29/07/2025
Seguinte, este é meu site no Patreon para uem quiser ler textos do blog soropositivo e textos exclusivos, que enão couberam na edição em papel de memórias de um homem da noite, vou postar um destes textos aqui e vocês me dicam se gostaram ou nao!
Patrícia
O único erro quase tão grande quanto o de unir-me à Teresa foi o de unir-me unir à Patrícia. Quando entrei na relação com a Teresa, eu era um menino de dezenove anos, levando um vareio de uma mulher da noite, seis anos mais velha que eu. Patrícia era mais jovem, menos vivida, mas muito bem articulada.
Ela era garçonete numa casa de espetáculos onde trabalhei como operador de áudio e DJ — isso já depois do diagnóstico. Observem: eu estava desesperado. Em dois anos vivendo com HIV, só tinha me relacionado sexualmente com uma única pessoa, Brenda, a mulher que tinha vergonha do próprio nome, de tão feio, segundo ela de tal maneira que ela criou, para si, esta pessoa chamada Brenda, com documentos falsos, contratos assinados com esta documentação falsa com esta documentação e uma assinatura falsa e que, curiosamente, não suportava mentiras, coisa que já contei no livro, e que levou tudo, o meu diagnóstico numa boa... e terminou comigo uma semana depois.
Sem coragem de romper de frente, usou subterfúgios e saiu fora.
Eu estava frágil, beirando o suicídio. Mas seguia trabalhando, como já disse.
Esse primeiro caso nem merece nome citado — fez a baixaria de me dar uma impressora de presente. Joguei no lixo da rodoviária de São Paulo.
Contei tudo para a Patrícia que, um amor, encarou tudo numa boa, foi empática, para usar um verbete em voga por estes dias.
Disse que dava para viver normalmente, que sabia, e sabe o que mais? Que me amava.
Comecei uma vida nova, como eu estava morando em Guarulhos.
Tinha alugado uma casa com a maré alta dos bichinhos virtuais e comecei a procurar emprego na Santa Ifigênia. Era difícil, mas consegui. E aí, sim, ficou difícil de verdade.
A casa que aluguei era péssima, mas servia para mim, um homem sozinho. Para a Patrícia, não.
As goteiras — que eram muitas — eram intoleráveis. E, com aquele aluguel que eu, Cláudio, pagava, ela dizia que dava para arrumar coisa bem melhor.
Na época, lembro bem: eu pagava R$270 por mês num cômodo e cozinha lá no Jardim Maria Dirce.
Como a Scorpions não tolerava envolvimento de funcionários e mulheres da casa, e eu sabia disso, acabei demitido.
Quer saber, que bom que fui demitido, porque aquele, sim, era o degrau mais baixo que eu poderia descerem minha meteórica carreira de DJ.
Com o que eu já sabia de comp**adores, graças àquele 486 SX 25 eu consegui, rapininho um emprego.
Para falar toda a verdade, tive sorte, pois já tinha trabalhado na Bytão, antes de tocar na Scorpions e fiquei com s mãos de quem trabalha na roça,pois era subir na montanha de sucata comprada em leilão, pegar três, quatro, cinco placas de 386, com cada ponto de solda em cada terminal que mais pareciam instrumentos de sadomasoquismo e tinha de tirar, daquele monte de sucata, todo o dia, três comp**adores com DOS1 e W3.11 instalado e se fosse um 486 você levava um bônus se entregasse ele com um Windows 95 e o Office instalado.
Dito hoje, parece fácil.
Naquela época você instalava o Windows com disquetes de 1.44 Mb formatados para 1,7 com um arquivo .cab ali dentro. E eram 17 disquetes, ou14, não tenho mais certeza, para instalar o Windows 95.
Mais outros 32 disquetes para instalar o Office. Se um disquete desse problema, acabou a instalação ali, pode começar do zero, fazendo FDISK
Format c: /u/s
Esperar uma hora para formatar um HD de 280Mb e só então recomeçar.
Homero era um bom patrão, mas tinha lá os seus macetes. No meu primeiro dia de trabalho ele olhou para mim, tinha 30 máquinas praticamente empilhadas perto da minha mesa e ele falou assim:
-“Cláudião”! “ Format /q/u/s” nestas máquinas agora!
Olhei o conteúdo da primeira e da segunda. Eram da mesma empresa.
Comecei a botar as máquinas por A: e ignorei o conteúdo das máquinas, mas creio eu ele trabalhava com algo diferente de sucata...
Pegava quatro conduções por dia e ganhava R$525, e pagava R$270 de aluguel...
