04/12/2017
Como transmutar o sofrimento em energia vital
O sofrimento é uma condição que num primeiro momento parece ser inerente ao ser humano. A primeira manifestação de vida de quase toda pessoa é o choro logo após o nascimento, causado pela drástica e desagradável mudança de ambiente que um bebê sofre ao sair do útero materno.
Os primeiros anos na vida de uma criança são marcados principalmente pelo sofrimento fisiológico: incômodo e dor física; fome, sede, assaduras, dor de dente, sono.
Na medida em que a criança vivencia o mundo material, ela cria e lapida a sua própria persona, criando também um senso de identidade e de separação dentro da criança. O mundo passa a ser dividido em dois: o “MEU mundo”, regido pelos MEUS objetos, MINHAS necessidades e MEUS desejos; e o mundo “DOS OUTROS”, regido pelos objetos, necessidades e desejos DOS OUTROS, este último evidentemente tendo um valor muito menor do que o primeiro.
Quando aquilo que uma criança chama de “MEU Brinquedo” quebra ou é retirado dela, o sofrimento gerado pela perda é muito grande, não devido ao valor do brinquedo em si, mas devido à identif**ação do brinquedo como sendo “MEU”, o que, em última análise, gera um rompimento, ou uma subtração da idealização do “MEU mundo”, com o qual a criança se identif**a. Já na fase adulta, esse tipo de comportamento é mais comum do que nosso Ego gostaria de aceitar. MEU carro, MEU orgulho, MEU trabalho, MEU relacionamento, MEU sofrimento, MEUS direitos.
A coisa toda f**a ainda mais complexa e confusa, a pessoa continua atualizando o “MEU MUNDO”, criando uma série de papéis para se enquadrar na sociedade, máscaras, cada qual com suas próprias definições e modos de agir distintos.
São vários os exemplos de papéis que as pessoas desempenham à partir das características de cada um. Algumas características são herdadas à partir de seu nascimento, outras conquistadas durante a vida: Biológicas: Gênero, raça, aparência e idade; Sociais: Nome, nacionalidade, religião, situação financeira, profissão; Psicológicas: eventos passados, características familiares, vícios, expectativas, hábitos, fobias e traumas; A combinação de diferentes características gera uma variedade de diferentes personagens, que são acionados em determinadas situações/pessoas-gatilho, gerando um padrão comportamental relativamente previsível, porém, nem sempre com consequências emocionais agradáveis.
Como numa guerra (Ler Bhagavad Gita), os personagens mentais disputam o controle da cabeça do indivíduo, oscilando-se de tempos em tempos. Existem alguns tipos de personagens comuns à maioria das pessoas: O Coitado(Vítima), O Reclamão, O Desesperado, O Perfeccionista, O Sedento por Satisfação, O Impostor e O Preguiçoso são alguns dos personagens que eu pessoalmente tenho de lidar dia após dia.
Uma vez que cada um possui seus próprios preconceitos, desejos e aversões, é comum a ocorrência de conflitos de interesse entre dois ou mais personagens, gerando discussões mentais desagradáveis, que tem potencial para se transformarem em episódios piores ainda: Confusão, crises de ansiedade e pânico, necessidade de fuga, depressão, acessos de raiva, ciúme compulsivo; Essas emoções descontroladas criam ações igualmente descontroladas, que por sua vez acabam por gerar conflitos interpessoais, perpetuando e potencializando o ciclo do sofrimento individual e coletivo em diversos círculos sociais da vida de uma pessoa.
Então quer dizer que estamos fadados a uma viver uma vida sofrida e regida pelo piloto automático de nossas mentes? NÃO!
Através da observação e da não identif**ação com os fenômenos mentais temos a chance de vê-los como as miragens que realmente são. Podemos chamar a habilidade da consciência e da observação de Discernimento. Através da disciplina e do treino do Discernimento, passamos a distinguir os objetos percebidos do observador desses objetos, desbloqueando então uma nova dimensão para a vida, muito mais iluminada, colorida, pacíf**a e agradável.
Alimentamos a falsa crença de que os personagens, ou máscaras que cultivamos são necessários no nosso dia a dia. O mais impressionante de tudo é que, na medida em que desconstruímos e abandonamos esses personagens, nos tornamos pessoas mais leves, amáveis e capazes para desempenhar as funções do dia a dia.
Sem mais oscilações de humor, desconfortos diários, sofrimentos pelo passado, ansiedades pelo futuro; O discernimento te dá o superpoder de mudar conscientemente seu estado mental. Primeiramente ele te ajuda a perceber quando você está em um “local mental” ruim. Com o tempo, você conseguirá gentilmente “virar” uma chave dentro da mente, que te trará de volta para um local mais calmo e agradável, colorindo todo o ambiente ao seu redor.
A tendência das pessoas inconscientes é a de minimizar as próprias falhas e maximizar as falhas dos outros. Quando aceitamos verdadeiramente a nossa natureza mental como limitada e míope, percebemos também que as pessoas ao nosso redor também estão confusas, e que elas também estão sofrendo! Reconhecer o sofrimento próprio e dos outros diminui a força do Ego, permitindo o exercício da verdadeira compaixão: viver a vida sem violência consigo mesmo, e com os outros.
No mundo doente em que vivemos, eliminar o sofrimento signif**a a conquista da felicidade.
Pare de culpar a escuridão e acenda a luz.