27/05/2026
Na prática clínica, já acompanhei crianças hiperléxicas com perfis extremamente diferentes entre si.
Uma delas começou a ler aos 3 anos. Inclusive em diferentes idiomas. Mais tarde, recebeu diagnóstico de altas habilidades/superdotação.
Outra começou a falar e ler praticamente ao mesmo tempo, por volta dos 2 anos. Grande parte do seu interesse estava relacionada ao hiperfoco em futebol: sabia hinos, nomes de jogadores, resultados e informações sobre campeonatos do mundo inteiro.
Também acompanhei uma criança com atrasos mais signif**ativos no desenvolvimento, que passou a ler amplamente aos 4 anos e decorava páginas inteiras do guia de ruas de São Paulo. Nesse caso, a leitura precoce acabou mascarando por muito tempo dificuldades cognitivas importantes, posteriormente associadas à deficiência intelectual.
Havia, porém, um aspecto em comum entre elas: todas eram autistas.
Ainda assim, os perfis cognitivos, linguísticos, adaptativos e funcionais eram muito diferentes.
Por isso, hiperlexia não deveria ser reduzida a frases prontas como: “não entende o que lê” ou “isso é superdotação”.
Perfis de desenvolvimento podem ser muito desiguais.
Uma habilidade específ**a extremamente avançada não resume, sozinha, linguagem, cognição, funcionalidade, comunicação social ou compreensão global.
Talvez esse seja um dos pontos mais importantes da clínica do neurodesenvolvimento: olhar para além da habilidade que chama atenção.
Monique Mayumi Kamada
Psicomotricista e Psicopedagoga
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