O que eu fazia? Acordava de manhã, tomava os meus remédios contra o HIV (que todo mundo chama de coquetel) — que incluía duas pastilhas de DDI que eu mascava como quem masca o cocô do diabo — e ficava mais uma hora em jejum por conta da absorção medicamentosa que dependia de um ambiente estomacal de hiperacidez gástrica. Trocando em miúdos eu tinha de ter azia duas vezes por dia cada vez por duas horas para tomar o DDI e permanecer vivo. Não me lembro qual eram os outros que eu tomava, mas a conta era de 52 comprimidos por dia.
Descia do ônibus ou da lotação ali na Estação Armênia e ia a pé até os Campos Elísios. Era a exata uma hora da caminhada para chegar no trabalho Trabalhava o dia inteiro, resolvendo problemas que mais pareciam enigmas de pirâmides. E, como técnico em comp**adores, não tinha um comp**ador em casa.
A loja fechava às sete da noite. Daí, a pé, eu saía dos Campos Elísios até a Ponte Pequena (estação Armênia do metrô), esperava na terceira fila, uma hora para pegar um ônibus que ainda levaria mais uma hora e quinze até em casa.
Chegava em casa e era recebido com:
— Você não sai às sete? Por que só chega às nove e meia? Tá ficando com p**as? Porque é a sua cara gostar de p**as!
E eu respondia:
— É a minha cara mesmo. Mas também gosto de garçonetes. Você está se excedendo. Estou cansado. Nem jantei.
— Estava com p**a, jantou lá...
— Não, Pat. Não estava com ninguém. Estava num ônibus, na Via Dutra — uma das estradas mais perigosas desse país — após andar três horas a pé e montar 22 comp**adores para a loja. E agora estou aqui, ouvindo você me acusar de coisas que não fiz. Como eu queria um remédio para dormir e não te ouvir...
Aquele era um relacionamento natimorto.
Mas, em mim, havia o impulso de não a devolver àquela atividade de garçonete. Era muito abuso. Clientes passavam a mão nas pernas e no bu**um só porque o uniforme era minissaia. Decidi mudar com ela para cidade dela, passar um ano lá, encontrar um pretexto e romper.
Patrícia proibiu-me de contar a minha sorologia — e isso dificultou tudo. Porque é bem difícil conseguir trabalho com aquele código do FGTS que eu tinha. E eu não conseguia.
Cheguei até a prosperar. Importava peças de comp**ador do Paraguai, fazia contratos de manutenção, estava indo tudo bem... até que alguém — cobra mandada, com certeza — depositou um cheque com seis semanas de antecedência na minha conta. Ele recebeu.
Os outros cheques... virou um efeito dominó. E eu perdi a minha empresa.
Tinha um amigo lá que sabia da minha sorologia e contou para a namorada dele (ninguém segura essas histórias), que era irmã da Patrícia.
Um dia, quando eles não aguentavam mais ver os pais da Patrícia falando mal de mim, revelaram os detalhes:
— O Cláudio tem AIDS. Ninguém dá trabalho para ele.
Um peso terrível caiu sobre todos. Eu era o ânimo das festas, o cara das piadas, o que se virava, sempre buscando o melhor.
Telefonaram para Patrícia. E ela negou:
— Não sei de nada.
Colocou-me como um canalha a filha da p**a maldita.
A mãe dela, chegando em casa e me vendo deitado num sofá, disse:
— Abrir o coração compartilhar o fardo pode ajudar muito Cláudio.
Muito tarde, dona Zezé.
Eu, que fui para lá com a intenção de ficar um ano e voltar, apaixonei-me pela família.
E por mais de três anos resisti. Mas conheci a Mara pela Internet.
E Mara é, no mínimo, a antítese de todas as mulheres que tive
E assim foi fácil. Terminei com a Patrícia num dia. Quinze dias depois, estava de volta a São Paulo. Em mais dois anos, Mara e eu acertamo-nos. E estamos aqui, juntos, há 25 anos.
Se eu sou feliz?
Bem, tenho AIDS, tenho uma polineuropatia que me arruinou as mãos, vira e mexe o óleo de canabidiol não dá conta e vem a dor polineuropática. Toca eu a tomar 20mg de metadona, esperar uma hora e esquecer-me da dor. Tive dez pneumonias ao longo de 30 anos de infecção e nada disso me importa, porque tenho Mara a meu lado e, com Mara a meu lado enfrento até o Thanos e o Sauron juntos!
E os venço
Memórias de um Homem Da Noite