25/12/2019
Há alguns dias, eu estava tentando descobrir como acessar essa parte secreta do meu coração que tem muito a dizer sobre você, pai. Sobre como foi transformador amar e perder você. Sei que fui a melhor filha que pude ser nas condições que eu tinha e, ao mesmo tempo, hoje sinto que teria bagagem para fazer diferente quando você foi hospitalizado. Acho que nenhum ser humano no mundo deveria assistir quem ama em uma UTI. Dói nos ossos. Confesso que eu não fazia ideia do que fazer, do que dizer. Eu nunca havia perdido um pai antes. Era um mar de desespero, no qual eu mergulhava sem saber nadar.
Não disse nada, nem em pensamento. Só te olhei e, em minha memória afetiva, acredito que esse encontro com o real era uma ameaça tão grande que não tive capacidade de tolerar estar emocionalmente presente naquele lugar. Minha negação começou a ser quebrada em um sonho. Dias antes da sua partida, você invadiu meu sono e eu sei que jamais vou esquecer a sensação daquele abraço e do meu choro no teu colo. Acordei sentindo meu peito quente, como no sonho, e lembro como me machucou sentir sua pele fria no velório, um abismo com o calor que eu senti poucos dias atrás. Foi naquele sonho que você deu um jeito de me ensinar a te deixar ir. Não a tua alma, não teu legado, não o teu significado, não o teu amor, não as memórias, não o orgulho, mas o corpo, a matéria, aquilo que é perecível.
Não nego que, às vezes, derramo lágrimas por não compartilhar fisicamente essa existência com você e devido à impossibilidade de dividir todas as alegrias que tenho vivido ou conhecer mais sobre a vida que você viveu, mas não é mais a dor dilacerante do luto que permeia esse choro. É o sabor agridoce de uma saudade que me nutre em cada batida, em cada respirar. E eu aceito, pai. Eu aceito a dor como parte da nossa história, mas semeio o amor que dela ficou. Pensei que ia morrer quando te perdi, mas, em vez disso, eu decidi viver. Não somente existir até que meu corpo padeça. Viver com a coragem e a ousadia de SER o que dá sentido ao meu espírito.
Onde quer que esteja, obrigada. Não pelo sofrimento, mas pela lição. É o que eu gostaria de ter dito. 🧡