Tempo do Ser Psicologia

Tempo do Ser Psicologia Atendimento Psicológico para Crianças, Adolescente e Adultos.
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Luto, depressão e suicídio.
04/10/2019

Luto, depressão e suicídio.

s psicotrópicos tiveram papel importante, e não inocente, na evolução dos conceitosdiagnósticos. Responsável por isso é ...
11/09/2018

s psicotrópicos tiveram papel importante, e não inocente, na evolução dos conceitos
diagnósticos. Responsável por isso é sobretudo o marketing farmacêutico. (...) Se bem que os
psicotrópicos não sejam senão tratamentos
sintomáticos e não específicos de uma afecção mental, o cenário está armado. As
classif**ações de psicotrópicos reforçam a situação. Há antipsicóticos, antidepressivos e
ansiolíticos: então há psicoses, depressões e ansiedade.

O AMOR E AS PULSÕESEis a estratégia do mito de amor: a conversão do impossível em interdição a fim de que seja mantida a...
22/02/2018

O AMOR E AS PULSÕES

Eis a estratégia do mito de amor: a conversão do impossível em interdição a fim de que seja mantida a promessa de felicidade.
Amar coloca em cena dois lugares: sujeito (amante) e objeto (amado). Aquele sobre o qual se abate a experiência de que alguma coisa falta, mesmo não sabendo o que é, ocupa o lugar de amante. Aquele que, mesmo não sabendo o que tem, sabe que tem alguma coisa que o torna especial, ocupa o lugar de amado.
Ao retirar de cena a falta como marca do desejo e colocar no seu lugar a falta como pecado original, o cristianismo identif**a o desejo com a perdição e o amor, com a salvação. O antídoto para esse mal incrustado na carne é o sentimento de culpa que clama pelo arrependimento e pelo sacrifício do desejo. Diz Fernando Pessoa, em Novas poesias
inéditas: “Não quero rosas, desde que haja rosas./ Quero-as só quando não as possa haver./ Que hei de fazer das coisas/ Que qualquer mão pode colher?”
A partir do início todo indivíduo tem dois objetos se***is que são: ele mesmo e os que o alimentam e o protegem, desta forma as escolhas narcísicas têm como um dos modelos a imagem de si mesmo, adoramos o que fomos, o que somos e o que gostaríamos de ser. Sendo uma segunda opção a escolha anaclítica na qual escolhemos como modelo as funções maternas e paternas: amamos a mulher que alimenta e o homem que protege. Adotar como modelo o seu próprio eu está para a escolha narcísica assim como adotar as imagens materna e paterna está para a escolha anaclítica. Aqueles que renunciaram a uma parte do seu narcisismo se lançam à procura do amor, transferindo o seu próprio narcisismo para o objeto amado. Em ambas as escolhas, o que está em jogo é o amor como sentimento da paixão, que tem como característica a supervalorização do objeto ou de si mesmo. Na escolha anaclítica, a intensidade com que a libido se desloca do eu para o objeto produz uma relação de submissão neurótica. A origem desta subserviência está na idealização, a ponto do objeto tornar-se a fonte de todos os bens. Restam ao amante ausência de auto-estima, humildade e reverência. A perda do objeto amado só pode ser vivida pelo sujeito como a subtração de um pedaço de si mesmo. Na escolha narcísica, o eu ideal é amado com a mesma intensidade com que o eu do prazer foi amado no autoerotismo. Tentaremos agora caracterizar o amor com as fases do deslocamento da pulsão segundo Freud: pulsão oral, pulsão a**l e pulsão ge***al ou fálica. A pulsão oral se constitui na segunda fase do autoerotismo, sendo seu alvo o prazer do órgão que se realiza pela incorporação dos objetos amados, e pela rejeição dos objetos odiados, porque são fontes de desprazer. Aqui, então, amar como sinônimo de devorar e odiar como sinônimo de rejeição o que marca esse amor com o traço da ambivalência.
A pulsão a**l se constitui na primeira fase objetal, também chamada por Freud de organização sádico-a**l. A relação da criança com a mãe se inscreve na função de oblatividade: na posição de oblata, ela se oferece ao outro para ser amada. E, como tal, precisa ser reconhecido pelo outro. O reconhecimento dessa dádiva não é outra coisa senão uma prova de amor. O que eu preciso ser para ser amado? O que o outro quer de mim? Aqui, amar é sinônimo de ser amado pelo outro.
A pulsão ge***al ou fálica se constitui na fase edipiana, em que a função do pai é fazer valer a lei, interditando o primeiro objeto de amor. Faremos uma referência ao ódio e sua articulação com o desejo inconsciente de eliminar o rival, dando origem à fonte mais importante do sentimento de culpa em relação ao rompimento de uma relação amorosa. Na maioria das vezes, essa ruptura desencadeia um ódio, que faz com que tenhamos a impressão de que o amor se transformou em ódio. Mas não é bem assim. Nesse caso, diz Freud, o que acontece é uma regressão do amor à fase em que ele não se distingue do ódio. Essa regressão não só faz com que o ódio seja erotizado, mas também atualiza sua relação de ambivalência com o amor.
Os critérios para amar, como vimos, são constituídos na segunda fase do autoerotismo e são comandados pelo regime do princípio de prazer. Então, amar se torna sinônimo de satisfação autoerótica, e odiar se liga a tudo que é associado ao desprazer.
As oposições amar-odiar e amar-ser amado remetem para o mecanismo de uma das vicissitudes das pulsões: a reversão ao seu oposto. Esse mecanismo apresenta dois processos distintos: a mudança da atividade para a passividade e uma reversão de conteúdo. Amar-odiar apresenta um procedimento análogo a um dos processos de reversão das pulsões, que é a mudança de conteúdo: a transformação do amor em ódio. A dicotomia amar-ser amada remete para outro procedimento do processo de reversão, que é a mudança de atividade para passividade.
Uma coisa é transitar nos lugares de amante e de amado, outra é f**ar aprisionado em um desses lugares. A idealização do outro ou de si mesmo exige provas que ratifiquem a imagem fixada pelo olhar. Ingressamos então no regime da tirania governado pelo recalque: reino da paixão, império da dor, inferno das frustrações. Assim o amor se declina em demandas que se multiplicam e que nunca se satisfazem, transformando-se em ódio num piscar de olhos. Querer o bem do outro ou de si mesmo exige não só uma grande quantidade de investimento libidinal, mas também a submissão a uma imagem feroz. Qualquer deslize desencadeia o sentimento de culpa e a necessidade de castigo.
Castigar o outro ou a si mesmo em nome do Ideal como Bem é o destino das paixões humanas?

