de se restringir ao que aconteceu dentro de uma família. O que se impõe é a percepção de que certas formas de violência não surgem como exceção. Elas se apoiam em modos de relação que circulam de maneira mais ampla, muitas vezes sem serem interrogados.

Esse deslocamento altera a própria posição de quem lê. Já não se trata apenas de compreender o caso, nem de localizar responsabilidades à distância. Há um ponto em que a leitura devolve a pergunta. Não como acusação direta, mas como exigência de posicionamento diante do que se reconhece.

E é nesse ponto que a experiência deixa de ser apenas leitura.



O que, exatamente, você faz com aquilo que já não pode mais dizer que não viu? Clique no link a seguir para ler o texto completo:

https://rennenunes.com/2026/03/20/ill-never-call-him-dad-again/

Alguns livros não se leem.Eles nos leem de volta.Terminei nos últimos dias "Um hino à vida", de Gisèle Pelicot. E saí de...
17/03/2026

Alguns livros não se leem.
Eles nos leem de volta.

Terminei nos últimos dias "Um hino à vida", de Gisèle Pelicot. E saí dele com a sensação de que certas histórias não pedem apenas leitura. Pedem posição.

Durante uma década, Gisèle foi drogada pelo próprio marido e violentada por dezenas de homens sem sequer saber o que acontecia. Só descobriu anos depois, quando a polícia encontrou vídeos e fotografias dos abusos. O julgamento revelou algo que ultrapassa a brutalidade de um crime individual. Revelou uma paisagem mais desconfortável.

Porque quando um caso como esse emerge, a primeira pergunta que costuma aparecer é cruelmente previsível:
como ela não percebeu?

Mas talvez essa não seja a pergunta mais honesta.

A pergunta que realmente nos inquieta é outra.

Como tantos homens participaram?
Como tantos souberam e ninguém interrompeu?
Como a violência consegue se instalar dentro da intimidade sem que o mundo ao redor se mova?

Ler Gisèle Pelicot é entrar numa história onde a confiança foi transformada em armadilha, onde a vida comum serviu de disfarce para a barbárie e onde a vergonha, durante séculos, tentou se alojar no lugar errado.

O gesto mais radical dela não foi apenas sobreviver.
Foi tornar o julgamento público e dizer algo simples e devastador:

a vergonha precisa mudar de lado.

Esse tipo de história nos obriga a desacelerar o impulso mais fácil: o de julgar rápido, perguntar de fora e transformar a dor de alguém em curiosidade pública. Há leituras que exigem mais do que opinião. Exigem responsabilidade diante do que se vê.



Quando uma história como essa chega até nós, o que fazemos com ela: olhamos, julgamos… ou nos dispomos a pensar?

O texto completo está no link:

https://rennenunes.com/2026/03/17/gisele-pelicot-et-la-joie-de-vivre/

Existe um tipo particular de silêncio reservado ao último atleta que entra no gelo em uma final olímpica.Não é o silênci...
13/03/2026

Existe um tipo particular de silêncio reservado ao último atleta que entra no gelo em uma final olímpica.

Não é o silêncio do vazio.
É o silêncio da expectativa.

Quando Ilia Malinin entrou na pista, ele não carregava apenas seu programa técnico. Carregava também algo mais invisível: reputação, prestígio, a narrativa de um fenômeno que todos esperavam ver confirmado mais uma vez.

Expectativas são uma forma curiosa de luz.
Elas iluminam, mas também pesam.

Ser o último a patinar é ocupar um espaço delicado entre o que já foi conquistado e o que ainda precisa ser provado. O gelo, no entanto, é indiferente à reputação. Ele não se lembra das vitórias de ontem. Ele apenas pergunta o que pode acontecer agora.

E então veio a queda.
Uma vez. Depois outra.

Não porque o talento tivesse desaparecido, mas porque mesmo os mais preparados continuam sendo humanos. Treinamento, disciplina e excelência reduzem a incerteza, mas nunca a eliminam.

Enquanto isso, quase silenciosamente, outra história acontecia no gelo.
Mikhail Shaidorov patinava com algo raro: presença. Uma espécie de alinhamento entre corpo, música e momento.

Quando as notas apareceram, veio o inesperado: medalha de ouro.

Talvez seja essa uma das lições mais discretas dos Jogos Olímpicos. Para cada atleta que sobe ao pódio, muitos outros precisam aprender a engolir a amargura da decepção diante do mundo. Perder publicamente exige uma forma particular de coragem.

No fundo, o gelo apenas dramatiza algo que também acontece na vida.

Nós também entramos em arenas invisíveis carregando expectativas — nossas e dos outros. Preparamos nossos caminhos, treinamos nossas certezas, imaginamos o resultado final.

E ainda assim, às vezes caímos.

Uma vez.
Às vezes duas.

A vida, como o gelo, continua escorregadia.

Talvez por isso o esporte nos fascine tanto. Porque ali vemos condensada, em poucos minutos, uma verdade antiga: entre a glória e a queda existe apenas uma linha muito fina.

