07/05/2026
Maternidade é…
Talvez uma das experiências mais atravessadas por expectativas sociais e, ao mesmo tempo, uma das mais singulares que existem.
Na clínica, isso aparece o tempo inteiro.
Há mães que vivem a maternidade como expansão de sentido. Outras como exaustão, culpa, medo, solidão ou ambivalência. Há mulheres que desejam profundamente ser mães e não conseguem. Há mães que perderam filhos. Filhos que perderam suas mães. Mulheres que maternam irmãos, netos, sobrinhos. Mulheres que não quiseram maternar. Mulheres que amam seus filhos e, ainda assim, sofrem dentro da experiência da maternidade.
Maternidade não acontece fora da cultura. Ela é atravessada por gênero, classe social, raça, rede de apoio, violências, condições de trabalho, história familiar, expectativas religiosas e modelos sociais de “boa mãe”. Existe uma construção socio-histórica sustentando aquilo que muitas mulheres acreditam que deveriam ser e muitas adoecem tentando caber nisso.
Na prática clínica, escutar maternidades exige mais do que empatia. É preciso desenvolver a capacidade de sustentar complexidade, de não romantizar e não patologizar esse fenômeno.
É preciso perceber que nem sempre o sofrimento nasce da maternidade em si, mas do isolamento, da sobrecarga, das perdas invisíveis, dos traumas reativados e das exigências impossíveis que organizam essa vivência.
Quando uma psicóloga não amplia seu olhar sobre maternidade, corre o risco de escutar apenas o “papel de mãe” e perder a pessoa que existe ali.
E talvez esse seja um dos convites clínicos mais importantes desse tema: aprender a acessar a singularidade de cada experiência sem desconsiderar o contexto social que a produz, atravessa e sustenta.
Maternidade é plural e o sofrimento dentro dela também.