22/05/2025
“O Instinto Que Eu Não Quero Perder”
por Carlos Baldan
Certa vez, um homem dirigia tranquilamente quando viu, na calçada, um cachorro grande, ferido, encolhido, com olhar de quem já havia sofrido muito. O animal estava machucado, com fome — e com medo.
Movido pela compaixão, o homem parou o carro e se aproximou. Mas o cachorro reagiu com agressividade. Rosnou. Tentou morder. Estava assustado demais para confiar.
Uma mulher que passava observou a cena e gritou:
— Você é doido? Esse cachorro vai te atacar! Ele tá machucado, tá arisco! Protege sua vida, deixa ele pra lá!
Mas o homem, firme, respondeu com calma:
— O instinto dele é se proteger. O meu é ajudar. Eu não posso deixar que o instinto dele mude o meu.
E ali ficou.
Com paciência.
Com bondade.
Com respeito pela dor alheia.
Até que, aos poucos, ganhou a confiança do cachorro.
Conseguiu resgatá-lo, levou pra casa, cuidou.
Transformou um momento de agressão em uma história de cuidado.
Eu carrego essa cena comigo — como um princípio de vida.
Muita gente, quando sente que o outro é rude, grosso, agressivo, devolve com a mesma moeda.
Eu não quero isso pra mim.
Não quero que a dor dos outros me transforme em alguém amargo.
Não quero que a frieza dos outros me congele por dentro.
Pode ser que, por isso, alguns me vejam como “bonzinho demais”.
Pode ser que eu já tenha me machucado tentando ajudar.
Mas nunca me arrependi de ter sido gentil.
Talvez eu precise aprender a dosar, sim. A reconhecer quem quer ajuda e quem só está acostumado a morder.
Mas eu não quero perder esse instinto.
O instinto de continuar sendo quem eu sou — mesmo quando o mundo me oferece o contrário.
Porque, no final, o que cura…
não é o instinto do outro,
É o nosso.