08/03/2026
Hoje celebramos o Dia da Mulher.
Mas nem todas as mulheres conseguem chegar até essa data.
Enquanto recebemos flores, mensagens e homenagens, existe uma pergunta que também precisa ser feita: onde estão as mulheres que não chegaram até aqui?
Algumas tiveram suas histórias interrompidas cedo demais. Vítimas de violências que muitas vezes começaram dentro de relações que um dia chamaram de amor. Outras seguem entre nós, mas carregando na memória tudo aquilo que foram obrigadas a engolir em silêncio.
Se formos honestas, quase toda mulher carrega em sua história pelo menos uma experiência de violência, invalidação ou desrespeito. Pelo menos uma. E digo “uma” sendo até modesta, porque para muitas são várias.
A violência pode ter sido física, sexual ou emocional. Pode ter vindo de um desconhecido na rua, de alguém dentro de casa ou de alguém que dizia amar.
Existe também a violência que acontece dentro dos relacionamentos. Dentro do casamento. Dentro de casas que, por fora, parecem absolutamente normais.
A mulher que vive ao lado de alguém que controla suas roupas, suas amizades, seus horários.
A mulher que aprende a medir cada palavra para não provocar uma discussão.
A mulher que é humilhada em silêncio, diminuída, manipulada, desacreditada.
A mulher que escuta que não é suficiente, que não é boa o bastante, que ninguém mais iria querer f**ar com ela.
A mulher que vive relações onde o amor se mistura com medo. Onde o cuidado se mistura com controle. Onde o respeito deixa de existir. E ainda assim ela permanece. Às vezes por falta de apoio. Às vezes por dependência financeira. Às vezes pelos filhos. Às vezes porque foi ensinada a acreditar que precisa suportar.
Existem também as violências que nem sempre recebem esse nome, mas que nos atravessam de muitas formas. Silenciando nossas vozes. Tentando nos diminuir. Tentando nos apagar.
A mulher que foi desacreditada quando contou o que aconteceu com ela.
A mulher que ouviu que estava exagerando, que era drama, que precisava “deixar pra lá”.
A mulher que teve sua dor diminuída.
A mulher que teve suas escolhas julgadas.
A mulher que é questionada quando decide não ser mãe, como se sua existência precisasse passar pela maternidade para ser completa.
A mulher que precisa provar todos os dias sua competência no trabalho. Que fala em uma reunião e é ignorada, até que a mesma ideia seja repetida por um homem. Que recebe menos. Que é vista como menos preparada, menos firme, menos capaz.
A mulher que aprende desde cedo que precisa se proteger.
A não andar sozinha em certos lugares.
A avisar quando chega em casa.
A compartilhar localização.
A evitar certos caminhos.
O medo nos ronda. Às vezes de forma explícita. Às vezes silenciosamente. Mas ele está ali, presente em muitas decisões pequenas do nosso cotidiano.
E todos os dias a gente liga a televisão, abre o celular ou vê mais uma manchete.
Mais uma mulher agredida.
Mais uma mulher violentada.
Mais uma mulher assassinada.
Histórias que viram notícia por alguns dias, mas que carregam vidas inteiras interrompidas. Famílias destruídas. Filhos que crescem sem suas mães.
Existe também uma violência que muitas mulheres encontram justamente em um dos momentos mais intensos de suas vidas: o nascimento de um filho.
O parto deveria ser um espaço de cuidado, respeito e presença. Mas muitas mulheres são mandadas calar quando gritam de dor. São tratadas com pressa ou impaciência. Ouvem frases humilhantes. Têm seus corpos tocados ou manipulados sem explicação, sem consentimento, sem escuta.
Eu trabalho todos os dias com mulheres. Escuto histórias que muitas vezes não aparecem nas estatísticas. Histórias que f**am guardadas na memória de quem viveu.
Mulheres que saem do parto com seus bebês nos braços, mas também com marcas profundas dentro de si.
Não porque o parto foi intenso — porque ele naturalmente é —, mas porque foram desrespeitadas justamente no momento em que estavam mais vulneráveis.
Talvez por isso o 8 de março não possa ser apenas uma “comemoração”.
Vivemos em um mundo que muitas vezes nos fere simplesmente por existirmos como mulheres.
E eu não quero ser lembrada como a mulher que manteve a boca fechada diante disso.
Porque silenciar também nos apaga. E mulheres já foram apagadas demais.
Metade do mundo são mulheres.
A outra metade são filhos delas.
Porque viver como mulher, muitas vezes, ainda signif**a aprender desde cedo a se proteger de um mundo que insiste em nos ferir simplesmente por existirmos.