23/12/2025
Na incubadora do descanso que criei nesse ano, através das revisitas ao modo offline semanalmente, descasquei novos sentidos do tempo e ofereci corpo para uma espontaneidade achatada nessa sociedade de tantas imagens e cronômetros.
Que raro que é encontrar com o corpo que só acontece. Quando estamos sob a guiança de um sistema com numerosos tentáculos e sem pegar distâncias, que raro que é.
Se não colocarmos criticidade nessa maquinaria de alienações, a gente perde movimento orgânico, perde contato com a gestão do próprio tempo, perde autoescuta, perde sensibilidades.
O nosso tempo e a nossa atenção se tornaram mercadorias, nosso corpo: uma via promissora de lucro, nossa vida vai seguindo um script com sonhos que nem são os nossos sonhos, com necessidades que nem são as nossas, com a falta de uma verdade sentida e parida em nome de si.
As redes sociais foram centralizadas de um modo que a vida tem girado em torno delas. Elas não são ‘um dentre os muitos aspectos e prazeres de uma vida’, mas a vida propriamente dita, que vira simulacro. Eu repito: a vida tem girado em torno de plataformas digitais.
Viver espaços e relações com presença, introverter a atenção, se demorar no silêncio são experiências cada vez mais precarizadas. E, antes que entenda que isso aqui é um texto de demonização, quero dizer que gosto de estar aqui e que podemos, sim, encontrar ninhos, inspirações e crescimentos nas mídias sociais.
O que quero é lembrar que existe uma vida e existe um corpo debaixo de todas essas camadas de distrações que nos retiram de nós. Mas a boa notícia é que, sim, podemos estar aqui garantindo a intimidade com o suficiente e com a soberania desse corpo vivo.
Numa investigação por outros usos do tempo, arranhamos as estruturas que adoecem, a vida se amplifica e o corpo se despe, enfim, de tanta demanda por performance.
[esse é um texto-convite, mas também um aviso: estarei off do dia 27 de dezembro ao dia 10 de janeiro] 🪽