23/05/2023
Kynismós ou os cínicos são identificados pelo seu comportamento acido e mordaz. São vistos como quem não respeita as convenções sociais e desconsidera por completo o sentimento do outro.
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De fato faz parte desta escola filosófica este tipo de comportamento, e outros não tão nobres como a imprudência, indiferença e até a obscenidade. Porém, vendo pela atualidade, um cínico do tempo de Diógenes seria considerado um puritano em comparação ao comportamento atual da sociedade, onde tudo passou para o relativo/líquido, e o que antes eram práticas apenas da esfera privada está se tornando um teatro a céu virtualmente aberto, uma regra imposta que deve ser seguida por todos.
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Não são essas qualidades que definem por completo o cínico. Como parte da práxis o cínico não orienta sua vida pelos trilhos das convenções sociais e nem por influencia de outrem. Os cínicos são auto suficiente, buscam sua total independência das necessidades vitais e sociais, ou seja, não são afetados pelas desventuras da vida e pelas convenções sociais consolidadas pelo racionalismo. No fim, o cínico, busca ser indiferente as coisas ordinárias da existência humana.
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Oscar Wild diz que “O cinismo consiste em ver as coisas como realmente são, e não como deveriam ser.” Existe apenas um problema nesta afirmação, segundo a filosofia do Dr. House - everybody lies - ou seja, se todos mentem, a intenção do cínico de ver as coisas como realmente são, nunca poderá ser realizada, pois nenhum mortal tem a capacidade de ver a realidade exatamente como ela é.
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E afinal, o que a filosofia cínica tem a ensinar? Acredito que para sobreviver às variações climáticas da vida é necessária uma dose de cinismo. Aprender a se bastar em certa medida é positivo e necessário. Não se conformar com o padrão formatado e pasteurizado pela sociedade como o consumo, acúmulo de bens, o prazer sá**co (a custa do sofrimento do outro) etc... também é muito saudável. Principalmente uma visão mais sóbria da realidade, buscando cada vez mais uma observação imparcial, dentro dos limites do que é possível ver como realidade.
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Uma visão objetiva dos fatos, pode não conter tanta beleza e cores como a realidade pintada e virtual, mas, a satisfação e perenidade observada pela lente cínica é bem superior. É como uma imagem trabalhada por software de edição de imagens, ou pior, pela AI. Quando vemos a imagem tratada pelo aplicativo, ela está perfeita, bela! Quando conhecemos o que ou quem inspirou a imagem, no seu estado natural, a reação não costuma ser tão eufórica assim.
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Neste sentido, o cinismo necessário, seria uma lente capaz de desfazer o efeito editado das realidades que nos cercam, para podermos ter uma visão mais próxima ao natural. Capaz de desfazer o efeito fugaz da visão excessivamente ingênua, que constantemente conduz para o engano e perda de tempo, minimizando assim este efeito no cotidiano.
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Porém o cinismo em excesso é muito perigoso, pode produzir uma hipocrisia muito grande, colocar o seu usuário na posição de inquisidor do mundo. Afinal nenhuma filosofia pode aproximar o ser humano do modelo ideal e perfeito, simplesmente porque este não existe.
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