04/07/2022
Ao longo da minha experiência atendendo na clínica, eu escutei diversas vezes o quanto aquilo que a pessoa estava vivendo comigo seria bom para a mãe, o marido, a tia, o filho, a amiga, o pai, a irmã, a chefe, o colega de trabalho... Frases no sentido de que "todo mundo devia fazer terapia" fazem parte do cotidiano clínico.
Algumas pessoas estranham aqueles que nunca comecem um processo de análise, f**am ainda mais confusas com aqueles que começam, mas que por algum motivo (menos claro do que parece ser) interrompem, muitas vezes com a promessa de que quando a situação financeira melhorar ou quando estiver com mais tempo na agenda retornam...
Não me estranha nem a primeira e nem a segunda situação. Na verdade parece bem compreensível, já que diferente de outros tratamentos nos quais é o profissional quem dá as diretrizes, examina, diagnostica e prescreve algo, numa relação mais vertical, na qual um está acima e detém o saber e alguém está embaixo, na condição passiva de paciente, esperando do outro que sabe e apenas sendo conduzido por ele. Numa análise psicanalítica as coisas vão por um outro caminho.
Vamos juntos, lado a lado, explorando o que é que de fato se passa em sua vida, o que o sintoma que te trouxe até aqui fala, qual o discurso ele traz consigo, quais seus conflitos e como estes tem provocado manifestações sintomáticas, o que tem te angustiado e como você tem se defendido dessas angústias, qual o seu modo de ser e de sofrer no mundo, como foi se estruturando sua personalidade, como você tem funcionado até aqui e nisso uma inquietação se levanta: qual sua responsabilidade naquilo do que você se queixa?
Como é possível perceber não estamos lidando com qualquer coisa, muito menos pouca coisa. São questões profundas, que na tentativa ilusória de manter um certo controle da situação e fugir do inevitável sofrimento, escondemos de nós mesmos, não querendo saber daquilo que é nosso e que insiste em se inscrever, mesmo que não queiramos ver, mesmo que desejemos não saber, aquilo vasa, se esparrama, grita... E como dormir com esse barulho? As vezes com a ajuda de alguma medicação, que por mais que silencie o incômodo, não o dissolve, ele permanece alí.