Texto baseado no livro:
A teoria do amor na psicanálise / Nadiá P. Ferreira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004

A FUNÇÃO PATERNA.Continuação do texto Adolescência.Segundo Freud a sexualidade do ser humano é universal, sendo desta fo...
25/01/2018

A FUNÇÃO PATERNA.
Continuação do texto Adolescência.

Segundo Freud a sexualidade do ser humano é universal, sendo desta forma a criança um ser assexuado, e se a criança tem na mãe a sua maior e primeira referência, a mãe será também seu primeiro objeto de investimento sexual. A pergunta gira em torno do por que esta criança não permanece nessa ligação sexualizada com a mãe.
- Calma, não desista de ler agora, vamos avançar mais um pouco, vou chegar no interessante.
Vamos entrar agora em uma metáfora chamada o Nome-do-Pai. Segundo o Jurista Rodrigo da Cunha Pereira, "todo pai o é por adoção: todo pai verdadeiro é um pai que assume adotar seu filho, independente de ser ou não o pai biológico. Assim, não se pode nunca atribuir a função paterna à mera paternidade genética, nem mesmo quando esta é atestada pelos mais sofisticados exames de laboratório".
Desta forma, o Nome-do-Pai pode ser qualquer coisa que barre o desejo da mãe. Se na relação com a mãe a criança é também sempre objeto de seu zelo e de seus caprichos, de seus desejos e de sua satisfação, deverá ser neste "Nome-do-Pai" que será realizada uma abertura para que esta criança venha a se identif**ar como sujeito. Isso não quer dizer que a mãe não deseje que seu filho cresça, e que não procure causar o desejo dele, mas signif**a que, para que o desejo da mãe possa alcançar algo do que almeja é preciso que o sujeito tenha uma referência a um algo que pode relativizar, mediatizar e barrar o próprio desejo da mãe. É porque o Nome-do-Pai barra o desejo da mãe, relativizando-o, que o sujeito pode buscar investimentos alhures, fora do seio da família. Eis a elaboração do Édipo em Freud.
Trago agora um caso, onde uma adolescente identif**ada inconscientemente com o seu pai, sendo este incapaz de barrar as inúmeras tentativas de submissão e assujeitamento da vida, passa para a sua filha, uma condição de impotência.