E todos nós, de alguma forma, caminhamos sobre ela.



https://rennenunes.com/2026/03/13/the-ice-the-fall-and-the-quiet-lesson-of-the-olympics/

...Antes da palavra, já havia história.Antes da memória, algo já nos atravessava.O mundo chegava primeiro,batendo à port...
10/03/2026

...
Antes da palavra, já havia história.
Antes da memória, algo já nos atravessava.
O mundo chegava primeiro,
batendo à porta do corpo
como um visitante sem nome.

Há coisas que não escolhemos viver.
A vida nos acontece
com a delicadeza de uma brisa
ou com a brutalidade de uma tempestade.
E mesmo assim seguimos,
carregando dentro de nós
uma multidão de acontecimentos sem voz.

Talvez seja por isso
que os humanos inventaram as histórias.

Contar é uma forma de respirar
quando a vida pesa no peito.
Há dores que só descansam
depois que encontram uma frase.
Há lembranças que continuam gritando
enquanto não encontram uma escuta.

O que não se diz não desaparece.
Apenas muda de lugar.
Vira silêncio espesso,
vira repetição,
vira gesto que retorna
sem pedir licença.

Por isso narramos.

[...]

Uma história não é um arquivo.
É um fio respirável
que atravessa passado, presente e futuro.
Sem esse fio, os dias se espalham
como páginas soltas ao vento.

Contar a própria história
é acender uma pequena lâmpada
no quarto escuro da experiência.

Não para iluminar tudo,
mas para que possamos permanecer ali
sem desaparecer de nós mesmos.

Porque o mais curioso
é que nunca nos conhecemos completamente.
Há sempre um estrangeiro vivendo dentro de nós,
um outro que age, esquece, tropeça, deseja
antes mesmo de pedir permissão.

Contar a própria história
é aprender a viver com esse desconhecido.

[...]

Para chegar ao que ainda não sabemos,
seguimos pelo caminho da ignorância.
Para compreender o que nos aconteceu,
aceitamos que muito permanecerá sem nome.

E ainda assim contamos.

Não para vencer o passado,
nem para dominá-lo.

Contamos para que ele encontre lugar dentro de nós.
Para que aquilo que nos atravessou
não precise mais nos empurrar por trás.

E talvez seja apenas isso
o que uma história faz.

Ela não resolve a vida.
Mas abre um pequeno espaço de respiração
onde finalmente podemos dizer, em silêncio:

isto também sou eu.



https://rennenunes.com/2026/03/10/vestigia/

O dia 8 de março costuma chegar vestido de flores, discursos e homenagens. Celebramos a mulher, sua força, sua delicadez...
06/03/2026

O dia 8 de março costuma chegar vestido de flores, discursos e homenagens. Celebramos a mulher, sua força, sua delicadeza, sua capacidade de sustentar o mundo enquanto o mundo, por tanto tempo, tentou colocá-la à margem.

Há justiça nessa celebração. Cada direito conquistado pelas mulheres nasceu de uma luta. O voto, a educação, o trabalho, a presença em espaços de decisão. Nada disso foi simplesmente concedido. Foi conquistado com insistência, coragem e uma persistência que atravessou gerações.

Mas talvez o 8 de março também nos convide a um gesto mais difícil: pensar.

Porque a violência contra as mulheres raramente começa no ato extremo que ocupa as manchetes. Ela nasce antes, nos pequenos aprendizados silenciosos da cultura. Quando meninos aprendem a desconfiar da ternura. Quando o feminino é tratado como menor. Quando o respeito se torna condicional e a admiração se torna rara.

Durante séculos, a sociedade ensinou homens e mulheres a ocupar lugares diferentes no mundo. Algumas dessas estruturas mudaram. Outras apenas trocaram de linguagem.

Celebrar o 8 de março, portanto, não é apenas olhar para trás. É também perguntar que futuro estamos dispostos a construir.

Talvez a verdadeira homenagem não esteja apenas nas flores, mas na coragem de examinar as estruturas que ainda organizam nossas relações. E, sobretudo, na disposição de reinventar aquilo que entendemos por igualdade.

No fundo, a pergunta permanece.

Que tipo de sociedade estamos realmente dispostos a construir quando falamos em igualdade entre homens e mulheres?



Se essa reflexão também faz sentido para você, convido a seguir adiante. O texto completo está no link abaixo. Às vezes, compreender o presente exige olhar com mais atenção para as estruturas que ainda organizam nossas relações.:

https://rennenunes.com/2026/03/06/march-8-a-history-of-struggle-presence-and-feminine-transformation/

Podemos prometer eternidade sem mentir para o tempo? Ou juramos fidelidade apenas para anestesiar o medo de f**armos sós...
03/03/2026

Podemos prometer eternidade sem mentir para o tempo? Ou juramos fidelidade apenas para anestesiar o medo de f**armos sós? Amamos livremente ou somos conduzidos por histórias que começaram antes de nós?

