21/02/2022
Resolvi dividir uma história que tem a força de acrescentar algo ao leitor.
Ela começa com um médico que estava viajando pelas feiras populares do norte do Brasil. Em uma cidade do interior ele parou diante de uma “tenda indígena” onde se vendiam chás e poções e começou a estudar o que poderia levar casa. Não é que ele usaria aquelas poções, mas pretendia dar risada junto com seus amigos ao mostrar as “ignorâncias” que encontrou em sua viagem através de partes pouco “cultas” de nosso país.
Depois de ter visto toda a loja, seus olhos fixaram um pote azul brilhante, um brilho quase sobrenatural. Ao fazer um gesto para tocar no pote uma rápida mão como que surgida do nada segurou forte seu braço e falou: -Esse aí não está a venda! Nem pode ser tocado.
O médico viu que a mão pertencia a uma velha índia com cara de barro rachado pelo sol, pelos finos no queixo e boca com apenas um dente sobrando. Sua visão lembrou as bruxas das histórias de infância e fez ele pegar nojo rapidamente. A vendedora foi classificada por ele no grupo das pessoas asquerosas.
-Porque não está à venda? Perguntou pronto pra brigar.
-Esta é a poção mais difícil de fazer de todas, valor nenhum pode pagar o seu uso! Eu dou de graça para quem eu vejo que precisa. Você hoje não precisa!
Irritado com a resposta o médico resolveu utilizar suas facilidades econômicas para testar a velha. -Dou mil reais pelo vidro. Não é que ele pagaria essa exorbitância, só queira ver a velha voltar atrás nos seus mandos.
Sem nem alterar a voz pelo valor oferecido a velha respondeu:
-Não vendo por nada, essa é a poção da esperança. Tem o poder de trazer de volta a esperança que as pessoas perderam, não pode ser vendida tem que ser oferecida.
Vendo o rosto de decepção do médico, a velha acrescentou:
- Não se preocupa mais com isso se um dia você precisar eu vou te dar ela.
Depois de dizer isso ela sorriu para o médico, a partir desse momento ele se sentiu tão bem e seguro com a espontaneidade daquela promessa. Aquele sorriso embelezou de tal forma a face de bruxa que virou fada. Era daqueles sorrisos protetores que só aqueles amam o próximo sabem dar. O medico ficou impressionado quão rápido passou a gostar da velha
Ele se despediu e não pensou mais sobre isso até o ano em que teve um câncer diagnosticado.
O médico da história hoje está morrendo, mas ele conserva uma esperança de que se antes de tudo acabar se faltar esperança ele volta lá na tenda da velhinha e bebe um pouquinho do líquido azul.
Sem esperar ou saber ele levou a poção junto com ele naquele dia, não nos bolsos ou na mala, mas no coração.