O pai estava prestes a ser demitido de um emprego que tivera por mais de 30 anos e que, por isso, se sentia muito fragilizado. A jovem em pé de guerra com o pai em função do conflito de gerações em sua casa, estava, por outro lado, totalmente identif**ada ao pai sem ter consciência disso. Desesperou-se no lugar dele, já não acreditava que servia para coisa alguma, que não era amada e que não tinha possibilidade de construir um lugar no mundo, diante disso, fez uma tentativa de suicídio. Nas entrevistas que se seguiram foi possível que tomasse consciência da importância do seu pai para ela, e isso permitiu que voltasse a falar com ele. Finalmente o pai pode se abrir com ela e mostrar que a vida dela estava apenas começando, enquanto ele agora se dirigia para a aposentadoria. Assim, pode funcionar como pai para essa filha, sustentá-la enquanto desejante, o que permitiu à jovem fazer o vestibular naquele mesmo ano e entrar para a faculdade. (Sônia Alberti, O adolescente e o outro, 2010).

O adolescente é convidado tanto pelo meio que o cerca, como por suas determinações inconscientes, pulsionais e identif**atórias, a tomar uma posição na vida, posição esta que não existe como experiência já vivida.

24/01/2018

PSICÓLOGOS
George Otero e Inez Gramacho
Psicoterapia de crianças, adolescentes, adultos e idosos.
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Mas, afinal, o que é a adolescência?A adolescência é, antes de mais nada, uma grande elaboração da falta do outro e tamb...
22/01/2018

Mas, afinal, o que é a adolescência?

A adolescência é, antes de mais nada, uma grande elaboração da falta do outro e também um grande trabalho de elaboração de escolhas. Por incrível que possa parecer, os adolescentes precisam dos pais, nem que seja para poderem separar-se deles. Para o adolescente toda escolha é sempre uma escolha primeira, pois não há escolha que prescinda de indicativos, direções, determinantes que lhe são anteriores. Eles precisam de informações e de pessoas que possam transmiti-las. Muitas das vezes, os pais desistem deste papel diante de tanta adversidade por parte dos filhos, acreditando que não têm mais expressão nem respeito. Então, neste caso são eles, os pais que desistem, se separando do filho, antes que ele possa se separar dos pais, invertendo os papéis, sendo assim, o que resta para este adolescente que se vê abandonado é a tentativa desesperada de buscar a atenção daqueles que o abandonaram. Então começam os problemas da adolescência e serão maiores ainda se as referências iniciais forem mínimas.
Os pais vão precisar de uma boa dose de amor-próprio para suportar o seu próprio aniquilamento através de seus filhos, sem uma grande identif**ação com a consequente perda narcísica.

Boa noite, está semana estaremos falando sobre a adolescência, espero sua participação, duvidas, criticas e sugestões.
21/01/2018

Boa noite, está semana estaremos falando sobre a adolescência, espero sua participação, duvidas, criticas e sugestões.

Sub locação de salas para atendimento psicológico, valor R$200.00 turno, quatro vezes ao mês. Fone: 71992771010
21/01/2018

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19/01/2018

Fim do texto: Angústia.
O estudo da angústia acompanha a própria constituição da psicanálise, tendo como eixo central a clínica das neuroses. A angústia surge sempre como uma reação ao estado de perigo, e sempre se repetirá quando este estado se fizer presente.
Silêncio, solidão e escuridão são os três elementos que Freud, ao final do artigo “O estranho” (1919), articula à experiência da angústia infantil, considerando que a maioria dos seres humanos jamais se liberta totalmente dela. Freud em "Inibição, sintoma e angústia" (1926) considera que na infância a experiência de angústia se relaciona ao sentir falta de alguém que é amado, sendo a razão pela qual a criança deseja estar sempre próxima da mãe, a certeza que ela, a criança, não pode suprir todas as suas necessidades, estando dependente deste outro, esta criança diante de uma necessidade crescente, sente-se amedrontada, desta forma vivenciando a necessidade de ser protegida, para diminuir a sensação de desamparo na qual ela é impotente.
A experiência psica**lítica ao nos colocar diante do saber inconsciente, abre a possibilidade das escolhas singulares, sendo justamente neste ponto que o encontro com a angústia é evidenciado como crucial, pois só assim, só através da sua superação que o desejo aparece. A psicanálise não pode curar o sujeito de sua angústia, já que esta angústia é algo que marca a condição de sujeito, mas uma análise é bem-sucedida quando permite ao homem situar para si mesmo aquilo que é fundamental para a sua existência, ao reconhecer a dimensão trágica da vida, ou seja, aquilo que é da ordem do impossível, a fim de encontrar a partir daí a medida para a sua felicidade. A análise, em última instância, coloca o homem diante de um compromisso com a sua existência: assumir a angústia que o atravessa, considerando o determinismo e a responsabilidade pelo que o habita.

