04/02/2026
Tenho escutado muito no espaço terapêutico e nas orientações a famílias,o quanto muitos impasses com adolescentes não nascem “do filho”,mas do desencontro entre os adultos,no diálogo e na conversa não clara que, as vezes,não acontece
Quando pai e mãe falam a partir de lugares diferentes,quando a responsabilidade caminha para o lugar da culpa,do outro,de si ou,pior,da próprio adolescente,algo fundamental se quebra,o sentimento de amparo e acolhida.
O adolescente precisa de limites,sim,mas precisa,principalmente,de um campo estável onde esses limites façam sentido,onde a autoridade não pode se tornar autoritarismo.
Autoridade nasce quando o adulto sustenta seu lugar,quando há coerência no discurso, quando o “não” não vem carregado de ameaça,mas de cuidado,é importante se atentar a isso,pois é uma linha muito tênue e as vezes,imperceptível e não proposital.
Quando o diálogo entre os adultos se perde,o adolescente passa a ocupar um lugar que não é seu,o de mediador,de bode expiatório,de sintoma do conflito conjugal e aí os papéis se confundem,o adulto fragiliza seu lugar e o jovem passa a carregar pesos que não lhe pertencem,as dúvidas e angústias crescem e os problemas de relacionamento se instauram.
Na sociedade atual,marcada pela pressa,pela exaustão e pela dificuldade de sustentar diferenças,vemos famílias se perdendo justamente onde mais precisariam se encontrar,na conversa,na escuta,na construção conjunta de sentar,se olhar,colocar limites sim,mas com diálogo claro e transparente.
Cuidar de um filho não é concordar em tudo,há divergências e isso é saudável,mas precisamos sustentar um lugar adulto,falando a mesma língua,mesmo quando se pensa diferente,lembrando que responsabilidade é presença.
Talvez a pergunta não seja apenas “o que está acontecendo com esse adolescente?”, mas também “o que está acontecendo entre nós, adultos?",porque quando nós adultos nos alinhamos,o filho respira,entende,se sente acolhido,entende seu papel e compreende esse lugar de pai e mãe e de seu papel de filho,que terá que ouvir não e aceitar que há limites sim.
Onde há respiração,há possibilidade de cuidado.
Para reflexão.