16/02/2026
Há forças antigas que nos atravessam como ventos que não escolhem direção.
São correntes que giram em torno de um centro esquecido,
onde repousam razões que ninguém lembra mais,
mas que ainda assim movem nossas mãos, nossas escolhas,
nossos temores mais íntimos.
Chamamos essas forças de complexos culturais,
mas eles são, antes de tudo,
cicatrizes que aprenderam a caminhar sozinhas
entre as gerações.
Por isso voltamos o rosto — quase com reverência —
para a história das mulheres que nos antecederam:
mães e avós que existiram em silêncio,
dobradas por um mundo que lhes pedia mais do que podiam dar
e menos do que mereciam.
Elas carregaram, como quem carrega um jarro de água na noite,
o peso de serem mulheres, esposas, mães,
em uma terra firmada pelo patriarcado.
E ainda hoje, sem sabermos como,
suas sombras e seus brilhos respiram dentro de nós.
Jung deu nome ao que nos assombra:
complexos — esses núcleos silenciosos
que desviam a liberdade da vontade
e fazem da vida presente um eco de dores longínquas.
Às vezes sofremos por algo pequeno, quase nada,
e não percebemos que é o passado quem move as cordas,
o passado que ainda arde,
o passado que não nos deixou partir.
Assim como um indivíduo busca proteger-se daquilo que teme,
também uma cultura inteira ergue muralhas invisíveis
em torno de antigas feridas.
São gestos coletivos, memórias soterradas,
respostas que não sabemos por que damos
— mas damos.
E seguimos assim, como quem caminha em uma noite vasta,
tocando com as mãos o que não se vê,
escutando dentro de nós uma história mais antiga que o nosso nome.
Talvez, no fundo, tudo o que buscamos
é compreender esse murmúrio,
abraçar o que nos habita,
e finalmente permitir que aquilo que veio antes
encoste o rosto no presente
e encontre repouso. (Carlos São Paulo — trecho do meu livro digital, cuja capa está apresentada aqui.)