08/12/2025
Eu era adolescente quando o assassinato de Ângela Diniz chocou o país. Lembro-me da repercussão e das informações contraditórias que eram veiculadas pela mídia.
Agora, conhecendo mais sobre o caso, através da série (protagonizada por Marjorie Estiano) que foi baseada no podcast Praia dos Ossos, da Rádio Novelo. Com extensa pesquisa, o podcast se aprofundou e esclareceu, não só o crime em si, mas o contexto histórico em que ocorreu. O julgamento, seus desdobramentos e reviravoltas foram um marco jurídico, com o protagonismo das feministas que se mobilizaram contra o veredicto.
A violência contra Ângela foi tamanha que, para justificar o agressor, o que se julgou foi a vítima, sua vida, seus afetos, seu comportamento. Era o retrato de uma sociedade disposta a proteger o homem a qualquer custo. Era? Acredito que essa lógica ecoa ainda hoje.
Como médica geriatra, ao longo de 40 anos, atendi mulheres adultas e idosas que trazem consigo cicatrizes silenciosas de violência, muitas vezes normalizadas durante décadas. E vejo que a idade não imuniza ninguém contra a desigualdade de gênero; ao contrário, pode torná-la ainda mais cruel.
O Brasil continua entre os países com maiores índices de feminicídio. E a história de Ângela é dolorosamente atual. Ela mostra que, apesar das conquistas legais e da mobilização social, ainda convivemos com a ideia de que a vida das mulheres pode ser relativizada, esvaziada, interrompida.
Conhecer essa história, toda ela, é um dever de todas as gerações. Ângela se tornou símbolo não apenas de uma tragédia, mas de uma luta que ainda não terminou. Sua história expõe o perigo de uma sociedade que, em vez de proteger mulheres, as julga; em vez de acolher, silencia.
Cada feminicídio não é apenas uma estatística, mas um fracasso coletivo. E enquanto vidas forem perdidas simplesmente por serem femininas, a memória de Ângela continuará exigindo de nós consciência, responsabilidade e mudança.