18/01/2018

Leia o conto Angústia, de Anton Tchekhov
A quem confiar minha tristeza?(1)

Crepúsculo vespertino. Uma neve úmida, em grandes flocos, remoinha preguiçosa junto aos lampiões recém-acesos, cobrindo com uma camada fina e macia os telhados das casas, os dorsos dos cavalos, os ombros das pessoas, os chapéus. O cocheiro Iona Potapov está completamente branco, como um fantasma. Encolhido o mais que pode se encolher um corpo vivo, está sentado na boléia, sem se mover.

Tem-se a impressão de que, mesmo que caísse sobre ele um montão de neve, não consideraria necessário sacudi-la... Seu rocim está igualmente branco e imóvel. Graças a sua imobilidade, à angulosidade das formas e à perpendicularidade de estaca de suas patas, parece mesmo, de perto, um cavalinho de pão-de-ló de um copeque. Seguramente, ele está imerso em meditação.

Não pode deixar de meditar quem foi arrancado do arado, da paisagem cinzenta e familiar, e atirado nessa voragem, repleta de luzes monstruosas, de um barulho incessante e de gente correndo...

Faz muito tempo que Iona e seu rocim não se mexem do lugar. Saíram de casa ainda antes do jantar, e, até agora, não apareceu trabalho. Mas, eis que a treva noturna desce sobre a cidade. A palidez das luzes dos lampiões cede lugar a cores vivas e a confusão das ruas torna-se mais barulhenta.

- Cocheiro, para a Víborgskaia! - ouve Iona. - Cocheiro!

Estremece e vê, através das pestanas cobertas de neve, um militar de capote com capuz.

- Para a Viborgskaia! - repete o militar. - Está dormindo? Para a Víborgskaia!

Em sinal de consentimento, Iona puxa as rédeas, e a neve cai em camadas de seus ombros e do dorso do cavalo...

O militar senta-se no trenó. O cocheiro faz ruído com os lábios, estende o pescoço à feição de cisne, ergue-se um pouco e agita o chicote, mais por hábito que por necessidade. O cavalinho estica também o pescoço, entorta as pernas, que parecem estacas, e desloca-se com indecisão...

- Onde vai, demônio?! - ouve, logo depois, Iona exclamações partidas da massa escura de gente, que se desloca em ambos os sentidos. - Para onde te empurram os diabos? Mantenha-se à direita!

- Não sabe dirigir! Olha a direita - zanga-se o militar.

O cocheiro de uma carruagem solta impropérios; um transeunte, que atravessou a rua correndo e chocou-se com o ombro contra a cara do rocim, lança um olhar rancoroso e sacode a neve da manga. Na boléia, Iona parece sentado sobre alfinetes e aponta com os cotovelos para os lados; seus olhos tontos perpassam pelas coisas, como se não compreendesse onde se encontra e o que está fazendo ali.

- Que gente ca**lha! - graceja o militar. - Eles se esforçam em chocar-se contra você ou cair embaixo do cavalo.

Combinaram isso.

Iona volta-se para o passageiro e move os lábios...

Sem dúvida, quer dizer algo, mas apenas uns sons vagos lhe saem da garganta.

- O quê? - pergunta o militar.

Iona torce a boca num sorriso, faz um esforço com a garganta e cicia:

- Pois é, meu senhor, assim é... perdi um filho esta semana.

- Hum!... De que foi que morreu?

Iona volta todo o corpo na direção do passageiro e diz:

- Quem é que pode saber! Acho que foi de febre... Passou três dias no hospital e morreu... Deus quis.

- Dá a volta, diabo! - ressoa nas trevas uma voz. - Não está mais enxergando, cachorro velho? É com os olhos que tem que olhar!

- Anda, anda... - diz o passageiro. - Assim, não chegamos nem amanhã. Mais depressa!

O cocheiro estica novamente o pescoço, ergue-se um pouco e agita o chicote, com uma graciosidade pesada. Depois, torna a olhar algumas vezes para o passageiro, mas este fechou os olhos e parece pouco disposto a ouvir. Depois de deixá-lo na Víborgskaia, pára diante de uma taverna, encurva-se sobre a boléia e f**a novamente imóvel... A neve molhada torna a pintá-lo de branco, juntamente com o rocim. Decorre uma hora... outra...