Se o amor nos fortalece, por que também nos desarma? Se ele nos salva do adoecimento, por que tantas vezes nos lança na vertigem? Chamamos de destino aquilo que talvez seja repetição. Chamamos de milagre aquilo que pode ser necessidade.

E ainda assim, insistimos.

Num mundo que banaliza a violência, amar é ingenuidade ou é resistência? Amar alguém é refúgio privado ou gesto ético? É possível declarar “eu te amo” e permanecer indiferente à desumanização ao redor?

Talvez o amor não seja puro, nem inocente, nem eterno. Talvez seja tensão. Risco. Fissura no concreto.

Mas e se ele for a última aposta que nos impede de endurecer por completo?



Leia o texto completo no link abaixo:

https://rennenunes.com/2026/03/03/is-there-love-in-the-world/

Você não precisa ser especialista para ser influente.Precisa ser reconhecível.Grande parte da influência contemporânea n...
27/02/2026

Você não precisa ser especialista para ser influente.
Precisa ser reconhecível.

Grande parte da influência contemporânea não nasce da autoridade técnica, mas da identif**ação. O influenciador não fala para todos. Fala para um grupo específico que se vê nele, que confia nele, que encontra ali uma sensação de proximidade. E é justamente essa proximidade que produz adesão.

Isso não é, em si, um problema. Toda comunicação relevante envolve conexão. O ponto sensível surge quando a conexão passa a substituir a competência, especialmente em áreas que exigem responsabilidade técnica, como saúde física e saúde mental.

Vivemos em um contexto de excesso de informação, decisões constantes e fadiga cognitiva. Nesse cenário, alguém que organiza o mundo em listas simples, oferece soluções claras e fala com convicção soa como alívio. A dúvida cansa. A certeza tranquiliza.

Mas há um risco silencioso nessa dinâmica.

Quando a influência se apoia apenas na identif**ação, o critério deixa de ser “isso é consistente?” e passa a ser “isso ressoa comigo?”. O vínculo emocional pode se tornar mais forte do que a formação, a experiência ou a responsabilidade ética.

No consumo, o dano costuma ser limitado. No campo do cuidado, não.

Não se trata de demonizar influenciadores nem de defender um corporativismo vazio. Trata-se de uma pergunta incômoda: estamos valorizando proximidade mais do que preparo? Estamos confundindo ressonância com qualif**ação? Estamos terceirizando decisões que exigiriam reflexão própria?

Influência é poder simbólico. E todo poder simbólico implica responsabilidade.

Talvez o verdadeiro exercício crítico hoje não seja deixar de ouvir influenciadores, mas aprender a perguntar: de que lugar essa fala emerge? Aproximação é suficiente? Ou estamos trocando complexidade por conforto?



Leia o texto completo no link a seguir:

https://rennenunes.com/2026/02/27/the-outsourcing-of-thought/

Quando uma autoridade sanitária afirma que determinada abordagem não é recomendada, o efeito ultrapassa o plano técnico....
24/02/2026

Quando uma autoridade sanitária afirma que determinada abordagem não é recomendada, o efeito ultrapassa o plano técnico. A formulação reorganiza legitimidades, orienta formações e influencia o modo como a sociedade compreende o que é cuidado adequado.

A recente classif**ação da psicanálise como não recomendada no campo do autismo convida a uma reflexão que não pode ser simplif**ada. Não se trata de opor ciência e clínica, nem de defender tradições por apego identitário. Trata-se de examinar os critérios que sustentam nossas decisões coletivas.

A medicina baseada em evidências cumpre função essencial na organização de políticas públicas responsáveis. A mensuração, a replicabilidade e a previsibilidade respondem a demandas legítimas de transparência. Contudo, quando apenas o que é quantificável passa a definir o que é válido, o campo do cuidado pode se estreitar.

No autismo, intervenções estruturadas podem ampliar competências funcionais. Isso é inegável. Ainda assim, a experiência humana não se reduz à adaptação. Sofrimento psíquico, construção de identidade e possibilidade de laço social também são dimensões centrais da existência.

A clínica psicanalítica não se orienta pela normalização, mas pela escuta da singularidade. Seu foco não é corrigir o sujeito, mas sustentar um espaço em que ele possa construir uma posição própria diante da linguagem e do desejo. Essa dimensão não se traduz facilmente em indicadores padronizados, mas tampouco pode ser considerada irrelevante.

A questão não é escolher vencedores. É ética. Que concepção de humano orienta nossas políticas de cuidado? Que dimensões estamos dispostos a reconhecer como legítimas?

No artigo que publiquei, desenvolvo essa reflexão a partir de uma perspectiva epistemológica e ética, examinando os limites e responsabilidades de cada paradigma.







O texto completo encontra-se no link abaixo.

https://rennenunes.com/2026/02/24/autism-paradigms-and-the-ethics-of-care/

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