Três jovens passam pela calçada, fazendo muito barulho com as galochas e trocando impropérios: dois deles são altos e magros, o terceiro é pequeno e corcunda.

- Cocheiro, para a Ponte Politzéiski! - grita o corcunda, com voz surda. - Damos vinte copeques... os três!

Iona sacode as rédeas e faz ruído com os lábios. Vinte copeques são um preço inadequado, mas, agora, pouco lhe importa o preço... Tanto faz seja um rublo ou cinco copeques, contanto que haja passageiros... Empurrando-se e soltando palavrões, os jovens acercam-se do trenó e sobem para os assentos, os três ao mesmo tempo. Começam a discutir a questão: dois deles irão sentados, e quem vai f**ar de pé?

Depois de uma longa troca de insultos, manhas e recriminações, chegam à conclusão de que o corcunda é quem deve f**ar de pé, por ser o menor.

- Bem, faz o cavalo andar! - grita com voz trêmula o corcunda, ajeitando-se de pé e soprando no pescoço de Iona. - Dá nele! Que chapéu você tem, irmão! Não se encontra um pior em toda Petersburgo...

- Hi-i... hi-i... - ri Iona. - Assim é...

- Ora, você assim é, bate no cavalo! Vai andar desse jeito o tempo todo? Sim? E se eu te torcer o pescoço?

- Estou com a cabeça estalando... - diz um dos moços compridos. - Ontem, em casa dos Dukmassov, eu e Vaska(2) tornamos quatro garrafas de conhaque.

Não compreendo para que mentir! - irrita-se o outro moço comprido. - Mente como um animal.

- Que Deus me castigue, é verdade...

- Tão verdade como um piolho tossindo.

- Hi-i! - ri Iona entre dentes. - Que senhores alegres!

- Irra, com todos os diabos!... - indigna-se o corcunda. - Você vai andar ou não, velha peste? É assim que se anda? Estala o chicote no cavalo! Eh, diabo! Eh! Dá nele!

Iona sente, atrás de si, o corpo agitado e a voz trêmula do corcunda. Ouve os insultos que lhe são dirigidos, vê gente, e o sentimento de solidão começa, pouco a pouco, a deixar-lhe o peito. O corcunda continua os impropérios e, por fim, engasga com um insulto rebuscado, descomunal, e desanda a tossir. Os moços compridos começam a falar de uma certa Nadiejda Pietrovna. Iona volta a cabeça para olhá-los. Aproveitando uma pausa curta, olha mais uma vez e balbucia:

- Esta semana... assim, perdi meu filho!

- Todos vamos morrer. - suspira o corcunda, enxugando os lábios, após o acesso de tosse. - Bem, bate nele, bate nele! Minha gente, decididamente, não posso continuar andando assim! Esta corrida não acaba mais?

- Você deve animá-lo um pouco... umas pancadas no pescoço!

- Está ouvindo, velha peste? Vou te moer o pescoço de pancada! Não se pode fazer cerimônia com gente como você, senão é melhor andar a pé! Está ouvindo, Zmiéi Gorínitch(3)? Ou você não se importa com o que a gente diz?

E Iona ouve, mais que sente, os sons de uma pancada no pescoço.

- Hi-i... - ri ele. - Senhores alegres... que Deus lhes dê saúde!

- Cocheiro, você é casado? - pergunta um dos compridos.

Eu? Hi-i... que senhores alegres! Agora, só tenho uma mulher, a terra fria... Hi-ho-ho... O túmulo, quer dizer!... Meu filho morreu, e eu continuo vivo... Coisa esquisita, a morte errou de porta... Em vez de vir me buscar, foi procurar o filho...

E Iona volta-se, para contar como lhe morreu o filho, mas, nesse momento, o corcunda solta um suspiro de alívio e declara que, graças a Deus, chegaram ao destino. Tendo recebido vinte copeques, Iona f**a por muito tempo olhando os pândegos, que vão desaparecendo no escuro saguão. Está novamente só e, de novo, o silêncio desce sobre ele... A angústia que amainara por algum tempo torna a aparecer, inflando-lhe o peito com redobrada força. Os olhos de Iona correm, inquietos e sofredores, pela multidão que se agita de ambos os lados da rua: não haverá, entre esses milhares de pessoas, uma ao menos que possa ouvi-lo? Mas a multidão corre, sem reparar nele, nem na sua angústia... Uma angústia imensa, que não conhece fronteiras. Dá a impressão de que, se o peito de Iona estourasse e dele fluísse para fora aquela angústia, daria para inundar o mundo e, no entanto, não se pode vê-la. Conseguiu caber numa casca tão insignif**ante, que não se pode percebê-la mesmo de dia, com muita luz...

Iona vê o zelador de uma casa, carregando um embrulho, e resolve travar conversa.

- Que horas são, meu caro? - pergunta.

- Mais de nove... Por que você parou aqui? Passa!

Iona afasta-se alguns passos, torce o corpo e entrega-se à angústia... Considera já inútìl dirigir-se às pessoas. Mas, decorridos menos de cinco minutos, endireita-se, sacode a cabeça, como se houvesse sentido uma dor aguda e puxa as rédeas... Não pode mais.

"Para casa", pensa, "para casa".

E o cavalinho, como se tivesse compreendido seu pensamento, começa a trotar ligeiramente. Uma hora e meia depois, Iona está sentado junto ao fogão grande e sujo. Há gente roncando em cima do fogão, no chão e sobre os bancos. O ar é abafado, sufocante... Iona olha para os que dormem, coça a cabeça e lamenta haver voltado tão cedo para casa...

"Não ganhei nem para a aveia", pensa. "Daí essa angústia. Uma pessoa que conhece o ofício... que está bem alimentada e tem o cavalo bem nutrido também, está sempre calma..."

Num dos cantos, levanta-se um jovem cocheiro, funga, sonolento, e arrasta-se para o balde d'água.

- Ficou com sede? - pergunta Iona.

- Com sede, sim!

- Bem... Que lhe faça proveito... Pois é, irmão, e eu perdi um filho... Está ouvindo? Foi esta semana, no hospital... Que coisa!

Iona procura ver o efeito que causaram suas palavras, mas não vê nada. O jovem se cobriu até a cabeça e já está dormindo. O velho suspira e se coça... Assim como o jovem quis beber, assim ele quer falar. Vai fazer uma semana que lhe morreu o filho e ele ainda não conversou direito com alguém sobre aquilo... É preciso falar com método, lentamente...

É preciso contar como o filho adoeceu, como padeceu, o que disse antes de morrer e como morreu... É preciso descrever o enterro e a ida ao hospital, para buscar a roupa do defunto. Na aldeia, ficou a filha Aníssia... É preciso falar sobre ela também... De quantas coisas mais poderia falar agora? O ouvinte deve soltar exclamações, suspirar, lamentar... E é ainda melhor falar com mulheres. São umas bobas, mas desandam a chorar depois de duas palavras.

"É bom ir ver o cavalo", pensa Iona. "Sempre há tempo para dormir..."

Veste-se e vai para a cocheira, onde está seu cavalo. Iona pensa sobre a aveia, o feno, o tempo... Estando sozinho, não pode pensar no filho... Pode-se falar sobre ele com alguém, mas pensar nele sozinho, desenhar mentalmente sua imagem, dá um medo insuportável...

Está mastigando? - pergunta Iona ao cavalo, vendo seus olhos brilhantes. - Ora, mastiga, mastiga... Se não ganhamos para a aveia, vamos comer feno... Sim... Já estou velho para trabalhar de cocheiro... O filho é que devia trabalhar, não eu... Era um cocheiro de verdade... Só faltou viver mais...

Iona permanece algum tempo em silêncio e prossegue:

- Assim é, irmão, minha egüinha... Não existe mais Kuzmá Iônitch... Foi-se para o outro mundo... Morreu assim, por nada... Agora, vamos dizer, você tem um potrinho, que é teu filho... E, de repente, vamos dizer, esse mesmo potrinho vai para o outro mundo... Dá pena, não é verdade?

O cavalinho vai mastigando, escuta e sopra na mão de seu amo... Iona anima-se e conta-lhe tudo...

_____________________________________________________________________________

(1). Versículo de um canto da Igreja Russa.

(2). Diminutivo de Vassíli.

(3). Nas lendas russas, um dragão que repreeenta o mal. No entanto, o nome Gorínitch dá também idéia de tristeza, aflição.

(1886).

Tradução: Boris Schnaidermann

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PROSA, POESIA E ARTE

17/01/2018

A primeira sessão em psicanálise.

17/01/2018

A primeira escuta.

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